“Tendência é que volatilidade do mercado continue”, diz ex-ministro da Fazenda

Em entrevista à CNN, Maílson da Nóbrega disse que presidente Bolsonaro deve continuar com a estratégia política do confronto, e que o mercado "não convive bem com incertezas extremas e a instabilidade institucional"

Produzido por Juliana Alvesda CNN

em São Paulo

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Em entrevista à CNN, o economista e ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega afirmou que a tendência é que a volatilidade no mercado continue. Segundo ele, a postura de ataque do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) deve permanecer, o que contribui para a crise institucional.

“Os mercados, sobretudo o mercado de ações, não convivem bem com incertezas extremas e a instabilidade institucional”, explicou.

Mesmo com a declaração do presidente negando a intenção de agredir os Poderes, o economista disse que o chefe do Executivo tem a “estratégia política do confronto”. “A estratégia política do presidente Bolsonaro há 30 anos é a estratégia do confronto, da briga. Isso mobiliza a sua base mais radical, em algum momento ele vai voltar a ser quem é ele é, tem o DNA da confrontação.”

Por isso, avalia Maílson, a oscilação da bolsa deve ser a característica dos próximos meses até o fim do seu mandato. A tendência é continuar a volatilidade. “Os mercados, sobretudo os mercados de ações, não convivem bem com incertezas extremas, com instabilidade institucional. E eu estou entre aqueles que não esperam a continuidade dessa postura ‘Jairzinho paz e amor’ depois que ele assinou a declaração a nação.”

 

 

Apesar da carta do presidente da República, o dólar avançou ante o real na sexta-feira (10). A divisa norte-americana avançou 0,76%, a R$ 5,2670.

Na B3, o Ibovespa também não conseguiu se manter no campo positivo. O índice recuou 0,79%, aos 114.454 pontos.

Cenário econômico em 2022

O ex-ministro da Fazenda também destacou que a economia deve continuar se recuperando ao longo do segundo semestre de 2021.

“Não vai ser uma coisa espetacular como diz Paulo Guedes, mas acho que a economia tende a continuar recuperando, particularmente pelo segundo semestre. Nesse período, a economia vai ser puxada pelo serviço, que depende mais do contato pessoal, da aglomeração. Então o setor de serviços deve ser o que puxa o PIB do segundo semestre.”

Para Maílson, não será surpresa se o PIB chegar ao final do ano crescendo a de 4,5% a 5%. Contudo, o ex-ministro acredita que, a partir de 2022, “a tendência é que a economia volte para sua mediocridade, a um potencial de crescimento muito baixo, da ordem de 2%. E como a inflação vai continuar alta, corroendo renda, e Bolsonaro deve continuar sendo o que ele foi até agora, tudo indica que a economia, em 2022, pode crescer abaixo do potencial de 2%”. O ex-ministro aponta que há até quem fale em recessão em 2022.

A recuperação, ele explica, vai ter uma característica que os economistas chamam de “recuperação cíclica”, em que a expansão decorre da ocupação da capacidade ociosa e não da expansão dos investimentos ou da produtividade. “Um dos motivos para isso é a inflação, que, segundo ele, será ‘um elemento de preocupação das autoridades, particularmente do Banco Central'”.

A inflação, inclusive, foi apontada pelo economista como a maior preocupação do campo econômico hoje. “Veio mais alta do que estávamos esperando no início do ano e ainda tem o agravante da crise hídrica, o azar dos fenômenos climáticos como seca e geada, e isso prejudicou muito os preços dos alimentos.”

Por isso, diz Maílson, a taxa de juros deve continuar aumentando e chegar no fim do ano a 8,25%, permanecendo nesse nível ao longo de 2022. “Estamos prevendo que o BC continue aumentando a Selic nas próximas três reuniões em 1 ponto cada.

Outro tema que preocupa é o desemprego. Segundo o ex-ministro da Fazenda, o crescimento do emprego pode não ocorrer na medida que estão esperando. “Portanto, é provável que o presidente não se beneficie da recuperação das atividades econômicas.”

Ele aponta que o presidente pode ser afetado pelo fenômeno chamado “congelamento da rejeição”. “Mesmo com a recuperação econômica, a maioria percebe que ele não é o presidente adequado para liderar o país. Entao a rejeição se congela – hoje na faixa de 55% a 60%. E não há caso de presidente reeleito com rejeição a cima de 55%.”

Segundo Maílson, a instabilidade provocada pelo presidente, pode neutralizar uma eventual recuperação das atividades econômicas.

O ex-ministro disse ainda que o presidente Bolsonaro a pandemia é a principal responsável pela forte desaceleração da economia ano passado, mas que, por outro lado, o governo também contribui, “pelas instabilidades que o presidente causou”.

“Inclusive, na sua atitude negacionista. A vacina, desde o século 18, tem sido elemento eficaz no combate de pandemia. A máscara é claro que é um elemento de contenção e proteção do vírus. E este governo negou três coisas: o distanciamento social, desestimulou a vacina e, até hoje, ele luta para eliminar qualquer regra que imponha o uso de máscara. É o único país do mundo em que o chefe de governo faz campanha contra máscara.”

 

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