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Recuo de Trump sobre a Groenlândia pode evitar uma guerra econômica

Na quarta-feira (21), Trump anunciou que há a estrutura de um futuro acordo sobre a Groenlândia e cancelou as tarifas prometidas

Anna Cooban, da CNN
Donald Trump em Davos
Donald Trump em Davos  • REUTERS/Denis Balibouse
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A ameaça do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor tarifas aos países que se opõem à tentativa do republicano de anexar a Groenlândia desapareceu e, com ela, a perspectiva de uma guerra econômica de retaliações com a Europa, um dos parceiros comerciais mais importantes dos Estados Unidos.

Na quarta-feira (21), Trump anunciou que há a estrutura de um futuro acordo sobre a Groenlândia e cancelou as tarifas prometidas.

A Europa estava considerando medidas de emergência contra os Estados Unidos, porque a exigência de Trump de que a Europa cedesse aos EUA o território de um aliado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ou enfrentasse tarifas punitivas era uma linha que os líderes da região não estavam dispostos a deixar ele cruzar – pelo menos não sem lutar.

Não está claro se as ameaças da UE de retaliar com as próprias medidas comerciais ou a decisão, na quarta-feira (21), de suspender as aprovações finais do acordo comercial com os EUA motivaram Trump a recuar.

Seja qual for a justificativa de Trump para voltar atrás, uma guerra desagradável parece ter sido evitada – por enquanto.

Acordo comercial "fadado ao fracasso"

Na quarta-feira (21), os legisladores da UE responderam à ameaça de tarifas de Trump concordando em suspender a ratificação de uma minuta de acordo comercial UE-EUA.

O acordo estabeleceu uma taxa de 15% sobre a maioria dos produtos importados do bloco – com algumas exceções notáveis, incluindo produtos farmacêuticos – e inclui um compromisso da UE de comprar US$ 750 bilhões em produtos energéticos dos EUA.

Julian Hinz, chefe de pesquisa de política comercial do Instituto de Kiel, disse à CNN que muitos europeus o veem como "muito assimétrico" em favor dos EUA.

Nesta sexta-feira (23), a presidente do Parlamento Europeu declarou que a UE provavelmente retomará as negociações sobre o acordo comercial.

Tarifas retaliatórias

Em retaliação aos Estados Unidos, a UE poderia ter reativado um pacote de tarifas retaliatórias no valor de € 93 bilhões (US$ 109 bilhões) elaborado no ano passado em resposta às ameaças tarifárias anteriores de Trump. Segundo relatos, o pacote visa produtos que vão desde soja americana até uísque.

As tarifas poderiam ter representado um golpe político para Trump, que enfrenta eleições de meio de mandato ainda este ano, afirmou Jacob Funk Kirkegaard, pesquisador sênior do Instituto Peterson de Economia Internacional.

“Esse pacote já foi concebido para atingir estados republicanos, estados agrícolas… acredito que teria um impacto negativo bastante significativo nesses locais”, analisou.

“Bazuca comercial”

A UE poderia ter ido além das tarifas retaliatórias e acionado, pela primeira vez, a chamada “bazuca comercial”, um mecanismo que permite ao executivo do bloco impor uma série de sanções aos parceiros comerciais.

O chamado Instrumento Anticoerção permite que a UE imponha controles às exportações europeias para os EUA, introduza novas tarifas e limite os investimentos de empresas americanas no bloco, afirmou Carsten Brzeski, chefe global de pesquisa macroeconômica do ING.

"A beleza é que tudo pode estar nele e nada", disse.

Isso permite causar danos significativos aos Estados Unidos, observou Kirkegaard – desde que um número suficiente de Estados-membros concorde.

“Essa ferramenta é legitimamente descrita como uma bazuca… mas também pode ser vista como um bisturi que realmente pode prejudicar os interesses comerciais dos EUA de forma muito cirúrgica”.

Com esse mecanismo, a Europa pode ter se inspirado na forte retaliação da China contra os Estados Unidos no ano passado.

A segunda maior economia do mundo – que, em determinado momento, tinha uma tarifa geral de 145% sobre os produtos imposta pelos EUA – introduziu controles de exportação para minerais críticos. Também aumentou as exportações para mercados novos e existentes com grande sucesso, demonstrando que não só podia resistir às tarifas americanas, como também prosperar.

Venda de títulos do Tesouro dos EUA

Os países da UE detêm coletivamente US$ 8 trilhões em ações e títulos americanos, tornando-se o maior credor dos Estados Unidos, escreveu George Saravelos, chefe de pesquisa cambial do Deutsche Bank, em uma nota no domingo (18). Ele sugeriu que a Europa poderia se desfazer da dívida pública americana em retaliação à anexação da Groenlândia por Trump, uma medida que poderia aumentar os custos de empréstimo nos EUA e elevar o custo de vida.

O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, rejeitou a nota no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, na quarta-feira (21), dizendo que o CEO do Deutsche Bank informou a ele que o banco não mantém essa análise.

Desfazer-se da dívida americana é quase certamente uma fantasia, pois teria um efeito contrário, reduzindo o valor das reservas restantes do Tesouro desses países.

"Portanto, não considero isso uma arma comercial realmente eficaz", disse Kirkegaard. "É o tipo de coisa que se faz em caso de uma guerra de verdade na Groenlândia", afirmou.

"Brincando com fogo"

Uma disputa comercial teria custado caro aos Estados Unidos – e à Europa. Trump ameaçou impor tarifas de 30% ao bloco europeu econômico antes do acordo.

Isso poderia ter aumentado os preços nos Estados Unidos, corroendo ainda mais a confiança empresarial e levando o já instável mercado de trabalho americano ao colapso. Além disso, poderia ter prejudicado as empresas europeias, afastando os consumidores americanos dos produtos.

Alguns argumentam que a retaliação poderia ter sido uma proposta perigosa, pois poderia ter levado Trump a abandonar outras políticas cruciais para a Europa.

“Se a Europa começar a impor tarifas, quem impede o governo americano de dizer ‘bem, então vamos parar de apoiar a Ucrânia’?”, questionou Brzeski. “A Europa ainda pensa que estamos em um jogo com regras muito claras – não estamos”, concluiu.

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