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    Após aceno ao petróleo, Lula deve ressaltar agenda verde e propositiva em Berlim

    Lula chega à Alemanha neste domingo, após ida à Arábia Saudita e adesão à Opep+

    Presidente Luiz Inácio Lula da Silva
    Presidente Luiz Inácio Lula da Silva 05/11/2023 REUTERS/Adriano Machado

    Priscila Yazbekda CNN

    O presidente Lula chega em Berlim neste domingo (3) para uma visita de três dias. Ele pretende encerrar a viagem, que começou no Oriente Médio com forte aceno a países produtores de petróleo, com um tom mais ameno e ressaltando a aproximação de um país com forte agenda verde.

    Depois das visitas à Arábia Saudita, ao Catar e da confirmação de entrada na Opep+, que renderam críticas, o presidente amenizou o tom no seu último dia na COP28 em Dubai. Lula deve tentar na Alemanha passar a imagem de que o Brasil preza pelo multilateralismo e conversa com todos os atores, mas está comprometido com a agenda verde.

    Guilherme Casarões, cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas, acredita que o presidente tenha considerado a Alemanha como um bom ponto final depois de ter iniciado o roteiro pelo Oriente Médio.

    “Ainda que já houvesse uma expectativa de o Brasil integrar a Opep+ e sobre a agenda do petróleo, a ida à Alemanha resgata a razão original da viagem, que era agenda ambiental. Isso entrou no cálculo da diplomacia”, avalia Casarões.

    Também há intenção de fazer um contraponto democrático, visitando Berlim após a visita controversa ao príncipe saudita Mohammad bin Salman, acusado de mandar esquartejar um jornalista.

    Até agora, o presidente Lula fez 15 viagens ao exterior e a Alemanha será o 23º país visitado em 2023.

    Na agenda estão previstos encontros, na segunda-feira (4), com o presidente alemão Frank-Walter Steinmeier, o chanceler Olaf Scholz, além da presidente do Senado alemão, Manuela Schwesig. Lula também terá uma agenda de negócios e vai abrir um evento na Casa da Economia Alemã, com previsão de encontros entre os ministros da economia do Brasil e da Alemanha.

    Um encontro com partidos socialistas é aventado, mas ainda não foi confirmado pelo governo.

    Reaproximação após embates no governo Bolsonaro

    A visita acontece depois de um distanciamento diplomático entre os dois países.

    Nenhum chanceler alemão foi ao Brasil durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, que também não foi convidado para ir a Berlim durante o seu mandato. O estremecimento chegou ao auge quando a ex-chanceler Angela Merkel suspendeu os repasses de recursos ao Fundo Amazônia.

    O governo Lula marca uma retomada nas relações entre Berlim e Brasília, evidenciada pelos diversos encontros realizados ao longo do ano entre autoridades brasileiras e alemãs. Steinmeier, Scholz e sete ministros alemães visitaram o Brasil neste ano. E a reunião na capital alemã será a quinta vez em que Lula se encontrará com Scholz só em 2023.

    Lula participa da segunda edição das consultas intergovernamentais de alto nível Alemanha-Brasil, um formato de encontros proposto pela ex-chanceler Angela Merkel, restrito a poucos parceiros, para reforçar as parcerias e os diálogos entre os países. O Brasil é o único participante na América do Sul.

    Casarões lembra que apesar da retomada das relações, a visita de Scholz ao Brasil em janeiro terminou com algum desconforto. “Ficou com gostinho amargo com as falas de Lula sobre a guerra na Ucrânia e o fato de o Brasil não ter atendido ao pedido de envio de armamentos”, diz o professor da FGV.

    Mais de 200 acordos previstos

    Segundo o Itamaraty, mais de 200 acordos devem ser firmados em Berlim em áreas como meio ambiente, desenvolvimento global, agricultura, bioeconomia, energia, saúde, ciência, tecnologia e inovação.

    Em 2022, a corrente de comércio entre os dois países somou cerca de US$19 bilhões. E neste ano, a Alemanha passou da 11ª para a décima posição como principal parceiro comercial do Brasil. Segundo dados do Banco Central, a Alemanha é a oitava origem de investimentos diretos estrangeiros no Brasil, com US$ 23 bilhões em estoque.

    Além das parcerias de negócios, os líderes devem conversar sobre o bicentenário da imigração alemã ao Brasil em 2024. Os governos do Brasil e da Alemanha devem discutir em Berlim as atividades de comemoração da efeméride no ano que vem.

    Acordo entre Mercosul-UE esfria

    Outra pauta das conversas deve ser o acordo entre Mercosul e União Europeia, que criaria a maior área de livre comércio do mundo.

    Lula se encontrou em Dubai com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von Der Leyen, e ambos citaram avanços significativos das equipes técnicas dos dois lados. O presidente também se reuniu com o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sanchez – Lula está à frente da presidência rotativa do Mercosul e Sanchez do Conselho Europeu – e eles enfatizaram sobre a necessidade de concluir acordo.

    Mas depois do encontro com o presidente francês Emmanuel Macron, as expectativas para a finalização do acordo neste ano, como vinha frisando Lula, reduziram drasticamente. Apesar de nunca ter escondido suas ressalvas, Macron foi mais cristalino que nunca ao dizer que é contrário ao acordo em Dubai.

    Fontes do governo brasileiro sabem da resistência do governo francês há tempos e já diziam que a probabilidade de o acordo seguir em frente neste ano era difícil. Scholz e Lula devem ressaltar mais uma vez a disposição de ambos para destravar a última fase da parceria, mas agora sem grande poder de convencimento.

    O Mercosul é o bloco formado por Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai – e em breve Bolívia – e a União Europeia é o bloco formado por 27 países europeus. O acordo entre os blocos vinha sendo discutido há 20 anos, até ser concluído em 2020. Mas, para valer na prática, precisa ser assinado e ratificado pelos chefes de Estado e parlamentos dos países dos dois blocos, além do Parlamento Europeu.