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    Não podemos ter “pote de ouro e não explorar”, diz chefe de agência do AP à CNN

    Presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico do estado defende que recursos de royalties da exploração de petróleo sejam investidos em infraestrutura

    População do Amapá sofre com alguns dos piores indicadores sociais e econômicos do Brasil
    População do Amapá sofre com alguns dos piores indicadores sociais e econômicos do Brasil CNN

    Caio Junqueira

    O presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico do Amapá, Jurandil Juarez, disse à CNN que o estado não pode “estar sentado em um pote de ouro” como o petróleo e não poder explorá-lo.

    Juarez avalia ainda que os recursos dos royalties devem ser investidos em infraestrutura e que houve um erro de comunicação dos defensores do empreendimento ao passar a ideia de que a exploração ocorreria na Foz do Amazonas.

    Leia a entrevista abaixo: 

    Supondo que comece a exploração de petróleo, qual é o plano? O que fazer com esse dinheiro?

    Qualquer sobra de dinheiro que tenha hoje na economia tem uma serventia. Primeiro, porque a tradição aqui do estado fez com que todos os investimentos fossem feitos ou pelo poder público, dada a implantação do território federal, a implantação de uma unidade federativa onde a população não chegava a 2 mil habitantes, se construiu cidades e estruturas compatíveis com capitais, já modernas. E outro grande investimento que nós tivemos foi na exploração de manganês, uma empresa privada que explorou o manganês durante 50 anos e criou duas cidades, uma ferrovia, um porto de exploração de petróleo e chegou a nos dar a condição de ser o estado brasileiro que tinha a maior produção de manganês do Brasil, em algumas circunstâncias, até a maior produção de manganês do mundo.

    O que que nós fizemos com o que sobrou do manganês, que era a única riqueza explorada por uma empresa privada? Nós aproveitamos o royalty do manganês, construímos a primeira hidrelétrica a ser construída por um estado, naquela altura unidade federada, na região amazônica: a Usina Hidrelétrica Coaracy Nunes, que continua até hoje funcionando. Nós fomos a primeira unidade federada do Norte que teve uma unidade fora do sistema e só se incorporou ao sistema agora bem recentemente, já no atual século.

    Jurandil Juarez é presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico do Amapá
    Juarez defende que recursos dos royalties da exploração de petróleo devem ser investidos em infraestrutura na região / Djalma Sena

    Como está o debate na elite política, econômica sobre a questão do petróleo? Vocês defendem e por quê?

    Primeiro, o debate é recente, embora essa informação sobre o petróleo não seja uma questão recente, mas ela se materializou de forma objetiva há pouco tempo. Há pouco tempo e dentro de uma questão polêmica. Primeiro, porque se sabe da existência muito mais por conta dos vizinhos da Guiana e do Suriname, que já exploram em posições de exploração, como a Guiana Francesa. Então a gente sabe que, como nós estamos na mesma plataforma, se sabe que tem o petróleo.

    Quando se começou a fazer os estudos, que se intensificou, aprofundou os estudos a respeito do petróleo, isso mobilizou a sociedade. Houve um interesse muito grande, porque, quando nós tínhamos tido o manganês com a forma de ser, o estado era o maior produtor de manganês do Brasil. Quer dizer, tínhamos agora a oportunidade de ter também uma outra riqueza mineral, que seria interessantíssima para produzir os efeitos econômicos que nós estávamos precisando depois da falência do projeto de manganês no estado.

    As pessoas que são contrárias à exploração do petróleo citam o caso do manganês, o projeto Jari, o projeto de eucalipto. Tem um discurso em construção, de quem se opõe, muito baseado em que os outros projetos estruturantes, que prometeram desenvolver o estado, não desenvolveram. Como o senhor responde para a pessoa que fala “poxa, quando veio, não desenvolveu o estado em termos de indicadores sociais e econômicos”. Por que agora essas pessoas deveriam acreditar que vai desenvolver?

