José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

A demissão de Pam Bondi e a nova lógica de poder de Trump

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Trump demitiu Pam Bondi do comando do Departamento de Justiça e entregou interinamente a chefia a Todd Blanche. O gesto parece administrativo. O conteúdo é muito mais fundo: a presidência americana entrou numa fase em que lealdade sem eficácia política já não protege ninguém.

Vejamos os fatos. Bondi sai por uma conjugação de fatores: a crescente pressão pela condução do dossiê Jeffrey Epstein, pela forma desigual como o Departamento de Justiça tratou a divulgação de documentos sensíveis e pela frustração de Trump com a falta de agressividade contra adversários políticos.

Ao mesmo tempo, agências americanas relatam que o presidente discutia a sua substituição por Lee Zeldin, hoje à frente da EPA (Agência de Proteção Ambiental). O episódio ocorre num contexto de nova instabilidade no topo da administração e prolonga a sensação de turbulência institucional em Washington.

Mas então o que um presidente realmente pode exigir do seu procurador-geral?

A resposta implícita desta demissão é perturbadora. Trump já não parece procurar apenas alinhamento ideológico ou confiança pessoal. Procura desempenho político. Procura uma Justiça que funcione como extensão da estratégia presidencial, capaz de responder com velocidade, dureza e utilidade narrativa.

Quando uma aliada fiel cai por não ter sido suficientemente eficaz nesse papel, o sinal dado ao aparelho de Estado é brutal: cada cargo passa a ser medido menos pela institucionalidade que preserva e mais pela guerra que consegue travar.

Todd Blanche, agora como interino, reforça essa leitura.

O seu perfil é o de um homem politicamente previsível para Trump e funcional para uma fase de transição sob forte controle da Casa Branca.

Interinos raramente entram para fundar doutrina; entram para assegurar disciplina. Isso significa um Departamento de Justiça com menor margem de autonomia precisamente no momento em que a administração enfrenta casos explosivos, polarização extrema e crescente suspeita sobre o uso político das instituições.

Se Lee Zeldin avançar para a chefia permanente, o movimento será ainda mais eloquente.

Zeldin não representa a ideia clássica de guardião técnico da Justiça. Representa combate, mensagem, televisão, fidelidade de trincheira. A eventual escolha mostraria que Trump deseja alguém que una direito, comunicação e ofensiva política numa única máquina.

Isso não pacifica o sistema. Acelera-o.

Há aqui uma lição maior para os Estados Unidos e para qualquer democracia liberal.

As instituições não se degradam apenas quando são atacadas por inimigos declarados. Também se desgastam quando são ocupadas por aliados obrigados a provar, todos os dias, a sua utilidade privada ao chefe do Executivo.

O problema deixa então de ser a troca de nomes. Passa a ser a mutação silenciosa da função. O Departamento de Justiça existe para garantir a lei. Numa lógica de poder personalista, ele passa a existir para administrar a vontade do príncipe.

Pam Bondi caiu. A administração Trump continua a transformar órgãos de Estado em instrumentos de teste à fidelidade, e cada demissão deixa menos espaço para a independência e mais lugar à obediência incondicional.

Quando já nem Pam Bondi atende as necessidades de Trump, poucas dúvidas restam sobre o enfraecimento das instituições e a deterioração consistente da democracia norte-americana.

Até quando os republicanos moderados vão assistir pacientes ao processo de Trumpisação do Estado?