José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

E agora, terraplanistas?

Exemplos como o terraplanismo mostram que evidências e fatos perderam força frente a narrativas inflamadas

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As novas imagens da Terra feitas na viagem lunar da Artemis II tornaram o silêncio de quem fala em um planeta plano ainda mais eloquente. O problema é que esse silêncio não significa derrota da mentira. Significa algo pior: o real já não basta para constranger quem aprendeu a viver contra ele.

E agora terraplanistas?! A pergunta devia ter sido feita em voz alta. Em abril de 2026, a NASA voltou a mostrar a Terra em novas imagens feitas durante a viagem lunar da Artemis II.

Mais de meio século depois da corrida espacial ter desmontado a fantasia, o planeta reapareceu inteiro, suspenso no escuro, acessível aos olhos de qualquer pessoa.

Ao mesmo tempo, a missão DSCOVR continua a produzir imagens regulares da Terra. A evidência já não é rara, histórica ou remota. É nova, pública e repetida.

E, no entanto, sobre os terraplanistas caiu um grande silêncio. Não o silêncio digno de quem reconheceu o erro. O silêncio conveniente das farsas que perdem força como espetáculo, mas deixam vivo o método que as sustentou.

Porque o terraplanismo nunca foi apenas uma mentira sobre a forma do planeta. Foi uma escola de deslealdade ao real. Ensinou a suspeitar da prova, a chamar de conspiração a demonstração, a preferir a tribo ao fato.

Esse é o ponto. O problema afinal já não é a Terra redonda. O problema é que o real deixou de bastar. O terraplanismo interessa menos como absurdo astronômico do que como capítulo da falsificação cultural do nosso tempo.

Falsificação cultural é quando o falso ganha prestígio não por ser verdadeiro, mas por soar forte, circular bem e servir a uma comunidade emocional.

Foi assim com a célebre fala atribuída a Ezequiel em Pulp Fiction, repetida durante anos como se fosse Escritura quando o texto bíblico real é outro. A performance venceu a fonte.

É o mesmo mecanismo que hoje move mentiras sobre o papa, boatos sobre cessar-fogo, versões manipuladas sobre bloqueios humanitários e fraudes narrativas sobre guerras e instituições. O tema muda. A engrenagem permanece. Já não se pede que algo seja verdadeiro. Basta que seja útil, inflamatório, partilhável.

Teorias conspiratórias são terreno fértil para a desinformação e para a corrosão da confiança pública. Nelas o traço comum é simples: toda evidência contrária deixa de corrigir a crença e passa a ser absorvida apenas como parte do complô.

A moral desta história fica ainda mais dura quando chega ao centro do poder. Nesta semana, quem recitou uma falsa oração com verniz bíblico, inspirada em Pulp Fiction, não foi um fanático obscuro de internet. Foi o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, numa cerimônia no Pentágono. Uma fraude no topo da hierarquia do poder.

É verdade. Foi tão lindo ver. A Terra redonda, azul infinita, esfera de luz no universo. O que se tornou perigosamente mais plano é o espaço público.

Talvez o terraplanismo tenha fracassado como cosmologia, mas triunfa diariamente como método. Como um ensaio geral para esta época em que a mentira já nem pede desculpa por mentir.