José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

O mundo quer falar português

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Portugal e Brasil estão prontos para arcar com os custos. Juntos, articulam a candidatura do português como língua oficial das Nações Unidas. Não se trata apenas de um gesto simbólico ou de um capricho lusófono: é a afirmação de uma visão estratégica, de um eixo de civilização que emerge da língua e propõe uma nova gramática de futuro. Ao levar o português à mesa das grandes decisões globais, Brasil e Portugal não buscam apenas projeção — buscam equilíbrio.

Num mundo dividido entre superpotências que disputam hegemonia por influência ou por algoritmos, o idioma partilhado por nove países e mais de 260 milhões de pessoas apresenta uma alternativa possível e necessária. O português é hoje uma das poucas línguas globais que conecta o Norte ao Sul, a Europa à África, a América do Sul à Ásia-Pacífico — numa lógica de cooperação assimétrica, mas respeitosa. É nesse contexto que o português se ergue como idioma do diálogo, e não da dominação.

O reconhecimento na ONU, além de corrigir uma assimetria histórica, seria a consagração de um novo eixo geopolítico: um eixo Sul-Norte, baseado na solidariedade, na democracia e na partilha de valores civilizatórios. A CPLP, que já reúne universidades, centros de pesquisa, organismos multilaterais e redes culturais, ganharia escala, impacto e projeção global. E com isso, as economias dos países lusófonos poderiam alavancar um mercado comum da língua, onde conhecimento, inovação e cultura circulam com fluidez.

Mas o projeto é também — e talvez sobretudo — simbólico. Em português, escrevem-se constituições, tratados, poemas e algoritmos. Em português, resistem-se às injustiças e constroem-se os sonhos. Torná-lo oficial nas Nações Unidas é reconhecer que há mais mundos possíveis além das potências dominantes. É dizer, com clareza, que há valor na diversidade e força na pluralidade.

Neste Dia Mundial da Língua Portuguesa, não basta celebrar a língua como memória. É preciso projetá-la como potência. Não apenas financiar sua difusão, mas pensá-la como infraestrutura invisível do desenvolvimento. Isso exige políticas públicas transnacionais: centros culturais, redes digitais, incentivo à tradução, intercâmbio educacional, fortalecimento da indústria editorial nos países africanos, integração de tecnologias de linguagem. A língua como eixo, não como ornamento.

Se os diplomatas, os programadores, os cientistas e os poetas falarem português, o mundo terá mais do que uma nova língua oficial. Terá um novo imaginário. Um idioma onde a democracia se conjuga no plural. E onde o futuro, finalmente, se dirá com sotaques diversos — mas em uníssono.