Inadimplência vai bater no consumo e no PIB, diz pesquisador do FGV Ibre
Números mostram que comprometimento da renda e atraso nas dívidas atingem patamares alarmantes no Brasil
O brasileiro nunca enfrentou tantas dificuldades para manter as contas em dia. Indicadores de diversas entidades e ógãos apontam que o comprometimento da renda e o atraso nas dívidas atingiram patamares alarmantes no país.
Em entrevista ao CNN Money nesta quarta-feira (15), João Mário de França, pesquisador do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), apontou que nível de endividamento das famílias brasileiras já compromete cerca de um terço da renda média, o que afeta o consumo e os indicadores da economia, como o PIB (Produto Interno Bruto).
"O consumo, todos nós sabemos, é o principal motor do PIB brasileiro, do crescimento da economia brasileira", diz. "Então, esse endividamento, essa inadimplência, rapidamente vai bater no consumo, e isso vai bater numa diminuição do ritmo da atividade econômica no país".
O pesquisador diz que dois fatores principais agravam a situação das famílias: os juros elevados e a inflação que corrói o poder de compra.
França lembra que, embora a taxa Selic seja uma referência que influencia todo o sistema financeiro, as famílias brasileiras enfrentam uma estrutura de endividamento muito mais severa.
"Em geral, as famílias estão em linhas de crédito, linhas de financiamento muito caras, como o cartão de crédito rotativo", afirma França, destacando que esta modalidade possui juros de mais de 400% ao ano.
Além disso, a inflação no Brasil permanece em patamar elevado, "rodando a 4%, 4,5% ao ano", com a inflação de alimentos superando a média geral.
Governo não apresenta soluções estruturais
Quanto às medidas propostas pelo governo para reduzir o endividamento, como a utilização do FGTS para abater dívidas, o especialista as considera soluções momentâneas, não estruturais.
"É uma medida de curto prazo, emergencial, mas não resolve a questão estrutural do perfil desse consumidor, que está com a renda agora estagnada e comprometida com essa questão do endividamento", explica.
França descreve a situação como uma "bola de neve", onde famílias acessam modalidades de crédito mais arriscadas e custosas, enquanto governo e grandes empresas se financiam com títulos públicos e privados, que são formas mais baratas de crédito.
O especialista defende que são necessárias medidas estruturais de médio e longo prazo, incluindo melhor ajuste das contas públicas pelo governo, o que teria impacto positivo na redução dos juros, além de maior conscientização e educação financeira dos consumidores.


