Adiamento do acordo Mercosul-UE traz insegurança, diz ex-Banco Mundial
Carlos Primo Braga, ex-diretor do Banco Mundial, analisa impactos da judicialização do acordo comercial e aponta que Brasil e agronegócio são os mais prejudicados
A judicialização do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia adiciona um novo capítulo de incertezas em uma negociação que já se arrasta por mais de duas décadas.
Para Carlos Primo Braga, ex-diretor do Banco Mundial, a decisão do Parlamento Europeu de levar o acordo à Corte de Justiça é uma estratégia política para ganhar tempo e criar espaço adicional para negociações.
"É uma estratégia daqueles segmentos dos partidos europeus que são contrários ao acordo e que refletem, seja a extrema esquerda, seja a extrema direita, sejam os verdes", explica Braga.
O especialista destaca que o adiamento pode levar de 18 meses a dois anos, embora exista a possibilidade de uma aplicação provisória do acordo, desde que um dos parlamentos do Mercosul o aprove.
Quanto aos prejuízos econômicos do adiamento, Braga afirma que as decisões de investimento são as primeiras a serem afetadas.
"Do ponto de vista de fluxos de comércio, naturalmente, nós temos que esperar até o momento que a introdução do acordo, mesmo que seja de uma forma provisória, comece a valer", observa.
Na avaliação do especialista, o Brasil é o país mais prejudicado pelo adiamento, especialmente o setor do agronegócio.
"No caso da Europa, aí varia de país para país. A Alemanha e a Espanha são altamente favoráveis ao acordo. A França é onde há uma oposição significativa", detalha Braga, lembrando que mesmo na França há setores beneficiados, como o de vinhos e champanhe, enquanto persistem preocupações em outras áreas, particularmente com relação à carne.
Alternativas para o Mercosul
Diante da possibilidade de o acordo ficar travado por anos, Braga menciona que o Brasil e o Mercosul já buscam acordos paralelos. "Um acordo que obviamente nesse momento seria de interesse é exatamente com o Canadá, por exemplo", sugere o especialista.
Braga compara as negociações comerciais à velocidade das placas tectônicas, citando um colega da Organização Mundial do Comércio: "A negociação de acordos comerciais tem a velocidade de placas tectônicas".
Ele lembra que as discussões do acordo Mercosul-União Europeia começaram formalmente em 1999, caracterizando o processo como "uma novela mexicana, 26 anos mais tarde de negociações, agora temos esse percalço adicional".
Apesar dos obstáculos, o ex-diretor do Banco Mundial menciona que a diplomacia brasileira está relativamente otimista quanto à possibilidade de implementação provisória do acordo, mesmo diante dos novos desafios jurídicos.


