Taxa Selic: o que é, como é definida e quais fatores influenciam seu sobe e desce

A Selic influencia impacta os juros pagos quando se faz um financiamento ou empréstimo. Também mexe com o rendimento de quem tem dinheiro investido

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Raphael Coraccinicolaboração para o CNN Brasil Business

em São Paulo

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A Selic, conhecida como taxa básica de juros da economia, causa impacto direto na economia do país e na vida das pessoas.

Ela influencia, por exemplo, as finanças de uma família porque impacta os juros pagos quando se faz um financiamento ou um empréstimo, além de mexer com o rendimento de quem tem dinheiro investido, seja na poupança, títulos públicos ou em outras aplicações.

 

Saiba detalhadamente o que é a taxa Selic, quem é responsável por alterá-la e em quais âmbitos da vida das pessoas e das empresas ela opera.

O que é a taxa Selic?

A taxa Selic é usada pelo Banco Central para influenciar as outras taxas de juros do país, praticadas por bancos e demais instituições do sistema financeiro para definir, por exemplo, quanto o consumidor pagará por um empréstimo ou, ainda, o valor que um investidor vai receber por algum título que adquiriu.

Mas antes de ser uma taxa, Selic é um sistema. É a sigla para Sistema Especial de Liquidação e de Custódia, que foi criado pela Andima (Associação Nacional das Instituições do Mercado Aberto) e pelo Banco Central, em 1979, para disciplinar e agilizar a compra e venda de títulos públicos. A taxa Selic refere-se à média das operações feitas nesse sistema, que movimenta mais de R$ 100 bilhões todos os dias.

Essas operações são realizadas apenas entre os bancos. São empréstimos de curtíssimo prazo, que vencem em apenas um dia e servem para que os bancos cumpram a exigência de deixarem um depósito de segurança em uma conta do Banco Central para evitar problemas sistêmicos. No dia seguinte, o banco devedor paga o banco credor e tudo segue normalmente, até o fim do expediente, quando novos empréstimos são feitos para serem pagos no dia subsequente.

Por conta da eficiência que o sistema Selic garantiu ao Banco Central no controle sobre as reservas bancárias, a taxa foi adotada, em março de 1999, como a única para indicar os juros do país. Antes, o Banco Central usava o sistema de banda de juros, que foi extinto.

Mas é preciso destacar que existem dois tipos de Selic. A que está no noticiário com frequência é a Selic Meta. Existe ainda a Selic Over –essa é pouco comentada, porém, é ela que funciona no mundo real.

Qual a diferença entre a Selic Meta e a Selic Over?

Como mencionado anteriormente, a taxa Selic que aparece com frequência no noticiário é a Meta. Ela tende a ser a menor taxa de juro da economia, mas funciona apenas como um parâmetro. É uma espécie de limite que indica o mínimo de juro que as instituições bancárias devem cobrar.

É em cima da Selic Meta que os bancos e instituições financeiras operam as suas próprias taxas de juros. Essas taxas compõem o que se convencionou chamar de juros reais, Selic efetiva ou Selic Over, que é a que funciona no mundo real. A Selic Over é a média das taxas de juros aplicadas pelas instituições financeiras.

Quem define a Selic Meta?

A Selic Meta –que será chamada apenas de Selic para facilitar a explicação– é definida nas reuniões do Copom (Comitê de Política Monetária), que acontecem a cada 45 dias. O Copom é formado por diretores e pelo presidente do Banco Central do Brasil, que definem a taxa que passa a vigorar durante um mês e meio após a reunião, até que uma nova aconteça.

Aumentar, diminuir ou manter a Selic Meta depende de como o Copom avalia riscos e oportunidades no cenário macroeconômico. As variáveis que impactam essa decisão serão abordadas adiante.

Como o Banco Central faz para garantir que a Selic seja respeitada?

Só dizer a meta não adianta. Por isso, o BC compra e vende títulos públicos federais para manter os juros reais próximos da Selic. O aumento ou a redução na oferta desses títulos é capaz de mexer efetivamente com os juros praticados pelos bancos.

No dia a dia, isso acontece da seguinte maneira: se o Copom define que é preciso aumentar a Selic, o Banco Central reduz o preço dos títulos públicos. Dessa maneira, esses títulos passam a ser mais interessantes e rentáveis para os bancos. O efeito colateral disso é que os bancos vão encarecer os juros praticados em outras operações de crédito.

Simplificando: o banco só emprestará dinheiro a pessoas e empresas se os juros atrelados a esses serviços renderem mais que o dos títulos públicos. Portanto, se de um mês para outro, um título público torna-se mais rentável para o banco, só será bom negócio para o mesmo banco fazer outras operações de crédito se elas também aumentarem sua lucratividade. E esse aumento da lucratividade vai depender de aumentar os juros para quem deseja tomar o crédito.

