Linhas de crédito ajudam a custear energia solar residencial, mas exigem atenção

Decisão de obter um empréstimo para investir em geração própria deve considerar taxas, conta de luz e dólar

Bancos e fintechs oferecem empréstimos para energia solar residencial
Bancos e fintechs oferecem empréstimos para energia solar residencial Unsplash/ Jeremy Bezanger

João Pedro MalarCleber Souzado CNN Brasil Business

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Na última sexta-feira (5), a Caixa Econômica Federal anunciou que disponibilizará em breve uma linha de crédito para pessoas físicas destinada à instalação de placas fotovoltaicas em casa. Com isso, o banco entra na lista de instituições que oferecem crédito para facilitar o uso da energia solar em residências.

O movimento reflete um interesse cada vez maior da população pela forma de geração energia, já que ela ajuda a reduzir a conta de luz, bastante elevada devido à crise energética.

A redução do preço dos painéis solares também tornou a modalidade mais acessível, e é uma forma de energia renovável, ou seja, com baixo impacto ambiental e sem emissão de gases poluentes. Além dos painéis, um sistema de energia solar inclui a parte de transmissão dessa energia, e a maioria conta com baterias para armazenar o que foi gerado.

Apesar das vantagens, é importante também que os interessados na energia solar residencial fiquem atentos a alguns fatores, e números, antes de decidir tomar um empréstimo para investir nesse tipo de energia.

Cuidados antes do empréstimo

Diogo Lisbona, pesquisador do Ceri-FGV, afirma que a oferta de linhas de crédito aumentou nos últimos anos, mas que existem atualmente alguns fatores que pressionam o investimento. O primeiro é a taxa de câmbio alta. Como os painéis são importados, o dólar elevado exige um gasto maior na compra.

“A própria inflação afeta esses preços também, junto com o encarecimento de frete com a alta dos combustíveis. Hoje, é um investimento mais custoso que no passado”, diz. Outro fator é a tendência de alta da taxa básica de juros, a taxa Selic.

Os empréstimos exigem um pagamento de juros ao mês, e a taxa usada para o cálculo costuma ter como referência a Selic. Ou seja, se os juros sobem, o empréstimo fica mais caro.

Se no curto prazo o investimento na energia solar fica mais caro, Lisbona aponta a tendência de média prazo de redução nos preços dos painéis. A variação já ocorre há alguns anos, ligada a novas tecnologias, e deve continuar no futuro.

“Talvez a janela atual seja complicada. Ano que vem é um ano eleitoral, a deterioração do quadro fiscal não deve se solucionar logo, então encarece, e isso deve perdurar talvez até o fim do ano que vem”, afirma.

Além de considerar todos esses fatores na hora de decidir tomar o empréstimo, é importante incluir no cálculo outro fator essencial: a conta de luz. “Quanto mais alta ela é, mais atrativo fica esse investimento, porque deixa de pagar para a distribuidora e o retorno vem mais rápido”, diz o pesquisador.

Em geral, o investimento nos painéis solares envolve um custo de operação e manutenção baixo, e os equipamentos possuem uma vida útil longa, com média de 20 anos de geração.

É possível ainda destinar o excedente de energia para a rede elétrica e conseguir descontos na conta de luz em troca. Entretanto, é preciso calcular para que não haja um excedente grande de painéis, já que o investimento também encarece.

Levando isso em conta, Lisbona afirma que, antes de obter o crédito, é preciso “fazer esses cálculos, entender que é um retorno de longo prazo mesmo sendo um investimento atrativo, e também o impacto de fatores como câmbio e juros”.

É válido também realizar orçamentos, pesquisar quais linhas são oferecidas e as regras e estudar bem antes de investir. Com a perspectiva de que a conta de luz ainda permanecerá alta nos próximos meses, porém, a atratividade desse investimento fica maior.

Estudos apontam que é possível economizar até 95% na conta de luz, mas o valor varia de caso em caso, levando em conta o consumo da família, quantidade de painéis e incidência de luz solar.

Se uma família não tem dinheiro para realizar a instalação, não acha o empréstimo vantajoso ou não tem um espaço em casa adequado para instalar as placas, existe outra alternativa.