    No que se refere ao manganês, há um equívoco histórico, porque, na verdade, o manganês, sim, foi um pilar de desenvolvimento para o estado. Você desenvolveu não só a região litorânea, o porto de Santana, mas também a região oeste do estado, que não tinha nenhuma perspectiva, como continua não tendo agora.

    Mas o manganês em si, a exploração do manganês, foi precedida de grandes investimentos, como uma cidade na Serra do Navio, que se chama Teresinha, e tinha toda a infraestrutura de uma cidade muito moderna. O projeto construiu uma cidade como eu estou te dizendo, uma cidade completa. Precisava de uma ferrovia, foi construída uma ferrovia de 194 km. Fez-se um porto para a exploração de petróleo, fez-se uma cidade aqui na área portuária de Santana. Então, isso praticamente ordenou o crescimento dessas regiões, agora o que é que aconteceu?

    No final da década de 90, terminou o contrato de 50 anos do manganês e, aí, sim, houve um grande equívoco quando foi para aproveitar um projeto que era repassado, contratualmente. O projeto de manganês passaria a ser propriedade do Amapá, naquela altura, já o estado do Amapá. E o que fez o governador da época? Não quis dar continuidade. 

    O que garante que, com o petróleo, não vai acontecer o mesmo?

    Eu não vejo como. Se nós tivemos cabeça para fazer do royalty do manganês… lembra que, naquela época, era território federal? A sociedade pouco fruía nisso, não apostava nada, e nós fizemos a hidrelétrica, que era impensável você ter na época uma empresa que geraria quase 100 MW, para um consumo de menos de 50, e se dizer que nós jogávamos fora a energia. E era verdade, era muito acima da capacidade. Mas foi feito, e ela continua existindo até hoje.

    Por esse lado, os ganhos de petróleo… e eu acho que nós estamos evoluindo muito quanto a isso. Primeiro, porque nós temos uma população muito pequena para ter o tamanho dos problemas que nós temos. Nós temos graves problemas na área de educação, na área de saúde, na área da segurança, mas principalmente nós temos graves problemas na área de investimentos, tanto os públicos quanto da iniciativa privada. E o que se tem percebido é que há uma procura muito grande por investimentos privados em função da exploração petrolífera. Nós estamos recebendo propostas de instalação de estaleiros.

    Não sei se tem uma região como a nossa que toda a navegação, 100% da navegação regional, é por água, e nós não temos nenhum estaleiro, nem para produzir, nem para consertar a embarcação. A gente compra tudo pronto e manda consertar fora.

    Jurandil Juarez, presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico do Amapá

    É possível, sim, com os efeitos colaterais que tem a exploração do petróleo, a gente (consiga) desenvolver não só a indústria de produção de equipamentos aquáticos, construção de embarcações, reparo de embarcações, mas também utilizar tudo aquilo que a indústria petroquímica permite ser feito hoje, em uma área em que como tudo precisa ser feito, tudo precisa ser iniciado.

    Você não tem custo, você não precisa perder nada. Você vai começar de um patamar mais elevado. A indústria petroquímica vai continuar existindo, mesmo que o petróleo, que a gente sabe que em 50 anos não vai acontecer, de desaparecer a sua importância. Mas a indústria petroquímica vai continuar tendo importância durante muito tempo, e nós saberemos aproveitar isso.  

    A mera expectativa já gerou uma dinâmica aqui? O senhor falou de estaleiros, investidores… quem veio procurar vocês?

    Basicamente, essa questão do estaleiro. Mas, veja bem, o aeroporto de Oiapoque está pronto. Tem um aeroporto em Oiapoque que não tinha. Tinha uma pista de pouso lá, precária, e isso reacendeu a possibilidade de você fazer voos para Oiapoque. Evidentemente que, com essa resguarda que aconteceu, a própria Petrobras se retirou, e nós perdemos isso. Mas o município de Oiapoque já representa hoje, com a efervescência que trouxe só a notícia do petróleo, já demonstra que esse é um passo a ser dado.

    O senhor me falou que foi um erro de comunicação falar Foz do Amazonas.  

