Autores LGBT+ se demitem de agência literária de J. K. Rowling


Rachel Savage, da Reuters
23 de junho de 2020 às 17:54
Autora J.K. Rowling em Londres

Autora J.K. Rowling em Londres

Foto: Neil Hall/Reuters

Três autores que deixaram a agência literária de J.K. Rowling devido a opiniões da escritora britânica sobre pessoas transgênero disseram, nesta terça-feira (23), que ficaram desapontados pelo fato de a empresa não aceitar uma oferta para debater direitos trans ou sequer fazer uma declaração em apoio à comunidade.

O escritor trans Fox Fisher, a autora Ugla Stefania Kristjonudottir Jonsdottir, conhecida como Owl, o romancista Drew Davies e um quarto autor anônimo afirmaram estar "tristes" em deixar a The Blair Partnership, após a agência se recusar a defender direitos trans.

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J. K. Rowling, autora da saga "Harry Potter", provocou controvérsia com um artigo neste mês que vincula sua experiência de agressão sexual à sua preocupação com o acesso de mulheres trans a espaços exclusivos para mulheres cis, o que a escritora disse oferecer acobertamento a "predadores".

"Nunca se tratou de mudar a opinião de alguém ou censurar", afirmou Jonsdottir à Reuters em um telefonema conjunto com o parceiro Fisher.

"Mas, para nós, tratava-se de ter uma conversa aberta e honesta dentro da agência sobre direitos trans e sermos pessoas trans dentro da editora – para nós como clientes, mas também para outros clientes em potencial ou até funcionários".

Uma porta-voz da The Blair Partnership, que também representa o boxeador Tyson Fury e o ciclista olímpico aposentado Chris Hoy, disse em comunicado enviado por e-mail que a agência estava "desapontada" com os quatro autores.

"Acreditamos na liberdade de expressão para todos; esses clientes decidiram sair porque não atendemos às demandas de sermos reeducados conforme o ponto de vista deles", afirmou.

"Valorizamos todas as vozes de nossos autores e, como agência, defendemos a igualdade e a inclusão".

J. K. Rowling se recusou a comentar.

No Reino Unido e nos Estados Unidos, há um debate acalorado sobre o que significa ser mulher, colocando ativistas trans contra algumas feministas que acreditam que os direitos conquistados com muito esforço para as mulheres devem permanecer restritos a pessoas nascidas com o sexo feminino.

O acesso a espaços exclusivos para um sexo, como refúgios de violência doméstica e banheiros, é um ponto de tensão, com opositores aos direitos trans alegando que homens predadores poderiam se passar por mulheres trans para obter acesso a esses lugares.

Grupos de direitos das mulheres dos EUA afirmaram em 2016 que 200 municípios que permitem que pessoas trans usem seus abrigos e serviços não viram aumento da violência sexual ou problemas de segurança pública como resultado.

"Agências trazem autores como eu para fazer parte dessa voz diversa", disse Davies. "Mas, quando se trata de ter conversas significativas em termos de diversidade, isso se torna muito mais desafiador".

A agência The Blair Partnership se recusou a comentar mais sobre o assunto.