Krugman: Ataque de Trump ao Fed pode "sair pela culatra"
Segundo ele, a abertura da investigação criminal é uma intimidação a todos os membros da autoridade monetária e a qualquer pessoa contrária à agenda de Donald Trump

O economista norte-americano Paul Krugman afirmou que o ataque do governo dos Estados Unidos contra o chair do Federal Reserve, Jerome Powell, pode "sair pela culatra".
Segundo ele, a abertura da investigação criminal é uma intimidação a todos os membros da autoridade monetária e a qualquer pessoa contrária à agenda do presidente Donald Trump, e pode se voltar contra o republicano, sem corte de juros no curto prazo e taxas longas mais altas.
"Tudo isso é sobre intimidação, não apenas de Powell, mas de todos no Fed", declarou o vencedor do prêmio Nobel de 2008 nesta terça-feira (13). "Isso não é apenas sobre o Fed. É parte de um ataque mais amplo a qualquer um que não concorde com a agenda de Trump", acrescentou.
Krugman citou também o posicionamento de ex-presidentes e membros do Fed em defesa de Powell.
Ele destacou ainda que, embora Trump tenha se autoproclamado "presidente interino da Venezuela" no fim de semana, "definitivamente ele não é".
Para o Nobel de 2008, no caso do Fed, o "tiro" de Trump pode "sair pela culatra" por três razões. Em primeiro lugar, os juros não devem cair no curto prazo. "O Fed relutará em cortar taxas, mesmo que isso possa fazer sentido, para não parecer que a intimidação (de Trump) está funcionando", analisou Krugman.
Essa relutância, de acordo com ele, persistirá mesmo depois que Trump escolher um novo presidente do Fed. O mandato de Powell termina em maio de 2026. Krugman lembra que as taxas de juros são definidas pelo Comitê Federal do Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), não por um indivíduo, e a maioria dos membros relevantes do comitê não são indicados por Trump.
O segundo ponto de Krugman é que mesmo um banco central politizado só pode reduzir as taxas de juros de curto prazo temporariamente. "À medida que a inflação aumenta, o banco será eventualmente forçado a aumentar as taxas mais do que eram no início", afirma, citando como exemplo o caso da Turquia, que viu a inflação disparar a 80%.
Por fim, o economista alerta que atacar a independência do banco central dos EUA poderia empurrar as taxas de juros de longo prazo, que são as que importam para a economia, para cima. "Os investidores em títulos entendem que a pressão política sobre o Fed eventualmente significará taxas de juros de curto prazo mais altas", explicou.
Conforme Krugman, embora as taxas de longo prazo nos EUA não tenham se movido muito após o ataque a Powell, elas "subiram ligeiramente".
Ele comentou ainda que, se altos membros do governo Trump, como o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, e o diretor do Conselho Econômico Nacional dos EUA, Kevin Hassett, candidato a substituir Powell, tivessem "alguma integridade", teriam ameaçado renunciar em massa. "Mas eles não têm e não fizeram", opinou.


