Crises energéticas devem influenciar estratégias climáticas, dizem especialistas

Brasil, China e Europa têm enfrentado problemas ligados às fontes de energia que empregam

Energias eólica e solar podem ganhar mais espaço devido à crise energética
Energias eólica e solar podem ganhar mais espaço devido à crise energética Foto: Reuters/Stringer

João Pedro Malardo CNN Brasil Business*

em São Paulo

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O segundo semestre de 2021 tem sido marcado por uma série de crises energéticas que atingiram regiões diferentes pelo mundo. Brasil, Europa, China, e mais recentemente a Índia, passaram a enfrentar dificuldades para gerar energia, o que ameaça a recuperação econômica global.

Em meio a essas dificuldades, o debate em torno das mudanças climáticas ganha cada vez mais força. Uma delas é a chamada transição energética, em que países diminuem a dependência de fontes poluentes, como petróleo, carvão e, em menor grau, gás natural.

No lugar, ganhariam espaço fontes chamadas de renováveis, como hidrelétricas, energia solar e eólica. O problema é que essas fontes dependem da natureza para gerarem energia, e as mudanças climáticas trazem cada vez mais imprevisibilidade.

Especialistas ouvidos pelo CNN Brasil Business apontam que as crises energéticas atuais devem impactar nas políticas energéticas pelo planeta.

O pano de fundo

Joelson Sampaio, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), afirma que não é um exagero relacionar as crises atuais às mudanças climáticas, seja de forma direta ou indireta.

O caso do Brasil é um dos mais evidentes, já que alterações no regime de chuvas, com uma seca prolongada, reduziram reservatórios de hidrelétricas, em especial na principal área geradora, e exigiram a ativação das termelétricas para suprir a demanda, mas encarecendo as contas de luz.

Na Europa e na China, Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), atribui a situação a dois movimentos.

O primeiro é a pandemia. A retomada, com o avanço da vacinação, fez com que a demanda por commodities, incluindo o gás natural, carvão e petróleo, subisse rapidamente, mas sem um acompanhamento da oferta, encarecendo os preços.

Para Pires, a oferta de energia vai crescer nos próximos meses. “Mas é pouco provável que cresça de forma que reduza os preços de maneira significava, porque envolve a transição energética”, diz.

Já o outro fenômeno é que o ele considera ter sido uma “certa precipitação” no processo de transição, que teria resultado em uma “demonização dos combustíveis fósseis”.

“O que acontece de fato é que a demanda de energia está crescendo muito, em especial a elétrica, e a transição energética de forma um pouco radical ajudou muito a cortar essa oferta, reduzir consumo de carvão, gás, petróleo, então, tem essa consequência agora”, afirma.

Um exemplo é a situação da China. O país, que usa o carvão como principal fonte de energia, foi afetado por uma conjunção de fatores.

Primeiro, deixou de comprar o minério da Austrália, com quem se envolveu em uma disputa diplomática. Segundo, inundações geradas por chuvas fortes – inseridas no contexto das mudanças climáticas – afetaram regiões produtoras de carvão dentro e fora do país, reduzindo a oferta.

O país decidiu reduzir drasticamente seu consumo de carvão para diminuir sua contribuição para as mudanças climáticas, limitando a atividade de mineradoras, restringindo o uso por indústrias e a importação.

“Como a China é muito grande, até em população, mesmo indo muito rápido nesse investimento [em renováveis], existe uma presença ainda muito massiva da geração através de combustíveis fósseis”, diz Virginia Parente, economista e professora do IEE-USP.

Em um cenário de retomada econômica, não foi possível compensar a demanda com fontes renováveis, e o país teve que comprar mais gás natural, elevando os preços mundialmente.

E nem isso foi o suficiente. Diversas províncias enfrentam apagões e restrições no consumo de energia. A alta do gás se estendeu para a Europa, que também enfrenta um suplemento menor da Rússia e, ao mesmo tempo, precisou aumentar o consumo devido a uma geração abaixo do esperado do parque eólico do continente.

A demanda maior e a baixa oferta têm gerado dificuldades que se espalharam pelo mundo. Na Índia, por exemplo, as usinas termelétricas movidas a carvão, responsáveis por gerar quase 2/3 da energia do país, já enfrentam uma possibilidade de falta do minério.

“O preço alto [da energia] faz com que a inflação volte de forma muito forte, e daqui a pouco isso pode levar a alta de juros, e isso prejudica o crescimento econômico em 2022, podendo gerar até uma recessão global”, afirma Pires.

