Análise: Depois da era do declínio das instituições
Futuro já não pode ser pensado com as categorias gastas do século XX

Depois desta era do declínio das instituições, teremos uma vida melhor? Provavelmente não.
Primeiro virá a disputa. De um lado, a política do ressentimento, que oferece culpados simples para problemas complexos. Do outro, uma política ainda por construir: a das causas desejáveis, capazes de transformar medo em missão, raiva em projeto e desconfiança em participação.
No Fórum Unesp 50 Anos, a questão apareceu com nitidez rara: estamos diante de uma crise que não é apenas geopolítica, econômica ou tecnológica, mas civilizacional.
Mas a pergunta sobre se o caos é inevitável revelou outra, mais profunda: o que acontece quando as instituições deixam de organizar esperança e passam apenas a administrar ruínas? O encontro mostrou que o futuro já não pode ser pensado com as categorias gastas do século XX.
O erro é imaginar que basta “restaurar” as instituições como se estivéssemos a recompor uma mobília antiga. Não basta. Muitas instituições perderam autoridade porque continuaram a falar a linguagem do século XX diante de angústias do século XXI.
O cidadão olha para a ONU, para os Parlamentos, para os partidos, para a imprensa e para as universidades e pergunta: onde estavam vocês quando o meu salário deixou de chegar ao fim do mês, quando o algoritmo começou a educar os meus filhos, quando a guerra voltou a parecer normal, quando a verdade virou uma opinião aos gritos?
A crise desta vez não é institucional. É uma crise de tradução. As instituições sabem produzir relatórios, mas desaprenderam a produzir sentido.
Sabem publicar diagnósticos, mas já não conseguem criar confiança. Sabem nomear problemas, mas raramente conseguem mobilizar desejo coletivo para resolvê-los.
É nesse vazio que prospera o pensamento atávico. Tese: há desemprego. Problema: os imigrantes. Solução: expulsar os imigrantes. A operação é intelectualmente pobre, mas emocionalmente eficaz. Reduz o labirinto a uma seta. Substitui estrutura por inimigo. Troca política pública por catarse.
O que vem depois? Se tudo continuar igual, uma espécie de feudalismo algorítmico — plataformas mais poderosas que Estados, bilionários mais influentes que Parlamentos, cidadãos convertidos em dados e multidões governadas por estímulos — ou, se tivermos sorte, engenho e arte, uma nova arquitetura de confiança que não nascerá de sermões sobre moderação, mas de missões concretas.
Missões que concretizem desejos mobilizadores em torno de ideias práticas. Erradicar a fome. Reindustrializar com sustentabilidade. Regular a inteligência artificial. Reduzir desigualdades. Preparar cidades para o clima. Garantir que nenhuma criança seja educada por uma máquina antes de ser acolhida por uma comunidade.
A próxima era institucional terá de ser menos vertical, menos opaca e menos litúrgica. As instituições que sobreviverem serão as que souberem fazer três coisas: escutar antes de explicar, agir antes de prometer e prestar contas antes de pedir confiança. A confiança deixou de ser herança e passou a ser desempenho.
Depois desta era de declínio das instituições, não virá uma era simplesmente dedicada à reconstrução das instituições antigas. Haverá uma seleção natural das instituições úteis.
As que forem apenas forma, protocolo e autopreservação cairão. As que conseguirem organizar o desejo coletivo, resolver problemas reais e devolver às pessoas a sensação de participação serão as indispensáveis.
A democracia só voltará a ser desejada quando deixar de parecer uma reunião interminável de adultos cansados e voltar a parecer uma promessa de vida melhor. O futuro não será salvo por instituições que pedem respeito. Será salvo por instituições que voltem a merecê-lo.



