Pavor, correntes e cadáveres: como a Roma Antiga inventou as histórias de fantasma

Cartas com mais de 2 mil anos e peças de teatro da Antiguidade revelam que o medo de casas mal-assombradas não é invenção moderna

Ester Jacopetti, colaboração para a CNN Brasil
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Tente imaginar a cena: você está sozinho à noite, sob a luz fraca de uma vela de cera, tentando concentrar-se na leitura. De repente, o silêncio da casa é quebrado por um barulho metálico e estridente que vem do corredor. O som de correntes arrastadas pelo chão fica cada vez mais alto, até que uma figura pálida e macabra surge na porta do seu quarto.

A cena parece ter saído de um filme de terror contemporâneo, mas esse relato foi escrito há quase 2 mil anos. Em uma carta enviada por volta do ano 100 d.C., o respeitado advogado e político romano Plínio, o Jovem, pedia a ajuda de um amigo influente para responder a uma dúvida perturbadora: afinal, fantasmas existem ou são apenas fruto da nossa imaginação?

Para embasar seu dilema, Plínio relatou o caso de uma mansão abandonada em Atenas. Um filósofo corajoso decidiu alugar a residência a preço de banana e acabou cara a cara com o espectro acorrentado. Em vez de fugir em pânico, o pensador acompanhou o vulto até o quintal, onde a aparição simplesmente afundou na terra. No dia seguinte, ao escavar o local indicado, as autoridades encontraram uma ossada humana presa a correntes de ferro.

A maldição dos corpos sem funeral

Na cultura romana, relatos como esse não serviam apenas para dar sustos ao redor da fogueira. A literatura da época mostra que o grande terror dos antigos não era a morte em si, mas a falta de um sepultamento adequado.

Segundo a crença popular do Império Romano, a alma de alguém cujo corpo não recebesse os rituais fúnebres corretos ficava presa à Terra, condenada a vagar e a aterrorizar os vivos até que seus restos mortais fossem enterrados com dignidade. Foi exatamente o que aconteceu na mansão de Atenas: assim que os ossos foram enterrados com os ritos tradicionais, a assombração cessou para sempre.

Contudo, nem todas as figuras espectrais representavam fantasmas de falecidos. Os antigos romanos também registravam encontros com aparições gigantescas e semidivinas que moldavam os rumos da história política. O historiador Suetônio revelou que o célebre imperador Júlio César presenciou uma criatura monumental antes de cruzar o rio Rubicão e dar início à guerra civil.

O próprio Plínio iniciou sua famosa carta descrevendo uma visão sobrenatural que previu com precisão a ascensão política de um homem. Nesses casos, a presença de vultos colossais servia mais como propaganda ou manifestação do destino do que como um conto assustador de terror.

Deboche, sarcasmo e cortes de cabelo misteriosos

Nem todos os romanos caíam no conto das aparições. O ceticismo era gigante e virava prato cheio para comédias de sucesso. A peça teatral Mostellaria, escrita por volta de 200 a.C., é considerada a primeira comédia sobre casas assombradas da história e tirava sarro da ingenuidade dos supersticiosos.

Na trama, um escravo inventa que a mansão do seu patrão está infestada por assombrações medonhas só para impedir que ele entre na propriedade e descubra que o filho deu festas de arromba durante toda a sua viagem.

Até o próprio Plínio, que parecia buscar uma explicação racional para o fenômeno, viveu seu próprio mistério doméstico. Na mesma carta ao amigo, ele revelou que dois de seus servos acordaram com tufos de cabelo estranhamente cortados ao lado do travesseiro, jurando ter visto figuras sombrias no quarto durante a madrugada.

Se a casa de Plínio realmente tinha um fantasma cabeleireiro ou se tudo não passou de uma grande peça pregada pelos escravos, a história não revela. O fato é que, assim como nós, os antigos romanos adoravam uma boa história de terror para testar a coragem na escuridão da noite.