Dogecoin, Shiba Inu: criptomoedas de meme estão atrapalhando o mercado?

Os preços do bitcoin caíam 8% na sexta-feira (28) e despencavam cerca de 36% em maio, seu pior desempenho mensal desde setembro de 2011

Dogecoin
Dogecoin Foto: Yuriko Nakao/Getty Images

Matheus Prado,

do CNN Brasil Business, em São Paulo*

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“Sell in May and go away”, ou “venda em maio e vá embora”, é um velho ditado repetido pelo mercado financeiro há décadas. A teoria é que as bolsas de valores performam pior nos meses seguintes, só voltando a aquecer em outubro.

Pois os investidores de bitcoin, e de boa parte das outras criptomoedas, venderam em maio. Só não se sabe se eles irão embora para sempre. Os preços do bitcoin caíam 8% nesta sexta-feira (28) e despencavam cerca de 36% em maio, seu pior desempenho mensal desde setembro de 2011.

O que nos leva a questionar, depois das altas vertiginosas do primeiro trimestre, em que ponto o caldo entornou. Talvez não exista uma resposta única, e sim uma torrente constante de más notícias que fizeram o ativo despencar desde que atingiu seu recorde histórico, acima de US$ 64 mil, em abril.

Impossível não citar, por exemplo, o “empurrãozinho” do CEO da Tesla, Elon Musk. Depois de inflamar investidores nas redes para comprar criptoativos, ele disse que a gigante dos carros elétricos não aceitará mais o bitcoin como pagamento por seus veículos devido a preocupações com o impacto ambiental da sua mineração.

Musk, desde então, suavizou um pouco sua postura, concordando, graças à insistência de Michael Saylor, CEO da MicroStrategy e entusiasta das criptos, em se reunir com chefes de várias mineradoras do ativo baseados na América do Norte para falar sobre questões de uso de energia.

Mesmo com o recuo, investidores e analistas ficaram irados com o fato de todas as criptomoedas terem subido e descido junto com bitcoin e dogecoin, em parte devido às mudanças de humor de Musk sobre elas. Também estão aborrecidos, para dizer o mínimo, que um comentário de Musk possa mexer nos preços de forma tão radical.

Para piorar, a China também intensificou sua repressão aos criptoativos e o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos revelou novos planos para taxar o bitcoin mais pesadamente, enquanto o Federal Reserve (banco central dos EUA) insinuou sobre a possibilidade de um dólar digital, o que poderia enfraquecer a indústria.

Na mesma linha, o CEO do HSBC, Noel Quinn, afirmou que não acredita no futuro das criptos. Em entrevista à agência de notícias Reuters, disse que seu banco não tem planos de lançar uma corretora de negociação de criptomoedas e, “dada a volatilidade, não gostamos da classe de ativos”.

Ou seja, um mês de desajustes foi suficiente para que a indústria perdesse trilhões em valor de mercado e, consequentemente, detratores que andavam mais silenciosos aparecessem para externar suas opiniões contra os criptoativos. 

É claro que, passado o momento de histeria coletiva, a tendência é que o mercado de cripto, já estabelecido nos últimos anos, volte a operar com um pouco mais previsibilidade (não muita, é verdade, mas mais do que agora). Resta saber se a indústria, e principalmente seus investidores, passarão por processo de amadurecimento.

Memecoins

Boa parte das “contribuições” de Musk, enquanto pessoa física, para o mercado de criptoativos, tem a ver com memes. Ele foi um dos grandes impulsionadores, por meio dos seus tuítes, do dogecoin, ativo criado como uma piada em 2013 e que tem um cachorro da raça Shiba Inu como sua imagem.

A isca do excêntrico empresário foi mordida, pasmem, em subfóruns do Reddit, plataforma que também foi utilizada por jovens investidores pessoa física para sustentar o short squeeze de GameStop em janeiro (inclusive, enquanto as criptos caíam, ações da GameStop e da rede cinemas AMC Entertainment voltaram a disparar na última semana de maio).

“O mercado de investimentos é naturalmente especulativo. Até certo grau, existia uma lógica mais clara, mas, com cripto, isso ficou mais confuso. Entendo que estes movimentos acabam atraindo pessoas que enxergam somente o sobe e desce dos preços”, diz Fábio Alves Moura, CLO da consultoria AMX Law.

“Também existe uma parcela de FOMO [“fear of missing out” ou medo de ficar de fora, em português]. Há questões psicológicas, já que o ser humano tem essa tendência de querer ganhar fácil sempre.”

FOMO ou não, DOGE chegou a avançar 12.000% no ano e fez alguns dos seus entusiastas ficarem milionários, à exemplo de Glauber Contessoto, brasileiro radicado nos Estados Unidos que possui 4 milhões de moedas da cripto, o equivalente a US$ 1,3 milhão (e US$ 2,8 milhões no pico).

“Dogecoin era realmente uma piada no início, mas, hoje, é óbvio que estas moedas coexistem com as outras. O que o investidor precisa é ter consciência que está comprando por achar legal, e não porque o ativo tem uma proposta”, diz Mayra Siqueira, Local Manager da bolsa de criptomoedas Binance, que oferece o ativo, no Brasil.

“Trata-se de uma loteria, levar como investimento é mais complicado. Em cripto, o investidor precisa estudar e saber o que está fazendo. Perder dinheiro em investimentos até faz parte, mas é preciso diferenciar as coisas.” 

Deste cachorro, nasceu um filhote chamado shiba inu coin. Ou seja, um meme do meme. Ainda que sem as mesmas tração e volume do seu progenitor, SHIB foi de US$ 0,00000000 em novembro de 2020 para US$ 0,00003791 no seu pico, em 10 de maio. Parece pouco, mas trata-se, segundo o site CoinGecko, de uma valorização de oito dígitos.

Para além dos cachorros, existe uma lista de criptoativos de meme que cresce diariamente, seja de forma orgânica ou com o empurrão de influenciadores. Apesar disso, Samir Kerbage, CTO da Hashdex, que lançou um ETF lastreado em criptoativos no Brasil, confia na solidez do mercado.

“Quando falamos de investimento institucional, a régua é muito mais alta. Não imagino que os grandes players vão entrar nos ativos de memes, mas também não acredito que isso irá prejudicar a entrada deles nas criptos mais sérias. O mercado está amadurecendo e ainda terá muitos avanços pela frente”, diz.

“Para os investidores de varejo, no entanto, o movimento pode prejudicar bastante. Muita gente corre o risco de perder dinheiro nesse tipo de operações e ficar resistente em entrar em cripto novamente. As pessoas não podem entrar nas memecoins achando que vão ganhar dinheiro. Precisa ser uma decisão mais pessoal, até para guardar o ativo como item de coleção.”

*Com informações de Paul R. La Monica, do CNN Business

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