“Há a possibilidade de encontrar ofertas de empresas que fazem a instalação do painel, elas fazem o financiamento, e você pode participar de compartilhamentos. São instalações remotas em áreas disponíveis dessa empresa, que gera créditos para o consumidor na conta de luz”, afirma Lisbona.

“A parcela de financiamento deve ser menor que o valor da conta de luz. A alternativa reduz o custo do consumidor, mas gastos adicionais devem ser considerados ao longo dos anos”, diz Fábio Hage, professor de engenharia do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa). A manutenção elétrica do sistema deve ser feita apenas de seis em seis meses.

Para Gilberto Braga, professor e economista no Ibmec (Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais), a decisão deve ser analisada considerando hábitos de consumo de energia. Ele ressalta que deve-se avaliar em quanto tempo o investimento feito pode gerar economia.

“Sempre é necessário gastar antecipadamente. Isso tende a desestimular a decisão, porque a maioria das famílias não tem recursos sobrando. Os gastos não se limitam à compra dos painéis solares, é preciso fazer intervenções em modernização das fiações elétricas, o que pode requerer obras adicionais”, afirma Braga.

As placas têm cerca de 2 metros quadrados. Para gerar os 300 kWh, precisaríamos de 6 módulos. Isso significa ganho de eficiência, redução de custo, menor espaço no telhado, com metade do tempo de instalação.

Para sistemas comerciais conectados em baixa tensão (até 75 kW) as condições de custo e viabilidade são praticamente as mesmas do sistema residencial.

Para Rodolfo Meyer, CEO do Portal Solar, a compra desse kit faz mais sentido para clientes com consumo a partir de 300 KWh/mês ou uma conta a partir de R$ 250,00, tanto para uso residencial quanto comercial.

Energia cara

Nos últimos 12 meses, com agravamento da crise hídrica — a pior em 91 anos —  a energia elétrica ficou 20,1% mais cara.Com a escassez de chuvas, e os reservatórios com níveis de armazenagem preocupantes, é preciso acionar a geração de energia nas termelétricas, mais caras.

Para compensar o aumento desse custo, a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) criou uma nova bandeira tarifária, chamada de ‘escassez hídrica’, em vigor desde 1º de setembro, que elevou a taxa extra na conta de luz de R$ 9,49 para 14,20 R$ no país.

Com isso, a adesão aos painéis solares tem sido uma alternativa para aqueles que a energia elétrica tem um peso maior no orçamento e que podem fazer esse tipo de investimento.

Segundo a Absolar (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica), no primeiro semestre o investimento em energia solar fotovoltaica teve crescimento de R$ 50 bilhões no país — um aumento de 50%, em comparação ao mesmo período do ano passado, atingindo a marca de 1,5 milhão de kWh.

Dez estados se destacam como os maiores compradores de painéis solares no Brasil. São Paulo (11%), Pará (10%), Minas Gerais (9%), Mato Grosso (7%), Rio de Janeiro (7%), Goiás (6%), Bahia (6%), Mato Grosso do Sul (5%), Ceará (5%) e Maranhão (4%).

Em entrevista à CNN Rádio, Ronaldo Koloszuk, presidente do Conselho da Absolar, afirmou que a crise energética fará com que o crescimento do setor da energia solar chegue a 100%  ainda neste ano. Em sua avaliação, o número, embora demonstre crescimento acelerado, “é muito pouco.”

É o que projeta também o Instituto Nacional de Energia Limpa (INEL). De acordo com o Instituto, a geração distribuída tinha, no final de 2020, 517 mil unidades participantes, ou 5 GW de capacidade instalada. Hoje, já são 781 mil (7,1 GW). Ou seja, a energia gerada passou de cinco para sete gigawatts.

Até o final de setembro, o número das novas conexões ultrapassou o total do ano de 2020. Ano passado foram 212.435 novas conexões de geração distribuída e neste ano já são 221.880. Esse crescimento, segundo o INEL tem relação direta com o aumento da conta de luz, motivado, principalmente, pela alta das bandeiras tarifárias em decorrência da crise hídrica.

 

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