Criação de criptomoedas se tornou mais simples e pode ocorrer em horas; entenda

Estimativas variam entre 10 mil e 15 mil criptomoedas em circulação, mas é preciso atenção para não cair em golpes

Facilidade de criar criptomoedas também facilita a prática de golpes contra investidores
Facilidade de criar criptomoedas também facilita a prática de golpes contra investidores Dado Ruvic/Reuters

João Pedro Malardo CNN Brasil Business

em São Paulo

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O bitcoin é, atualmente, a criptomoeda mais negociada e conhecida do planeta, mas está longe de ser a única. Os levantamentos variam, mas indicam a existência de 10 mil a 15 mil criptomoedas em circulação.

O número é considerado alto por especialistas, mas reflete também uma facilidade crescente de criar uma criptomoeda. O processo, hoje, pode ocorrer em algumas horas e exige poucos recursos.

Nem sempre foi assim, e as criptomoedas originais, caso do bitcoin, demoraram mais tempo para serem construídas, com uma tecnologia criada do zero.

Hoje, porém, essa mesma tecnologia é a base para a expansão desses ativos, ao mesmo tempo em que facilita a realização de golpes e exige atenção dos investidores.

Os métodos de criação

Segundo Gabriel Aleixo, desenvolvedor de novos negócios da empresa de blockchain Hathor, em geral, os métodos de criação de criptomoedas podem ser divididos em três.

O primeiro, e mais antigo, envolve criar uma tecnologia de blockchain própria, do zero e com uma rede própria, o que demanda mais tempo, conhecimento e recursos. Foi esse caminho que a maioria das criptomoedas mais antigas, como bitcoin e ethereum, tomaram.

Entretanto, uma das bases do setor de criptoativos é a ideia da tecnologia aberta. Ou seja, os criadores dessas criptomoedas deixaram os seus códigos de funcionamento com acesso livre. E isso deu origem ao segundo método.

Nele, há uma rede de blockchain própria, responsável por processar transações, mas o código da criptomoeda é uma cópia de outra, com poucas alterações. Os casos mais famosos são o litecoin, criado a partir do código do bitcoin, e uma das primeiras criptomoedas “memes”, o dogecoin. Aleixo resume esse processo a um “remix” de códigos originais.

O mais utilizado, porém, é o mais recente, considerado por muitos como o mais fácil, simples e que exige menos tempo e recursos. Por ele, é possível criar um token, uma definição usada para criptoativos que surgem a partir de outras redes de blockchain, sendo a rede mais comum a do Ethereum.

“Ele surge nas funcionalidades de plataformas já existentes, com um grau de tecnologia que varia de caso em caso. A vantagem é que não demanda criar uma nova rede, e faz isso usando um contrato inteligente, um programa que define como vai funcionar, a quantidade e a distribuição”, diz Aleixo.

O contrato inteligente permite definir todas as características da criptomoeda. O mais comum é que elas não precisem ser mineradas, como o bitcoin, mas sim já surjam com uma quantidade máxima disponível, que vai sendo negociada.

Graças a essa nova forma, a criação de criptomoedas adotou um caráter exponencial. Hoje, para criar uma criptomoeda é preciso “apenas de uma boa ideia”, afirma Fabricio Tota, diretor de novos negócios do Mercado Bitcoin.

“Elas diferem muito do ponto de vista tecnológico, podem ser mais complexas, e até únicas, como foi o bitcoin lá no começo, ou pode ser bem simples, por exemplo, criada em cima de outra plataforma feita para simplificar esse processo”.

Após o nascimento

Edemilson Paraná, professor da UFC, afirma que o processo de criação é simples, mas é o pós-criação que demanda mais esforço e recursos para garantir que uma criptomoeda será um sucesso.

“Quem consegue acertar nessa criação ganha muito dinheiro com relativamente poucos recursos, não exige uma fábrica e centenas de trabalhadores”, diz.

Em geral, as formas mais comuns de alavancar uma criptomoeda envolvem atribuir uma utilidade clara a ela, ligá-la a um evento ou tecnologia, obter declarações de apoio de pessoas famosas ou, então, apresentá-la como uma sátira, caso das criptomoedas memes.