As possíveis consequências para o Brasil

Pensando no caso do Brasil, Sampaio considera que “olhando para frente, essas crises tendem a reforçar o aspecto de diversificação da matriz energética brasileira com fontes renováveis, criar mais incentivos para usos de energia limpa, no caso eólica, fotovoltaica”.

O Brasil possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, com uma grande participação das usinas hidrelétricas. Se isso facilita um processo de transição energética, por outro lado, gera uma grande dependência, o que é algo negativo.

Para a professora, a crise atual pode fazer com que o papel das hidrelétricas mude, saindo de provedor de energia para “principal bateria do sistema”. “Significa que elas não vão ser necessariamente despachadas o tempo todo. Se tem mais parques eólicos e solares, segura mais água e pode usar em situações que falte eólica e solar”.

Sampaio afirma que, por mais que no curto prazo a solução tenha sido o uso das termelétricas, que são mais caras e poluentes, as energias eólica e solar devem ganhar espaço.

“Temos políticas de incentivo, mas ainda é muito incipiente. Há espaço para melhorar, e é isso que esperamos, mais incentivos para fortalecer. Eu acho que não necessariamente incentivos fiscais, um pouco mais de mudança regulatória, de flexibilizar o setor”.

Já Adriano Pires considera que seria interessante para a matriz elétrica brasileira uma diversificação, mas buscando uma confiabilidade maior, pelas térmicas a gás, já que fontes como eólica e solar ainda dependem da natureza, sendo “reféns” do clima.

E no resto do mundo?

O diretor do CBIE diz que o cenário atual faz com que o mundo todo tenha que refletir sobre a transição energética e se ela está sendo feia de forma rápida demais. “Eu considero que a transição se faz em décadas, não anos”.

Mesmo reconhecendo a pressão das mudanças climáticas, ele afirma que os países estão tendo dificuldade em substituir as fontes fósseis por fontes limpas mantendo o padrão de consumo.

“É o efeito de uma transição energética mal planejada, que não atacou a demanda, os hábitos de consumo, mas sim a oferta. Os países centrais vêm com a tese ambiental, mas eles precisam liderar isso, precisam reduzir demanda, gastar menos energia”, afirma.

Segundo ele, se a transição energética ocorrer rápido demais e trouxer muitos efeitos negativos, a própria pauta ambiental pode se enfraquecer na opinião pública, dificultando ainda mais o combate às mudanças climáticas.

Pensando no caso chinês, Parente considera que o país pode reduzir as restrições ao carvão em meio à crise, o que já vêm ocorrendo, mas que isso deve ser temporário. “Eles não estão sendo muito agressivos com as restrições. O mundo até queria que fossem mais”, afirma.

Já a União Europeia deu sinais de que a crise não afastará o bloco das fontes renováveis, pelo contrário. Um suporte maior a essas fontes foi citado como uma das medidas para superar a crise atual.

“Eles têm que lidar também com uma harmonização de diferentes parques eólicos, aumentar a previsibilidade da geração de energia, o planejamento. A mesma coisa para a energia solar. É preciso gerenciar melhor esses recursos intermitentes e aí conseguir fazer com que elas ocupem mais espaço na geração de energia. Isso envolve um investimento em tecnologia”, diz a professora.

Desafios devem ser discutidos na COP 26

O debate em torno dessas questões fica ainda mais forte devido à proximidade da COP 26, evento que discutirá as mudanças climáticas e reunirá boa parte dos países do planeta. A expectativa é que muitos deles anunciem novas metas para reduzir a emissão de gases que causam o efeito estufa.

Adriano Pires afirma, porém, que as crises energéticas atuais “vão deixar a COP 26 meio desmoralizada, porque ela tem que refletir o que está acontecendo”.

“Não adianta pensar o problema de clima reduzindo oferta, mas sim demanda, e quem tem que fazer isso são os maiores consumidores, Estados Unidos e Europa, não Brasil ou África”.

Já Joelson Sampaio diz que o cenário atual tende a fortalecer a pauta ambiental na COP 26, trazer novas metas, mas também um compromisso ainda maior nos governos e países pensando em meio ambiente e clima. “Mais até do que as metas, o marco vai ser uma questão de como tirar o papel, materializar, mudar as práticas”.

*Sob supervisão de Thâmara Kaoru

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