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Trump quer vender petróleo da Venezuela - mas quem vai comprar?

Maior importador mundial da commodity, China reduz demanda com rápida adoção de veículos elétricos, enquanto EUA busca controlar produção venezuelana

Ella Nilsen, da CNN
Trump vendendo petróleo venezuelano
China tem sido há muito tempo um dos maiores compradores do petróleo venezuelano, mas seu interesse está diminuindo  • Ilustração gerada por IA
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O presidente Donald Trump quer que os EUA vendam o petróleo da Venezuela. Mas quem o compraria?

A China tem sido há muito tempo um dos maiores compradores do petróleo venezuelano. Mas seu interesse pela commodity está diminuindo, à medida que o país realiza uma transição surpreendentemente rápida para veículos elétricos.

Segundo especialistas ouvidos pela CNN Internacional, essa transição significa que as importações de petróleo da China provavelmente não serão seriamente afetadas pela recente operação militar dos EUA na Venezuela e pela pressão de Trump para que empresas americanas revitalizem a infraestrutura petrolífera do país.

A China provavelmente conseguirá obter o petróleo necessário da Rússia ou do Irã.

Mas não há dúvidas sobre a trajetória da demanda chinesa pelo óleo a longo prazo: analistas afirmam que ela tenderá a diminuir. Muitos projetam que o país já atingiu ou atingirá muito em breve o "pico do petróleo".

Como a CNN Internacional noticiou, o governo Trump informou à presidente interina da Venezuela, Delcy Rodriguez, que o país deve cortar laços com China, Irã, Rússia e Cuba, e concordar em fazer parceria exclusivamente com os EUA na produção petrolífera.

Em pronunciamento na terça-feira (6), a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, classificou as ações do governo Trump como "intimidação" e afirmou que "violam gravemente o direito internacional".

O consumo de petróleo da China é relevante. Como maior importador mundial de petróleo, o que acontece no país tem efeitos em cascata em todo o mercado global de petróleo.

Especialistas em energia afirmam que essa tendência mostra como EUA e China estão divergindo drasticamente na transição energética, com a China muito à frente em energias renováveis e veículos elétricos, enquanto os EUA redobram a aposta na exploração de petróleo dentro e fora do país.

Grande parte dessa mudança foi impulsionada pela transformação do setor de transportes da China, de veículos movidos a gasolina para elétricos.

A China domina o mercado de veículos elétricos; dos 18,5 milhões de veículos elétricos vendidos globalmente no ano passado, mais de 11 milhões foram vendidos na China, segundo a empresa britânica de pesquisa Rho Motion.

"Isso é muito decisivo; não há volta", afirmou Li Shuo, diretor do centro de clima da China no Instituto de Política da Sociedade Asiática. Comparado ao desenvolvimento intermitente da política de veículos elétricos nos EUA, os veículos elétricos se tornaram firmemente estabelecidos na China.

E com o mercado doméstico cada vez mais saturado de veículos elétricos, as empresas chinesas estão buscando vender seus carros em outras partes do mundo.

A empresa chinesa BYD — que recentemente superou a Tesla como a maior vendedora mundial de veículos elétricos — exportou um número recorde de veículos ao redor do mundo este ano, segundo dados da Rho Motion.

"Agora estamos vendo a história dos veículos elétricos chineses se repetindo em outras partes do mundo e, muito interessantemente, mais no sul global do que nos Estados Unidos e países europeus", afirmou Shuo.

Embora a demanda por petróleo do setor de transportes do país já tenha atingido seu pico, outros setores, incluindo petroquímicos e combustível de aviação, devem continuar crescendo.

Cerca de 400 mil a 500 mil barris por dia de petróleo venezuelano chegam à China, segundo Janiv Shah, vice-presidente de pesquisa de mercado de commodities da empresa norueguesa de energia Rystad. A Venezuela representa uma pequena porcentagem das importações totais de petróleo da China.

"Qualquer intervenção dos EUA poderia forçar esse número a cair drasticamente, já que vemos essa movimentação como um golpe simbólico contra a China em escala mundial", escreveu Shah em um e-mail.

Mas ele acrescentou que a China ainda terá acesso a suprimentos de petróleo de outros países.

"As refinarias chinesas provavelmente se voltariam para outros barris sancionados com desconto do Irã e da Rússia".

Em outras palavras, a Venezuela precisa mais dos negócios com a China do que a China precisa da Venezuela, disse Shuo.

"A Venezuela é muito dependente da China como mercado, não há dúvida sobre isso", afirmou ele.

E, a longo prazo, a intervenção dos EUA na Venezuela pode apenas reforçar a busca da China pela independência energética — tentando produzir mais energia própria internamente e romper a dependência de fontes estrangeiras de energia que podem ser interrompidas.

Como a CNN Internacional reportou no ano passado, a China estava construindo 510 gigawatts de capacidade de energia solar e eólica em escala de utilidade, de acordo com o Global Energy Monitor, um acréscimo aos impressionantes 1.400 gigawatts já em operação.

A China se comprometeu a construir ainda mais em setembro, prometendo aumentar a energia eólica e solar implantada para 3.600 gigawatts — seis vezes mais do que tinha em 2020.

O país também está construindo usinas nucleares e desenvolvendo um programa ambicioso para implementar energia de fusão — uma fonte de energia limpa praticamente ilimitada.

A China está correndo em direção à energia do futuro, enquanto a incursão dos EUA na Venezuela em busca de petróleo demonstra que o país está preso à energia do passado, afirmou Shuo.

"A maior economia do mundo está adotando uma abordagem de petroestado", disse Shuo.

"Isso apenas reforça a noção de que os Estados Unidos estão cada vez mais retrocedendo na transição energética e, além disso, estão muito dispostos e aptos a mobilizar forças militares para atingir esse objetivo".

Esse conteúdo foi publicado originalmente em
inglêsVer original 
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