José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

O novo quintal é a dependência

Discursos de Donald Trump e Lula durante Assembleia Geral da ONU levantam um debate sobre o que define a soberania de um país e como ele lida com influência externa

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Há duas semanas, a Casa Branca escreveu, sem eufemismos, que Donald Trump havia “restabelecido a Doutrina Monroe”, afastando influências consideradas hostis do “nosso quintal” e assegurando a predominância americana no hemisfério. Nesta terça-feira (22), na tribuna da ONU, Lula respondeu: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”. As duas frases formam um diálogo geopolítico quase perfeito. Mas a palavra “quintal” pode nos fazer olhar para o século errado.

A Doutrina Monroe nasceu em 1823 para advertir as potências europeias contra novas intervenções coloniais nas Américas. Não conferia originalmente aos Estados Unidos um direito geral de intervir nas repúblicas latino-americanas. Isso viria em 1904, com o Corolário Roosevelt, quando Washington transformou a defesa do hemisfério numa justificativa para intervenções unilaterais.

Confundir as duas coisas empobrece a história. Ignorar que a Casa Branca voltou deliberadamente a esse vocabulário empobrece o presente. O que regressou não foi 1904. Foi a lógica das esferas de influência.

Só que uma esfera de influência, em 2026, não se mede apenas pelo alcance de porta-aviões. Mede-se por quem financia a infraestrutura, controla tecnologias, processa minerais críticos, opera plataformas, fornece equipamentos estratégicos e absorve exportações. O poder continua a ter bandeira; a dependência tornou-se uma cadeia de suprimentos.

É por isso que o Brasil é um caso especialmente difícil para qualquer tentativa de enquadramento hemisférico exclusivo. Entre janeiro e agosto deste ano, a China recebeu 30,7% das exportações brasileiras e forneceu 26,4% das importações.

Os Estados Unidos responderam, respectivamente, por 9,6% e 14%. A geografia coloca o Brasil nas Américas; a economia já o colocou simultaneamente em vários sistemas de poder. Isso não significa independência. Significa interdependência assimétrica.

Em 2024, 80% das exportações brasileiras para a China eram produtos da indústria extrativa e da agricultura. Ao mesmo tempo, o próprio Ministério de Minas e Energia reconhece que, apesar da abundância de minerais críticos, a produção brasileira de insumos de alta pureza para cadeias tecnológicas ainda é incipiente. O país possui a geologia que o novo mundo deseja, mas ainda não controla todas as etapas que transformam essa geologia em poder econômico.

Este é o ponto que falta quando a soberania é reduzida a um slogan. Autonomia estratégica não é ficar à mesma distância de Washington e Pequim. Também não é trocar uma dependência por outra. É conservar capacidade de escolha quando as grandes potências aumentam o preço dessa escolha.

Os Estados Unidos voltaram a declarar explicitamente sua pretensão de primazia no hemisfério. A China tornou-se indispensável para parcelas centrais do comércio brasileiro. Europa, Índia e outros polos disputam mercados, energia, dados e matérias-primas. O Brasil encontra-se exatamente no cruzamento dessas pressões.

Por isso, a frase de Lula interessa menos como afronta a Trump do que como teste de realidade para o próprio Brasil. Um país não deixa de ser quintal porque declara soberania. Deixa de ser quintal quando as decisões fundamentais sobre seus recursos, sua tecnologia, sua infraestrutura e seu desenvolvimento não podem ser tomadas por outro.

No século XXI, a cerca do quintal tornou-se invisível. É isso que a torna mais difícil de reconhecer.