Mesmo assim, é necessário uma certa dedicação para garantir que as pessoas procurem e formem uma comunidade suficientemente interessada no ativo e em sua negociação. “Hoje existe um ecossistema tecnológico, com ideias, para ter uma função, e até investidores-anjo. A ideia é criar e escalar essa criptomoeda. Isso que é difícil”.

Segundo o professor, a maioria das criptomoedas hoje não consegue realizar essa alavancagem, e as que conseguem ficam mais restritas a um nível regional, distantes do alcance das mais estabelecidas, como o bitcoin, o ethereum e o litecoin.

Aleixo afirma que é importante que os criadores das criptomoedas pensem de qual forma querem atrair investidores. Há a perspectiva especulativa, do investimento, que segundo Paraná envolve muitas vezes promessas exageradas de grandes ganhos em pouco tempo.

Mas há também a esfera utilitária. “É algo bem individual. Para alguns pode ser útil, para outros não. Alguns compram bitcoin como reserva de valor em países com inflação alta para preservar poder de compra, por exemplo. Tem que entender o tipo de uso e o período”, afirma Aleixo. Um uso que tem crescido envolvendo criptomoedas, por exemplo, é em metaversos de jogos, como moeda para compras.

Cuidados ao investir

No dia 2 de novembro, os investidores que colocaram dinheiro na criptomoeda SQUID, inspirada na série “Round 6”, foram vítimas de um golpe. Todo valor investido, cerca de US$ 2 milhões, foi sacado pelos criadores da criptomoeda.

À época, ela chegou a valer US$ 2.861, mas a criptomoeda tinha um porém em seu código: não era possível vendê-la. O golpe serve de alerta para os interessados em investir em criptomoedas menos conhecidas.

“É um mercado de muita valorização, e muito rápida, e fica fácil enganar as pessoas, fazer promessas irreais”, afirma Paraná.

Para Tota, é importante que os investidores interessados no setor de criptomoedas lembrem de uma máxima dele. “Faça a sua própria pesquisa. Não compre baseado em recomendações ou elogios. Saiba quem criou a criptomoeda, e não acredite facilmente em promessas”.

Aleixo também destaca a importância de entender no que se está investindo, e se o uso será para investimento ou se será utilitário. Em última instância, ele diz que “se não sabe no que está investindo e não tem uso, estude antes de proceder com a compra, e comece comprando pouco para ir entendendo como funciona”.

“É preciso saber que é um tipo de investimento altamente especulativo e volátil, desregulado e sem presença ativa de autoridades. Portanto, sem nenhuma garantia em caso de fraude”, afirma Paraná. O mercado complexo exige, para ele, um conhecimento alto, assim como cuidado.

Outra dica do professor é buscar sempre diversificar os investimentos, compensando investimentos em ativos voláteis com ativos mais seguros. Além disso, ele recomenda não colocar mais que 5% ou 10% do patrimônio em investimentos como esse.

Criptomoedas
Investimento em criptomoedas deve levar em conta caráter altamente volátil dos ativos /Reuters

Formação de bolha?

Gabriel Aleixo se refere ao momento atual das criptomoedas como uma “explosão cambriana”, período na pré-história em que a maior parte dos organismos surgiu, de forma relativamente rápida.

Uma comparação mais recente é com a chamada “bolha do ponto com”. “Lá nos Estados Unidos surgiram milhões de empresas .com captando muito dinheiro com investimentos. É saudável? Sim e não. Noventa por cento delas quebraram. Foi uma bolha, com excesso de investimentos, mas os 5% que sobreviveram são Amazon, Apple, Google. São as gigantes de hoje”, diz.

Para ele, o movimento no setor de criptomoedas deve ser semelhante, com muitos projetos que existem hoje deixando de existir, mas alguns grandes duradouros. O problema, segundo Aleixo, é que nesse meio do caminho “muita gente inevitavelmente vai perder dinheiro, mas muita gente vai ganhar muito dinheiro com os projetos que vingarem”.

Já Paraná afirma que “enquanto tiver gente disposta a colocar dinheiro, atraídas pelo caráter especulativo, é possível esperar que o tamanho desse mercado aumente e vá atraindo mais investidores e criadores”.

Segundo o professor, ainda é difícil cravar que o setor passará por uma explosão, e ele não possui ainda o tamanho de mercados mais especulativos, como o de pensões, derivativos e títulos.

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