Inadimplência do consignado privado atinge 10% e bate recorde, diz BC

Carteira mais que dobrou em um ano e atrasos avançam mesmo com desconto das parcelas diretamente na folha de pagamento; dados de junho e julho são preliminares e podem ser revisados pelo BC

Lucinda Pinto e Victor Irajá, da CNN Brasil, em São Paulo
Compartilhar matéria

A inadimplência do crédito consignado para trabalhadores do setor privado atingiu 10% em julho, maior nível da série histórica do Banco Central, iniciada em março de 2011. Foi também a primeira vez que o indicador chegou aos dois dígitos.

O avanço chama atenção não apenas pelo tamanho, mas pela velocidade. A inadimplência subiu 1,3 ponto percentual em apenas um mês, ante 8,7% em junho.

Em julho do ano passado, estava em 6,2%. Em 12 meses, portanto, o aumento foi de 3,8 pontos percentuais.

A deterioração contrasta com o comportamento das demais modalidades de crédito consignado. Entre servidores públicos, a inadimplência ficou em 2,7% em julho, ante 2,6% em junho.

No consignado do INSS, passou de 1,9% para 2,1%. Considerando todas as modalidades de consignado, a taxa ficou em 3,6%.

O consignado privado também já apresenta inadimplência superior à média de todo o crédito livre destinado às pessoas físicas, que chegou a 7,8% em julho. E se aproxima do crédito pessoal não consignado, cuja inadimplência está em 10,7%.

A comparação é relevante porque o desconto das parcelas diretamente na folha de pagamento deveria, em princípio, reduzir o risco de inadimplência. A diferença entre as duas modalidades, porém, caiu para apenas 0,7 ponto percentual.

Os dados de junho e julho são preliminares e podem ser revisados pelo BC.

Parte da deterioração vinha sendo atribuída pelo governo a uma falha operacional: quando o trabalhador troca de emprego, o desconto da parcela não migra automaticamente para o novo vínculo, e o contrato acumula atraso mesmo com o trabalhador empregado.

A correção, a cargo da Dataprev, só estava prevista para agosto — os dados de julho, portanto, ainda carregam o problema por inteiro e não permitem avaliar seu efeito.

Carteira mais que dobrou em um ano

A piora ocorre depois de uma expansão acelerada do consignado privado. O saldo da modalidade chegou a R$ 117,7 bilhões em julho, alta de 3,8% em relação a junho. Em julho de 2025, eram R$ 49,9 bilhões.

Em apenas 12 meses, portanto, a carteira ficou 2,4 vezes maior.

Ao mesmo tempo, os bancos continuam ampliando a oferta. As concessões somaram R$ 8,8 bilhões em julho, acima dos R$ 7,7 bilhões registrados em junho.

Ou seja, a originação voltou a acelerar justamente no mês em que a inadimplência alcançou seu maior nível histórico.

A taxa média de juros ficou praticamente estável, em 53,9% ao ano.

Os números indicam que o crescimento acelerado da carteira, que inicialmente ajudava a diluir a inadimplência, já não é suficiente para conter a alta do indicador.

À medida que os empréstimos concedidos ao longo de 2025 amadurecem, uma parcela maior começa a aparecer entre os atrasos superiores a 90 dias.

Problema operacional não explica sozinho a alta

Parte da deterioração vinha sendo atribuída pelo governo a problemas operacionais relacionados à troca de emprego dos trabalhadores.

Quando um empregado mudava de empresa, o desconto da parcela não migrava automaticamente para o novo vínculo empregatício, o que podia provocar atrasos mesmo quando o trabalhador continuava empregado.

A expectativa era de que uma correção operacional reduzisse esse problema.

O dado de julho, porém, reforça a necessidade de acompanhar também a qualidade das novas safras de crédito. A inadimplência avançou 1,3 ponto percentual em apenas um mês e acumula alta de 3,8 pontos em um ano.

A combinação de carteira em forte expansão, concessões ainda elevadas e inadimplência crescente acende um sinal de atenção sobre o consignado privado.

A modalidade ganhou escala rapidamente, mas os atrasos estão avançando ainda mais depressa.

O resultado é uma situação incomum para uma linha de crédito com desconto em folha: sua inadimplência já está praticamente no mesmo patamar do crédito pessoal sem essa garantia

Acompanhe Economia nas Redes Sociais