Inflação: o que é e como ela impacta os investimentos e os salários

Entenda como os índices de inflação impactam os investimentos, quais títulos se beneficiam deles e como afetam toda a economia

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Dinheiro Pedrosa_picture por Pixabay

Raphael Coraccinicolaboração para o CNN Brasil Business

em São Paulo

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A inflação é vista como vilã por quem consome, mas pode ser amiga de quem consegue poupar e aplicar o dinheiro. De um jeito ou de outro, a inflação sempre desperta a atenção dos brasileiros. O controle do seu índice é essencial para o desenvolvimento da economia e capaz de direcionar o dinheiro para a economia real (produção e consumo) ou para o setor financeiro (investimentos e especulação).

Para os investidores, a alta da inflação quase sempre significa ganhos. Porém, é preciso usar o indicador de preços a seu favor. Entenda como os índices de inflação impactam os investimentos, quais títulos se beneficiam deles e como afetam toda a economia.

O que é inflação?

Inflação é o aumento de preços de produtos e serviços ao longo do tempo, ou seja, quando produtos e serviços ficam mais caros de modo geral ao longo do tempo, e continuam encarecendo. Essa situação tende a reduzir o poder de compra da população se o salário não for corrigido ao patamar mínimo dos índices de inflação, que são calculados por órgãos públicos e privados.

O aumento de preços dos alimentos, habitação, transporte e educação são os que mais afetam a população e tende a reduzir o poder de compra. Mas, ao mesmo tempo que corrói o poder aquisitivo, a inflação pode aumentar os rendimentos de quem poupa. Isso será explicado mais adiante, quando relacionarmos a inflação com os investimentos.

Como a inflação funciona no dia a dia?

A inflação representa um aumento geral e persistente dos preços de produtos e serviços que as pessoas mais consomem. O aumento de um item em específico só tem potencial de pressionar a inflação para cima quando esse item é essencial e insubstituível ao consumo da população, como a gasolina.

O aumento sustentado do preço da gasolina é capaz de pressionar a inflação, porque ela é insubstituível e pertence a uma categoria que pesa bastante sobre os preços, a de transporte. Mesmo o etanol, outro combustível muito utilizado, tem a gasolina em sua composição e sofre aumentos de preços se a gasolina encarece.

Porém, o movimento inflacionário não se caracteriza pelo aumento de preço de itens insubstituíveis, mas principalmente pelo aumento generalizado dos preços. Se os preços de itens de várias categorias sobem, as opções diminuem e as pessoas passam a gastar uma parcela maior do seu rendimento para manter o consumo ou simplesmente deixam de comprar. Isso tende a reduzir a atividade econômica e, no limite, causar uma crise.

Além do aumento generalizado dos preços, a inflação também se caracteriza pela persistência nesse crescimento. O aumento pontual durante um curto período não configura uma pressão inflacionária, mas sim a durabilidade dessa alta ao longo do tempo. Isso é fácil notar. É só comparar o quanto se comprava com R$ 100 há 10 anos e o quanto se pode comprar agora. Esse aumento perene dos preços é inflação.

Por que a inflação descontrolada pode ser tão danosa à economia?

O crescimento descontrolado da inflação tem impactos consideráveis sobre toda a economia de um país. O Brasil viu os efeitos deletérios da hiperinflação ao fim dos anos 1980 e começo dos anos 1990, que empobreceu a população e quebrou empresas.

A primeira vítima da inflação descontrolada é o cidadão. Seu poder de compra é reduzido se o salário não acompanha os índices de alta dos preços, e ele empobrece. Em seguida, essa redução do consumo por conta do empobrecimento das pessoas afeta as empresas, que vendem menos, porque o número de pessoas capazes de consumir diminui. A próxima etapa da espiral negativa da inflação é a redução dos investimentos no setor produtivo, que reduz os empregos e a renda da população.

Qual a importância de valorizar os salários diante do aumento da inflação?

Para empobrecer, o trabalhador não precisa ter sua renda reduzida. Basta que, ao longo do tempo, ela não cresça. Como se pode perceber, a inflação cresce constantemente, e o que se pode fazer é tentar controlá-la, mas não revertê-la. A deflação, que é a redução dos preços gerais, quase sempre acompanha estagnação ou crescimento negativo, ou seja, destruição de Produto Interno Bruto, o que configura crise econômica.

