Ação quer acabar com confusões como chamar K-drama de "dorama"; conheça
Centro Cultural Coreano no Brasil lança campanha de conscientização em celebração ao Dia do Hangul, a escrita coreana

Nesta segunda-feira (6), o Centro Cultural Coreano no Brasil (CCCB) lançou a campanha “Nomear é respeitar”. A iniciativa visa combater o uso de termos imprecisos, muitas vezes de origem japonesa, para descrever elementos da cultura coreana. Como parte da campanha, um guia com os termos mais comumente confundidos ficará disponível ao público no site da instituição.
"Esta campanha traz a mensagem de que nomear corretamente é o primeiro passo do respeito", explica Cheul Hong Kim, diretor do CCCB. "Chamar o gimbap de sushi ou confundir o hanbok com quimono pode parecer um detalhe, mas acaba dificultando que se perceba a beleza e o significado próprios da nossa cultura".
A campanha coincide com a celebração do Dia do Hangul, a escrita coreana, em 9 de outubro. Este ano, a data foi incluída no calendário oficial do estado de São Paulo por meio de uma cooperação entre o Consulado-Geral da Coreia do Sul e o governo paulista.
"O Hangul vai além de um simples sistema de escrita: é um patrimônio que carrega a história, a sabedoria e a identidade do povo coreano. Para o Centro Cultural Coreano, esta data é uma oportunidade carinhosa de apresentar mais da nossa cultura e de estreitar os laços com a sociedade brasileira", afirma o diretor. Para ele, celebrar essa data é dar um passo a mais na amizade e na compreensão entre Brasil e Coreia.
K-drama, não Dorama: O desafio de popularizar os termos corretos
Impulsionada pela Hallyu (onda coreana), a cultura sul-coreana se tornou um fenômeno global. Suas manifestações vão muito além de um único setor: na música, grupos como BTS e BLACKPINK impactaram o pop mundial; no cinema, "Parasita" fez história ao vencer o Oscar de Melhor Filme em 2020; no streaming, K-dramas como "Round 6" e "Pousando no Amor" cativaram milhões de pessoas. Em 2024, a coreana Han Kang conquistou o Prêmio Nobel de Literatura.
"Ainda bem que isso aconteceu durante a minha vida", comemora Yun Jung Im, tradutora de literatura coreana desde os anos 1990 e professora doutora na USP, sobre a onda coreana.
"Na minha geração, a gente cresceu acreditando que tudo do bom e do melhor vinha dos Estados Unidos, da Inglaterra ou da Europa, principalmente em termos de música, cinema. A gente estudava inglês porque queríamos falar a 'língua dos fortes'. Agora eu vejo o mundo inteiro querendo estudar coreano porque gostam das produções audiovisuais coreanas", observa.
Apesar dessa popularidade, no Brasil ainda é comum o uso de termos em japonês para descrever itens da cultura sul-coreana. A professora Yun Jung Im explica que essa confusão tem raízes na forte onda japonesa que o país experimentou na década de 80, quando muitas gerações cresceram assistindo animes como "Pokémon" e "Dragon Ball", além de abraçar a culinária japonesa.
Essa influência, no entanto, leva a equívocos. Um deles é chamar o jeotgarak (os talheres coreanos) de hashi.
"O pessoal fala hashi porque é fácil e referenciável, né? Mas hashi e jeotgarak são coisas diferentes, porque têm comprimentos diferentes, o material é diferente, a espessura é diferente", informa.
Outros exemplos comuns são chamar o hanbok, vestimenta tradicional coreana, de quimono, e se referir aos K-dramas (as novelas coreanas) pelo termo dorama, que está ligado a produções japonesas.
"Eu costumo perguntar: vem cá, pizza e esfirra são a mesma coisa? E se você tiver uma pizza pequenininha, menor que uma broto, e uma esfirra grande, eles não são a mesma coisa? Porque o conceito é o mesmo, é um disco redondo de massa feita de farinha, com uns toppings por cima. Mas a gente não pode dizer que pizza é esfirra, certo? Você não pode dizer que pizza é uma esfirra italiana", reflete.