Para diminuir a taxa Selic, o Banco Central precisa fazer o oposto. Ao invés de ir ao mercado vender títulos a um preço menor, ele decide comprar títulos que os bancos já têm a um preço maior que o praticado anteriormente. Com isso, o Banco Central consegue desvalorizar os títulos públicos, e o movimento esperado é que os bancos também reduzam as suas taxas de juros para outras operações de crédito, reduzindo os juros reais.

Porém, se a Selic funciona muito bem como parâmetro dos juros reais quando sobe, ela não tem a mesma eficiência quando desce.

Por que a queda da taxa de juros real nem sempre acompanha a queda da Selic?

O sistema bancário concentrado em poucos concorrentes tem bastante participação nisso. A baixa concorrência permite que os bancos que controlam o mercado decidam não acompanhar exatamente o que foi definido pelo Banco Central como meta quando ela implica reduzir juros e, portanto, os lucros dos bancos.

Mesmo quando há queda da taxa Selic, os bancos podem alegar aumento do risco de calotes relacionado a outras questões, como aumento do desemprego, para sustentar ou até subir as taxas de juros reais para o crédito que chega ao consumidor e às empresas.

Quais fatores influenciam no aumento ou na redução da Selic?

Para definir a taxa Selic, os membros do Copom consideram alguns fatores básicos, como o perfil dos títulos públicos federais negociados, as pressões inflacionárias e o nível de emprego e renda da população.

Com relação aos títulos públicos, os juros cobrados estão atrelados ao prazo de vencimento e ao risco envolvido nas operações. Quanto maior o prazo de vencimento, mais interessante para quem vende, que aceita pagar um juro maior. O risco relacionado aos papéis também influencia os juros: quanto mais arriscada for a aplicação, maior a compensação. Portanto, maior a Selic.

Como a Selic influencia a inflação?

As pressões inflacionárias também impactam a taxa de juros. A Selic é utilizada pelo Banco Central como estratégia para conter o aumento de preços. Se as autoridades do Copom entendem que existe uma expectativa de aumento da inflação para os próximos meses, a tendência é que o Banco Central opte por aumentar a taxa básica de juros para frear o consumo.

Com relação ao nível de emprego e renda, essas variáveis também acabam por impactar a inflação. Com a população mais empregada e com mais dinheiro no bolso, ela tende a gastar mais. Com isso, pode haver pressão sobre os preços. E, como o Banco Central entende que a taxa Selic é um remédio para domar esses preços, novamente, ela será usada para esfriar o consumo.

Porém, o uso rotineiro dessa estratégia de usar os juros para controlar os preços é contestada por alguns especialistas, porque não é sempre que o aumento dos preços está relacionado ao aumento do crédito e do consumo.

Como a Selic impacta os investimentos em renda fixa?

Títulos públicos, CDBs, CDIs, letras de crédito (LCIs, LCAs), debêntures e outros tipos de títulos privados pós-fixados. Essas modalidades de investimentos, classificadas como renda fixa, são sempre favorecidas pela Selic alta.

Há ainda investimentos atrelados à inflação que possuem uma relação indireta com a Selic. Como a taxa básica de juros é usada pelo Banco Central como estratégia para domar a inflação, conforme a inflação aumenta e a Selic também avança para tentar contê-la, a rentabilidade desses investimentos aumenta.

Como a Selic impacta os investimentos em ações?

As ações de empresas negociadas nas bolsas de valores não são afetadas diretamente pela Selic, mas a taxa básica de juros pode influenciar indiretamente a valorização ou não desses papéis.

Em um cenário de Selic baixa, os investidores tendem a abandonar opções atreladas a índices financeiros (renda fixa), que dependem dos juros altos para serem rentáveis. Com isso, o investimento em ações passa a ser mais interessante. Com mais gente investindo em ações, elas passam a se valorizar.

Uma Selic baixa, além de favorecer a migração dos investimentos para as ações negociadas em bolsa, também diminui a pressão sobre as empresas no que diz respeito a pagamento de juros, e facilitam a contratação de crédito para expansão das operações. Com esses estímulos, as empresas ficam mais atraentes para os investidores. Mais uma vez, as ações tendem a se valorizar.

Como a Selic impacta a poupança?

O rendimento da poupança depende da taxa Selic, porém, sua relação é diferente em comparação com os investimentos citados anteriormente.

A poupança tem dois tipos de rendimento possível, e o emprego de cada um deles vai depender do patamar em que a Selic está. Para momentos em que a taxa básica está igual ou abaixo de 8,5%, a conta que deve ser feita para calcular a rentabilidade do investimento é 70% da Selic mais a taxa referencial (TR). Porém, se a Selic estiver acima de 8,5%, a conta é outra. A rentabilidade será de 0,5% sobre o valor depositado mais a TR.

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