Assim sendo, é preciso que o rendimento das pessoas aumente pelo menos ao patamar da inflação para que ela mantenha seu poder de compra. No Brasil, o poder de compra está diretamente atrelado ao valor do salário mínimo, que é a base para o pagamento de proventos de muitas pessoas na ativa e, principalmente, de aposentados. A valorização anual do salário-mínimo tem a função de repor a perda da inflação.

O que afeta os índices de inflação?

Há fatores de curto e longo prazo que impactam o comportamento dos preços na economia. No curto prazo, o aumento dos custos de produção pode jogar os preços para cima porque, ao identificar que está gastando mais para produzir a mesma quantidade de produtos, o empresário tende a repassar esse aumento ao consumidor.

O aumento da procura é outro fator que pode pressionar os preços já no curto prazo. Quando há um alto número de pessoas procurando consumir, a tendência é que os preços subam por conta da lei da oferta e da procura. Podendo vender em maior quantidade e com preço maior, as empresas vão fazer, porque isso aumenta sua lucratividade.

A longo prazo, a taxa de juros tende a forçar a inflação, caso ela tenha altas sustentadas. Juros caros encarecem o crédito às pessoas e às empresas e, por consequência, os produtos na ponta. Há também a questão do aumento da emissão de papel-moeda. Parte dos economistas relaciona o aumento de moeda circulando sem o proporcional aumento de produtividade à perda de poder de compra.

O que é inflação acumulada?

A inflação acumulada é a oscilação de preços relativa a um determinado período. Para calculá-la é preciso somar os resultados do indicador (IPCA ou IGP-M, por exemplo) durante um determinado período para entender como foi o comportamento de preços de um mês para outro ou de um ano para outro.

Quem mede a inflação?

O principal índice de mensuração da inflação é o Índice de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA, que é medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), uma autarquia do Governo Federal. Esse é o índice oficial e acompanha a oscilação de preços de cerca de 300 a 400 itens que os brasileiros mais consomem, que vão de alimentação a serviços de lazer.

Esses produtos, que têm seus preços acompanhados pelo IBGE, mudam ao longo do tempo, conforme muda a cultura de consumo das pessoas. Há pouco tempo, assinatura de jornais ainda compunha o índice, mas saiu da lista por causa da mudança de comportamento do consumidor. Por outro lado, serviços de streaming de vídeo passaram a ser incluídos entre os itens que pesam no encarecimento da vida das pessoas.

Para medir esses preços, o IBGE faz pesquisa mensalmente junto a estabelecimentos comerciais, residências, empresas e concessionárias de serviços.

Além do IPCA, o IGP-M também é utilizado para medir a oscilação de preços no país. Esse índice é calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), uma instituição privada, e conhecido como a “inflação do aluguel”, porque é bastante utilizado pelo setor imobiliário para calcular reajustes na cobrança do aluguel ou da parcela do financiamento imobiliário.

O IGP-M foca mais no aumento de preços ao longo da cadeia produtiva (captando a inflação entre produtores, distribuidores e varejistas), enquanto o IBGE se debruça sobre o aumento no preço para o consumidor final.

Como a inflação afeta as pessoas?

Há, basicamente, duas maneiras de a inflação afetar as pessoas diretamente. Uma delas é pela perda do poder de compra. Se os preços sobem e o salário se mantém, o cidadão passa a comprar menos.

A outra maneira é o impacto sobre os investimentos. A rentabilidade do investimento também é afetada pela inflação. A depender do tipo de investimento, ele pode ser beneficiado ou não pelo aumento dos preços, mas a maior parte dos investimentos se favorece da alta nos preços.

O IPCA e o IGP-M, que são os índices mais usados para calcular a inflação, são usados como indicadores em muitos investimentos do tipo renda fixa. Para esses casos, quanto mais esses índices sobem, mais os investimentos se valorizam.