Mas a professora não sente tristeza nem revolta em relação ao uso incorreto dos termos. Para ela, é um processo longo e natural, e acha importante o Centro Cultural começar essa campanha.
No entanto, acredita que as primeiras pessoas a terem contato com esse material serão as que já são familiarizadas com os termos corretos.
"Mas, aos poucos, essas pessoas vão espalhando esse movimento. O impacto não vai ser imediato, mas é um começo".
Confira os termos mais confundidos:
- Hanbok (NÃO Quimono): é a vestimenta tradicional da Coreia. O traje é composto por partes separadas – a parte superior, chamada jeogori, e a inferior, que pode ser uma saia (chima) ou uma calça (baji) –, caracterizando-se por suas linhas suaves e curvas. Com frequência, o hanbok é confundido com o quimono, mas são vestimentas distintas. O quimono japonês é composto por uma única peça e é amarrado firmemente na cintura.
- K-drama (NÃO Dorama): K-Drama é o termo utilizado para se referir às produções audiovisuais da Coreia (séries e novelas). No Brasil, popularizou-se o uso do termo dorama, cuja origem está ligada às produções japonesas, para se referir às produções coreanas. Porém, a denominação reconhecida mundialmente é K-Drama, também usada na Coreia, pois reflete a identidade cultural do país.
- Webtoon (NÃO Mangá ou Anime): Webtoon é a junção das palavras Web (internet) e Cartoon (quadrinho). É um tipo de quadrinho digital desenvolvido na Coreia, publicado em plataformas digitais, geralmente em cores e no formato vertical de leitura. Diferem dos mangás (impressos e em preto e branco) e animes (animações japonesas).
- Jeotgarak (NÃO Hashi): Os talheres coreanos são chamados de jeotgarak. Diferem dos hashi japoneses por serem geralmente de metal, mais longos e achatados.
- Gimbap (NÃO Sushi): É um prato preparado em formato de rolo, envolvido por alga gim, no qual o arroz é temperado com óleo de gergelim. A versão básica leva espinafre, cenoura, ovo, rabanete em conserva e outros vegetais, sendo possível adaptar a receita conforme o gosto pessoal. Frequentemente, o gimbap é confundido com o sushi japonês. No entanto, diferenciam-se principalmente pelo tempero do arroz: o sushi utiliza vinagre, enquanto o do gimbap é feito com óleo de gergelim.
- Ganjang (NÃO Shoyu): É o molho de soja coreano. Tem um processo de fermentação mais longo e é predominantemente à base de soja, ao contrário do shoyu japonês, que leva trigo.
- Doenjang (NÃO Missô): É uma pasta espessa de soja fermentada, produzida a partir do meju (blocos de soja fermentada) que permanece após a preparação do ganjang. É frequentemente confundida com o missô japonês. No entanto, diferem-se pelo tempo de fermentação e pelo sabor: o doenjang passar por um processo mais prolongado, resultando em um sabor mais intenso e salgado, enquanto o missô costuma ter fermentação mais curta e o gosto é mais suave e adocicado.
- Ramyeon (NÃO Ramen/Lámen): Ramyeon é o macarrão instantâneo, com ampla diversidade de tipos e sabores. Com frequência, é confundido com o ramen ou lámen japonês. No entanto, enquanto no Brasil esta denominação é atribuída ao prato típico da culinária japonesa, geralmente feito artesanalmente, o nome ramyeon se refere a um alimento instantâneo.
- Mandu (NÃO Guioza): é um prato coreano de massa fina recheada com variados ingredientes, podendo ser cozido no vapor, frito ou servido em sopas. No Brasil, é frequentemente confundido com o guioza japonês. Contudo, o mandu se distingue por ter recheios geralmente mais variados, incluindo versões com kimchi, conter maior proporção de vegetais e variados modos de preparo em relação ao guioza japonês.
- Soju (NÃO Saquê): A famosa bebida destilada e incolor da Coreia é o soju. Diferente do saquê japonês, que é fermentado, o soju passa por um processo de destilação.


