Superdotação: mitos e falhas dificultam identificação e prejudicam alunos

Estudantes superdotados podem apresentar baixo rendimento escolar por diferentes fatores; mulheres tendem a mascarar desempenho por adequação

Maria Paula Giacomelli, colaboração para a CNN Brasil
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A superdotação segue sendo um terreno amplo para estigmas que associam o indivíduo a um desempenho acadêmico de excelência. No entanto, a dificuldade na identificação pode inclusive prejudicar o contexto pedagógico do aluno superdotado.

Nesta segunda-feira (10), é comemorado o Dia Internacional da Superdotação, data que busca conscientizar sobre o tema, que ainda está envolto em um cenário de indefinição que dificulta a identificação de jovens superdotados na prática.

No contexto escolar, quem mais pode ficar atento é o professor, conforme explica Francisca Chagas, especialista em alunos com altas habilidades/superdotação, à CNN Brasil: "Geralmente, é a primeira pessoa que convive diariamente com a criança em situações de aprendizagem. É no ambiente escolar que muitos sinais da superdotação podem ser percebidos pela primeira vez."

As altas habilidades ou superdotação constituem uma condição do neurodesenvolvimento que pode se manifestar por meio de elevado potencial em uma ou mais áreas. Entre as características podem estar aprendizagem acelerada, curiosidade intensa, criatividade, pensamento crítico, sensibilidade emocional, perfeccionismo e necessidade constante de desafios.

O Censo Escolar 2025, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, contabilizou cerca de 56 mil crianças e adolescentes com altas habilidades ou superdotação matriculados na educação básica. Em 2024, eram pouco mais de 44 mil.

De acordo com ela, é um mito associar a superdotação a uma inteligência acima da média. Estudantes superdotados podem, inclusive, apresentar baixo rendimento escolar devido a diferentes fatores, como projeto pedagógico inadequado, dificuldades emocionais ou outros transtornos.

Ao receber um aluno superdotado, a escola deve reunir a equipe e implementar ações voltadas ao perfil dele após uma Avaliação Pedagógica Diagnóstica, que observa o aluno em diferentes dimensões.

"É um processo sistemático de levantamento e análise de dados, com o objetivo de compreender quais habilidades estão consolidadas ou em desenvolvimento e também entender as barreiras que interferem na aprendizagem", explica.

Essa avaliação investiga evidências pedagógicas nos aspectos cognitivos, social, motor e afetivo e identifica lacunas, estilos de aprendizagem e ritmo.

"Com essa avaliação, a escola consegue elaborar um Plano Educacional Individualizado com estratégias, metodologias, adaptações, com um currículo escolar mais profundo e flexível", avalia ela. No entanto, a especialista ressalta que o professor precisa de ajuda da equipe pedagógica no planejamento.

"O professor não precisa e não deve caminhar sozinho. Uma escola inclusiva precisa incluir propostas em seu projeto pedagógico, investir em formação docente e discutir planejamentos coletivos."

Sistema educacional brasileiro e desafios do gênero feminino

No Brasil, a identificação de alunos com altas habilidades e superdotação esbarra em um sistema educacional despreparado, na escassez de dados oficiais e na falta de consenso conceitual. Como resultado, indicadores de superdotação podem ser camuflados por fatores individuais como timidez, perfeccionismo excessivo e baixa autoestima.

"No contexto do país, soma-se o fato de que a maioria das crianças e adolescentes está inserida em escolas com pouco estímulo e sistemas de aprovação automática. Por isso, muitas vezes os superdotados não têm a oportunidade de demonstrar os talentos ou a superdotação. Dessa forma, não são nem identificados", destaca psiquiatra especialista em TEA (Transtorno do Espectro Autista), TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) e Altas Habilidades, Fabrícia Signorelli, parceira do Supera Estimulação Cognitiva.

Sem reconhecimento e estímulos adequados, a formação escolar tradicional pode mascarar o desempenho intelectual do superdotado, especialmente em se tratando de mulheres.

A psiquiatra explica que a expectativa social em torno do comportamento de meninas e jovens pode dificultar a identificação de uma possível alta habilidade nos anos de vida escolar. Fatores culturais e expectativas de gênero podem favorecer comportamentos de adaptação, autocontrole e mascaramento das próprias capacidades.

"Parte do atraso não vem da menina se achar menos capaz, mas do fato de que o adulto ao redor simplesmente espera e observa menos esse perfil nelas, fazendo com que passem despercebidas. A expectativa de um comportamento mais quieto, obediente, organizado e menos 'desafiador' em sala de aula faz com que sinais que costumam chamar atenção nos meninos apareçam de forma mais discreta ou socialmente aceitável, tornando a identificação menos óbvia para o professor", avalia Fabrícia.

A especialista alerta que mulheres superdotadas podem ser mais vulneráveis a transtornos mentais, justamente por causa do atraso na identificação e da pressão para camuflar a alta habilidade.

"Mulheres e meninas apresentam maior prevalência de depressão e transtornos de ansiedade, atribuída a mecanismos psicológicos, sociais e biológicos interativos, incluindo discriminação de gênero e sobrecarga de papéis", explica.

A avaliação também é destacada por Damião Silva, psicólogo e pedagogo especialista em educação inclusiva e em atendimento educacional especializado para altas habilidades.

Ele complementa que características da superdotação podem ser interpretadas como perfeccionismo, ansiedade, timidez ou simplesmente alto desempenho.

"Anos de não identificação, mascaramento, pressão por adaptação e incompreensão do próprio funcionamento podem representar fatores importantes de sofrimento psicológico. Em alguns casos, a mulher chega à vida adulta tratando manifestações emocionais sem que sua superdotação tenha sequer sido considerada", acrescenta Silva.