Portanto, é preciso entender que a inflação alta tende a ser penosa para quem direciona sua renda principalmente ao consumo, mas pode ser bastante lucrativa para quem consegue poupar dinheiro e colocá-lo num investimento de renda fixa.

Como a inflação deve ser considerada nos meus investimentos?

Os investimentos, assim como o poder de compra, podem ser negativamente afetados pela inflação. O que a inflação faz é reduzir o valor do dinheiro ao longo do tempo, esteja esse dinheiro empregado em algum investimento ou esperando ser usado na sua conta-corrente.

Porém, tudo muda quando o investimento acompanha a inflação. Como dito anteriormente, os investimentos que se valorizam na inflação são os de renda fixa, exatamente porque seu rendimento é condicionado à Selic, taxa básica de juros utilizada para conter os preços quando o Banco Central identifica tendência de alta para a inflação.

Como a inflação no Brasil é algo que só cresce, os investimentos em renda fixa são quase sempre seguros e só terão rentabilidade negativa diante de taxas de administração muito altas praticadas pelas corretoras. Abrem mão da renda fixa os investidores que querem arriscar ganhos maiores, acima da inflação. Para isso, eles recorrem a ações e outros investimentos mais arrojados, que funcionam sem relação direta com os índices de preço.

O que é a rentabilidade real dos investimentos?

A rentabilidade nominal é a que, geralmente, as instituições que ofertam produtos de investimentos anunciam, porque ela apresenta números mais atraentes. Porém, esse valor anunciado não é o que o investidor vai embolsar, de fato, ao fim do contrato. A rentabilidade nominal é apenas o ganho bruto, que ainda não sofreu nenhum tipo de desconto.

A primeira conta que se faz depois de saber a rentabilidade bruta do investimento é sobre o valor que deve ser pago de taxas e impostos. Esse cálculo vai gerar a rentabilidade líquida, que ainda não é a que o investidor vai levar para casa. Depois de saber a rentabilidade líquida, é descontada a inflação do período, para, enfim, ter a rentabilidade real do investimento.

Ainda que o investimento não seja superior à inflação, ele ainda pode ser importante. Isso porque a inflação, como se sabe, corrói o valor do dinheiro a cada dia que passa. Se o investimento garantir ao menos a reposição da taxa de inflação do período já é mais interessante do que manter o dinheiro parado em uma conta-corrente, sem rendimento nenhum.

Quais investimentos estão atrelados à inflação?

O Tesouro IPCA+ é um título público que paga o valor do IPCA mais uma taxa prefixada. Esse tipo de investimento garante que o investidor evite a perda de poder de compra e ainda ganhe algo a mais. Falando de títulos privados, aplicações em CDBs e letras de crédito, como LCI e LCA, também estão atreladas à inflação e têm rendimentos calculados em cima do IPCA.

O IPCA não é o único índice capaz de medir a inflação. O IGP-M também o faz e é usado para calcular, principalmente, reajustes no setor imobiliário. Por isso, fundos imobiliários ou mesmo investimentos diretos em imóveis para locação estão atrelados a esse índice.

Todos esses investimentos são de renda fixa e, por estarem ligados ao aumento de preços, protegem o dinheiro do investidor da desvalorização, e ainda podem render um valor extra.

Mas também existe opção na renda variável. É o caso das ações de empresas que repassam a inflação. Organizações do setor de utilidade pública, como de serviços de energia e água, além das empresas de bens de consumo, conseguem repassar a correção da inflação, além de outros ganhos, a quem compra suas ações. Isso acontece porque seus preços são ajustados pelo IPCA para o consumidor final e esse ganho é incluído na rentabilidade dos papéis.

Qual a relação entre a caderneta de poupança e a inflação?

O rendimento da poupança depende da taxa Selic, que é usada pelo Governo Federal para tentar controlar a inflação. Portanto, sua rentabilidade também está relacionada aos índices de inflação.

A poupança tem dois tipos de rendimento possíveis. Para momentos em que a Selic está igual ou abaixo de 8,5% ao ano, a conta que deve ser feita para calcular a rentabilidade do investimento é 70% da Selic mais a taxa referencial (TR). Com a Selic acima de 8,5%, a poupança rende 0,5% sobre o valor depositado mais a TR.

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