Setor privado aposta em audiência nos EUA para barrar tarifaço

Consequências da investigação comercial norte-americana ainda estão em aberto, de modo que futuro dependerá de como discussões vão acontecer

João Nakamura, da CNN Brasil, em São Paulo
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O cronômetro está rodando e o prazo para conter o novo tarifaço dos Estados Unidos com o Brasil está bem definido.

Após investigar o que aponta como "práticas desleais" de comércio brasileiras e sugerir a aplicação de uma nova tarifa de 25% contra importados brasileiros, o USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) irá anunciar no dia 15 de julho sua decisão final para lidar com o país.

Até lá, empresários ouvidos pela reportagem indicam que a aposta do setor privado é agir em cima do cronograma estabelecido para o processo:

  • 22 de junho: data-limite para pedidos de participação em audiência do USTR sobre a investigação;
  • 1º de julho: prazo para envio de comentários por escrito;
  • 6 de julho: data da audiência pública.

"Na decisão, o USTR informou sobre uma nova audiência e a apresentação de comentários sobre a decisão. A posição é participar da consulta e audiência públicas. Não sabemos ainda se haverá uma comitiva empresarial, mas entendemos que possivelmente sim por causa da audiência, onde os setores deverão defender seus interesses", escreve Patricia Gomes, diretora de Comércio Exterior da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos), ao CNN Money.

Em entrevista à CNN Brasil, Abrão Neto, CEO da Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio para o Brasil) destacou o fato de que "essa não é uma decisão final".

"É um relatório preliminar que traz uma proposta de medidas em relação ao Brasil e que destaca de maneira muito clara que existe uma via de negociações ainda em aberto", reforçou.

Assim, representante de um dos setores mais afetados pela medida, a Abimóvel (Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário) aponta em nota que acompanha os prazos oficiais e trabalha para apresentar manifestação técnica e institucional.

"A Abimóvel avalia que a resposta setorial deve combinar diplomacia comercial, documentação técnica e inteligência de mercado. A entidade seguirá atuando em articulação com parceiros públicos e privados, incluindo órgãos de governo, consultorias especializadas e empresas exportadoras, para subsidiar manifestações, acompanhar a evolução da lista de exceções e dos enquadramentos tarifários aplicáveis", pontua.

O presidente da Abipesca (Associação Brasileira das Indústrias de Pescados), Eduardo Lobo, afirmou ao CNN Money que a entidade também pretende atuar diretamente junto às autoridades norte-americanas, participando da consulta e da audiência pública previstas no processo.

Portanto, a conclusão de fato ainda está em aberto, de modo que tudo dependerá de como as discussões vão acontecer nos próximos dias. Os empresários ressaltam que os EUA deixam claros seus pontos e reforçam que as negociações estão abertas, aplicando certo nível de pressão.

O Brasil tem cartas a oferecer - como ações conjuntas para barrar o contrabando, abertura do mercado de etanol e minerais críticos -, mas também pontos que não deve se flexibilizar - como o Pix.

Um empresário ouvido pela reportagem questiona qual a vitória que será necessária para os EUA baixarem a tensão. Ele destaca que, na negociação, o Brasil terá de fazer alguma concessão, de modo que reforça a necessidade de diálogo entre os governos.

Diálogo Brasil-EUA

Gomes relata ainda que a entidade tem mantido "diálogo constante" com o governo federal sobre a situação do tarifaço. Com a gestão de Donald Trump, porém, a interlocução tem sido realizada mais fortemente entre os governos.

Durante o Fórum de Lisboa, o presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria), Ricardo Alban, também destacou à CNN Brasil os canais de negociação abertos tanto com governo federal como com os Estados Unidos e sua expectativa de que as conversas se intensifiquem.

Nesse sentido, o empresariado defende a necessidade de reforço nas negociações entre Brasília e Washington.

"O que a gente observa é que precisa haver uma negociação, [...] muito vai ser em função de uma tratativa com o próprio governo brasileiro de um acordo comercial mais intenso e robusto", relata Aguinaldo Lima, diretor-executivo da Abics (Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel).

O executivo ressalta que o setor cafeeiro esteve reunido na terça-feira (2) e volta a se encontrar na quarta-feira (3) para alinhar os entendimentos sobre o impacto do novo tarifaço e que possa ser articulada uma nova comitiva para ir aos Estados Unidos ao lado da NCA (National Coffee Association), entidade que representa os interesses dos empresários norte-americanos do café nos Estados Unidos, e com isso programar possibilidades de articulações e contestações.

O governo ainda sinalizou que vai trabalhar junto da iniciativa privada para evitar o novo tarifaço, segundo o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB).

Haroldo Ferreira, presidente-executivo da Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados), apontou que o setor segue em articulações junto do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (pasta liderada por Alckmin durante o tarifaço de 2025), para tratar do assunto e avaliar alternativas que possam mitigar os impactos.

Além disso, relata que a ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) disponibilizou, para os setores mais afetados, uma consultoria norte-americana especializada em comércio internacional e relações governamentais, com vistas a apoiar as manifestações e defesa in loco.

Ferreira pontua que a entidade participa, na próxima semana, de agenda estratégica em Washington organizada pela consultoria para interlocução com autoridades e stakeholders norte-americanos em temas relacionados ao comércio de calçados.

Novo tarifaço

Na noite de segunda-feira (1º), o USTR propôs a imposição de tarifas de 25% sobre todas as importações do Brasil, exceto para mercadorias que se enquadram como "sujeitas às tarifas de segurança nacional" - de modo que itens como carne bovina, café e petróleo estariam isentos da alíquota.

O órgão afirmou que políticas do governo brasileiro sobre comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, processamento de patentes e pirataria, etanol e desmatamento ilegal geram insegurança jurídica e competição desleal aos players dos EUA.

A ação judicial proposta vem nos termos da Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana - ferramenta de política comercial que permite aos EUA investigarem e retaliarem outras nações contra práticas comerciais consideradas injustas.

Entre seus achados, o USTR aponta que a regulação do BC (Banco Central) sobre o uso do Pix como meio de pagamento eletrônico é "injusta e discriminatória" contra empresas norte-americanas.

A Febraban (Federação Brasileira de Bancos) também reforçou o coro do setor privado, saindo em defesa do Pix após as conclusões da investigação comercial dos EUA e dizendo ter "boa expectativa" sobre a audiência pública.

"No âmbito do sistema de audiência pública, que continua aberto pelo USTR, as contribuições do Banco Central do Brasil e dos integrantes do sistema bancário brasileiro, incluindo os bancos americanos, vão ajudar no esclarecimento das conclusões do órgão americano de comércio", pontua a entidade.

"O Pix foi desenvolvido com ampla cooperação dos bancos e demais instituições que integram o Sistema Financeiro do Brasil. É um meio de pagamento que funciona como plataforma que está aberta e disponível para todos os residentes no país, brasileiros e estrangeiros, pessoas físicas e empresas, tendo como único requisito manter conta num banco, numa fintech ou numa instituição de pagamento", conclui.

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