Renato Dolci
Coluna
Renato Dolci

Cientista político (PUC-SP) e mestre em Economia (Sorbonne). Atua há mais de 15 anos com marketing digital, análise de dados e pesquisas públicas e privadas de comportamento digital.

Pilili não virou meme por acidente

O mascote do TSE foi menos discutido como campanha educativa e mais como objeto de disputa digital sobre estética, gasto público, confiança eleitoral e poder de enquadramento nas redes

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Pilili nasceu como personagem institucional, mas entrou nas redes como problema de interpretação. Lançada pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) em 4 de maio de 2026, na celebração dos 30 anos da urna eletrônica, o mascote foi apresentado como uma tentativa de aproximar a Justiça Eleitoral do eleitorado jovem e traduzir, em linguagem lúdica, o som da tecla “confirma”.

Só que, no ambiente digital, nenhum símbolo público chega inteiro: ele chega como imagem, nome, custo, ruído, suspeita e oportunidade de disputa. Em 183.225 menções analisadas, Pilili rapidamente deixou de ser apenas uma peça de comunicação e passou a funcionar como um pequeno condensador de tensões políticas já existentes em torno do TSE.

O primeiro dado relevante é o peso da recepção negativa ou irônica. Foram 80.381 menções críticas ou negativas e 50.643 menções em chave de ironia ou meme, o que soma 131.024 registros, ou 71,5% da conversa. Isso não significa que o público tenha rejeitado de forma homogênea a ideia de um mascote eleitoral.

A leitura é mais precisa quando se observa que a crítica se dividiu em pelo menos três frentes: o estranhamento com o nome e a estética, a discussão sobre gasto público e a politização do TSE como instituição. Pilili não foi apenas “mal recebido”: ele foi apropriado por repertórios diferentes, cada um com sua lógica de circulação.

A plataforma mais importante para entender a repercussão é o X, responsável por 73.803 menções, ou 40,3% do total. Ali, Pilili entrou no circuito de comentário político em alta velocidade: primeiro como piada de nome, depois como crítica ao TSE, em seguida como marcador de posição ideológica. O X ainda é o espaço em que a política brasileira testa enquadramentos antes de eles migrarem para outras redes.

Quando o assunto chegou ao Instagram, com 40.236 menções, ganhou embalagem visual de reels, cards e comentários de página; no TikTok, com 27.008, foi convertido em humor curto; no YouTube, com 15.867, virou paródia, comentário opinativo e conteúdo com inteligência artificial; no Facebook, com 12.716, aproximou-se mais da crítica fiscal e do compartilhamento de matérias.

A divisão por campo ideológico ajuda a explicar por que o episódio ganhou densidade maior do que uma simples piada de internet. Das 183.225 menções, 84.687 circularam em ambiente de direita ou conservador, o equivalente a 46,2% do total. Esse campo não tratou Pilili apenas como mascote, mas como evidência simbólica de uma crítica anterior ao TSE: custo, urna, comunicação oficial e confiança institucional.

Já as 16.380 menções institucionais, ou 8,9%, insistiram no objetivo educativo da peça; e as 11.085 menções em ambiente de esquerda ou governista, equivalentes a 6,0%, apareceram com menor intensidade e em tom mais funcional, associadas a participação eleitoral e regularização de jovens.

O centro da reação, porém, não foi exclusivamente ideológico. O maior tema isolado foi o próprio nome: 52.604 menções, ou 28,7%, trataram de piadas, trocadilhos e comparações, especialmente com o Cebolinha, associação registrada pela Folha.

Antes de alguém discutir democracia, urna ou contrato, discutiu-se se o nome soava estranho, infantil, engraçado ou inadequado. Em redes sociais, a sonoridade de uma palavra pode decidir os primeiros minutos de circulação de uma campanha pública.

A camada fiscal veio logo depois.

Foram 39.357 menções sobre custo público e contrato, impulsionadas por reportagens e comentários sobre a agência responsável pela criação da mascote. A Revista Oeste destacou o contrato anual de R$ 6 milhões mantido pelo TSE com a agência, informação que ofereceu um ponto de apoio para a crítica de direita e para perfis interessados em enquadrar Pilili como gasto supérfluo.

A partir daí, a mascote deixou de ser só uma imagem considerada curiosa e passou a ser também um objeto de cobrança sobre prioridades públicas.

A terceira camada foi institucional: 34.739 menções conectaram Pilili diretamente à crítica ao TSE e às urnas. Aqui, o mascote importa menos pelo desenho e mais pelo que representa.

O TSE tentou apresentar um personagem sem gênero definido, sem preferência partidária e associado à defesa da democracia, como informou o próprio tribunal. Parte das redes, no entanto, recebeu essa neutralidade declarada como mais um elemento de disputa. O problema, para a comunicação pública, é que símbolos neutros raramente permanecem neutros quando entram em ambientes polarizados.

O saldo analítico é que Pilili expôs uma dificuldade recorrente da comunicação institucional em 2026: campanhas públicas não circulam mais em linha reta entre emissor e cidadão. Elas atravessam plataformas, influenciadores, perfis anônimos, páginas políticas, vídeos de IA e veículos de imprensa.

Em cada passagem, perdem parte da intenção original e ganham novas camadas de sentido. Por isso, dizer que Pilili “virou meme” é correto, mas insuficiente. Ele virou meme, crítica fiscal, marcador ideológico, debate sobre estética pública e objeto de disputa sobre a legitimidade do TSE.

A leitura mais forte não é que a mascote tenha fracassado, nem que tenha sido bem-sucedido apenas por gerar alcance. Os 183.225 registros indicam visibilidade, mas a composição dessa visibilidade importa mais do que o volume bruto. Quando 71,5% da conversa se concentra em crítica e ironia, a instituição até consegue entrar no debate público, mas entra sem controlar o enquadramento.

Pilili conseguiu atenção. A questão é que boa parte dessa atenção foi capturada por agendas que o TSE não desenhou e provavelmente nem imaginou.

Esse é o ponto que torna o caso útil para além da curiosidade. O Brasil digital não espera a versão oficial amadurecer. Ele pega o símbolo no lançamento, testa o nome, procura o custo, identifica o alvo político e transforma o pacote em linguagem de plataforma.

Pilili foi pensado como tradução simpática da urna eletrônica; nas redes, foi traduzido de volta como disputa sobre o próprio lugar da Justiça Eleitoral no imaginário político.