    Isso foi um equívoco muito grande, porque não precisava. Eu acho que nós ficamos empolgados pelo fato de que nós temos a marca Amapá. A marca Amazonas, Amazônia, tudo isso é uma grife que onde você aplica valoriza.

    Acho que houve um sentimento talvez de dizer que o petróleo era amazônico, quando, na verdade, da Foz do Amazonas para onde vai ser explorado, na plataforma continental, tem mais de 520 km de distância.

    Jurandil Juarez, presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico do Amapá

    Agora, o que se aproveitou e, aí, eu não sei se de forma maliciosa ou inteligente, quem era contra, ou principalmente as ONGs que se preocupam muito pouco com as realidades, não só a questão da realidade do desenvolvimento econômico local, mas, sobretudo, a realidade do que está acontecendo mesmo, onde está acontecendo, por exemplo, a exploração do petróleo, se utilizou muito disso para dizer que nós íamos destruir corais que estariam na foz do Rio Amazonas.

    Isso não tem nada a ver, e realmente isso construiu um embaraço de opinião pública, não só nacional, mas também muita gente de fora. A Gisele Bundchen nunca veio ao Amapá, talvez não saiba nem no mapa onde é o Amapá, mas manifestou-se muitas vezes. E isso criou fora um mal-estar muito grande, porque sugeria que era uma brasileira que estava defendendo os interesses mais legítimos dos brasileiros, quando, na verdade, não tem conhecimento da realidade. Apenas criou mais embaraço, mais confusão para quem queria compreender o que, na verdade, estava acontecendo.  

    O senhor acredita que o estado conseguirá explorar petróleo?

    Tivemos um erro na questão da comunicação. Dizer que estava na Foz do Amazonas, quando, na verdade, são 520 km de distância. Isso frustrou muita coisa, mas não podemos abrir mão. Eu não vejo como admitir que Suriname e Guiana vão produzir mais petróleo que o Brasil. Não é algo que seja do Amapá e da Amazônia, é algo estratégico para o Brasil. A gente não pode estar sentado em um pote de ouro, passando fome e sem futuro.

    O senhor falou que a questão do petróleo não é algo estratégico para o Amapá, nem para a Amazônia, mas para o Brasil.

    É que petróleo é hoje um problema, quando fala até na atualidade. Agora nós estamos vendo um conflito lá no Oriente Médio, e isso começa a afetar. A gente não sabe o que vai acontecer, mas o petróleo já bateu em 90 e ele pode bater em 100.

    Quando ele chegar em 100, nós vamos ter uma disparada na inflação, o que é natural. Nós não temos capacidade de produzir o suficiente hoje para o nosso consumo interno, mesmo que tivéssemos, nós não temos petróleo de qualidade para atender o nosso consumo. Então, o Brasil é demandante de petróleo, e ele não tem autossuficiência. Por isso, ele precisa exportar.

    Esperança dos moradores do Amapá está na geração de empregos com a exploração do petróleo / Djalma Sena

    Ora, você tendo mananciais do tamanho que nós temos aqui, você tem necessidade. Eu não vejo nenhum ponto de racionalidade em você não explorar essa riqueza que você tem. E, olha, isso sendo feito no Amapá é uma espécie de devolução daquilo tudo que foi levado daqui e tudo que nós produzimos para o restante do país, que nunca veio nada de forma equilibrada.

    Vamos dizer assim: há uma equivalência, o Amapá recebe recompensas por aquilo que é tirado dele, principalmente no que se refere às nossas áreas que são protegidas. Nós temos hoje 505 mil, com dados do mês de maio, 505 mil habitantes do Amapá no CadÚnico. Nós temos 633 mil habitantes. Você vê que é quase 70% da população registrado como pobres nos programas do governo. Então, você não pode ter tanta pobreza, estando em cima de tanta riqueza. Tanto a mineral, como a florestal, como a de pesca e a possibilidade agrícola que nós temos.

    A CNN publica nesta semana a série especial Petróleo na Amazonia. Confira aqui as reportagens