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Análise com lupa: O que o mercado espera do comunicado do Copom?

Sem surpresas para resultado desta quarta-feira (28), analistas buscam pistas que indiquem início da queda dos juros a partir de março

Gabriel Bosa, da CNN Brasil, em São Paulo
Fachada do prédio do Banco Central do Brasil
Fachada do prédio do Banco Central do Brasil  • Ilustração feita com inteligência artificial
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Comunicados das decisões sobre juros do BC (Banco Central) costumam ser carregados de condicionantes, uma redação que evita grandes comprometimentos da autoridade monetária e dá mais espaço para manobrar os juros.

Sem surpresas para o resultado desta quarta-feira (28), o mercado se prepara para ler com lupa cada frase publicada pelo Copom (Comitê de Política Monetária) em busca de pistas sobre um possível início do corte da Selic - a taxa básica de juros - a partir do próximo encontro, em março.

As "dicas" da autoridade monetária estão nas entrelinhas, e muitas vezes o não dito se sobressai ao que está escrito.

Como exemplo, a XP cita o emprego de "significativamente contracionista” no trecho o qual o colegiado descreve a necessidade de manter o aperto dos juros.

A conjunção apareceu no comunicado pós-Copom de maio de 2025, quando a Selic subiu a 14,75%, e desde então está presente em todos os anúncios de política monetária.

Para a XP, uma possível ausência do termo no comunicado desta quarta pode ser uma forma do BC falar, mas não diretamente, que o ciclo de corte está se aproximando.

"Nesse contexto, acreditamos que o comunicado pós-decisão desta semana deixará alguma margem para eventual corte de juros em março", diz em relatório.

A expressão "bastante" também chamou a atenção dos analistas.

Desde que os juros foram a 15%, em junho do ano passado, o BC repetiu em todos os comunicados que o cenário determina uma "política monetária em patamar significativamente contracionista por período bastante prolongado".

Os juros completarão 10 meses no nível de 15% em março, data do próximo Copom, "o que nos parece compatível com a definição de um período bastante prolongado", diz o time da XP.

Mário Mesquita, economista-chefe do Itaú, nota que o BC já alterou sutilmente a comunicação em dezembro.

Para ele, o comitê deve apontar que a estratégia até então de juros elevados está se mostrando adequada, substituindo a ênfase em se manter vigilante por uma prescrição de "paciência e serenidade".

"Seguimos acreditando que o início do ciclo de flexibilização está próximo. Em sua comunicação recente, o comitê demonstrou que está ganhando confiança de que sua estratégia está surtindo efeito. Na ausência de grandes surpresas, essa convicção deveria aumentar ao longo do tempo", aponta.

Dependência de dados

A expectativa de mais uma manutenção do BC é respaldada pelas indicações do presidente da autarquia, Gabriel Galípolo, da dependência dos dados para a tomada de decisões.

Números recentes do mercado de trabalho mostram que o desemprego segue nas mínimas históricas, indicando uma economia ainda aquecida.

Por outro lado, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) segue gradualmente para o centro da meta — mas com expectativas ainda desancoradas —, enquanto o dólar mantém sinais de arrefecimento no mercado doméstico.

Feipe Sales, economista-chefe do banco C6, pondera que esses fatores ainda determinam uma política monetária contracionista.

Ao mesmo tempo, ele aponta que o texto do BC deve reconhecer que o choque de juros promovido desde setembro do ano passado, quando iniciou o atual ciclo de alta, está fazendo efeito no arrefecimento da inflação.

"O Copom deve reforçar a necessidade de perseverar com uma política monetária contracionista até que se consolide não apenas o processo de desinflação, mas também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas", diz.

Para Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, as notícias foram positivas no flanco inflacionário, apesar de as expectativas ainda estarem desancoradas e pressões maiores no setor de serviços.

Em um quadro mais amplo, porém, ele cita a já percebida perda de fôlego das atividades como um ponto que contribui para o BC começar a indicar que o início do ciclo de recuo da Selic está se aproximando.

"[...] avaliamos que o Comitê pode promover um ajuste marginal em sua comunicação, reconhecendo de forma mais explícita que, caso o cenário evolua conforme o esperado, haverá espaço para iniciar o processo de flexibilização monetária nas próximas reuniões", diz.

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