Prime Time

seg - sex

Apresentação

Ao vivo

A seguir

    Arnaldo Jabor e sua contribuição para o Cinema Novo e o pensamento crítico

    Personalidades relembram os filmes que marcaram o cinema e falam sobre a habilidade do cineasta e escritor em manifestar suas ideias de forma crítica aos problemas da sociedade brasileira

    O cineasta, escritor, crítico e colunista, Arnaldo Jabor, posa para foto durante entrevista concedida em São Paulo, em março de 1995
    O cineasta, escritor, crítico e colunista, Arnaldo Jabor, posa para foto durante entrevista concedida em São Paulo, em março de 1995 MILTON MICHIDA

    Debora Sandercolaboração para a CNN

    Ouvir notícia

    O falecimento de Arnaldo Jabor na manhã desta terça-feira (15) espalhou comoção entre o público de admiradores, artistas e jornalistas de todo o Brasil. Após a confirmação da morte do cineasta aos 81 anos por complicações de um AVC, atores e colegas que trabalharam com Jabor em filmes dos anos 1960, 70 e 80 relembraram momentos marcantes da carreira do diretor.

    Embora o jornalismo atravesse toda a trajetória de Arnaldo Jabor e o tenha tornado uma figura conhecida do grande público, sua contribuição com o cinema deixou marcas memoráveis na história do audiovisual brasileiro.

    Seu envolvimento aconteceu por estímulo do cineasta alagoano Cacá Diegues, um dos fundadores do Cinema Novo – movimento cultural que surgiu na década de 1960 e prezava por produções que retratassem a realidade social brasileira.

    Em entrevista à CNN, Cacá Diegues se manifestou sobre a morte do amigo. “Não era só um companheiro de trabalho mas também um amigo íntimo, um irmão, praticamente. Foi uma pessoa muito importante na minha vida e para a cultura brasileira também”, disse.

    “Jabor era uma alma permanentemente em ebulição, era um cara que estava sempre vendo o que estava acontecendo de errado no país. Ele era muito culto, muito instruído, e tinha uma capacidade muito grande de entender e formalizar a crítica dele a tudo isso”, elogiou, destacando sua importância para o cenário audiovisual do país.

    “Ele foi um grande cineasta. Ele traz uma novidade muito grande para nós, que é essa capacidade de se relacionar com o público, e isso foi muito importante e fazia parte da personalidade dele como escritor, como jornalista, como crítico”, completou.

    A atriz Fernanda Montenegro, que estrelou o filme “Tudo bem” (1978), dirigido por Jabor, divulgou um vídeo no Instagram falando em tom emocionado e saudoso sobre o amigo e companheiro de trabalho.

    “Eu me lembro que em ‘Tudo Bem’, o filme que eu fiz, nós não tínhamos dinheiro, mas havia uma devoção intensa naquele elenco. Paulo Gracindo, Regina Casé, [Paulo César] Peréio, Fernando Torres, Zezé Motta. Sonia Braga no ‘Eu te amo’. E a Fernanda Torres ganhou o prêmio em Cannes de atriz, muito jovem, o primeiro filme dela chegando assim além-fronteira”, relembrou a veterana.

    “Eu amo o filme que fizemos juntos. Amo. Louco, mas numa transcendência poética como toda sua obra cinematográfica. Um grande abraço, meu amigo querido, detonador de uma vida cinematográfica para a qual eu de repente me vi levada. Devo a você essa confirmação de que eu poderia fazer cinema”, continuou a atriz.

    Fernanda Torres, que foi premiada como Melhor Atriz no Festival de Cannes pela performance em “Eu sei que vou te amar” (1986), também lamentou a perda em post no seu Instagram. “Arnaldo Jabor era um provocador irônico, lúcido e apaixonado. Tenho e terei saudades da sua presença majestosa”, declarou.

    Jabor foi lembrado por muitos por uma habilidade excepcional de manifestar ideias e direcionar críticas complexas e contundentes ao seu tempo, através da expressão artística e argumentativa.

    Em conversa com a CNN, o político e jurista José Gregori, ex-Secretário Nacional de Direitos Humanos, definiu o jornalista e cineasta como uma figura básica para definir o Brasil que vale a pena. “Ele era um grande artista que, por meio da cinematografia, do poder redacional, da coragem de dizer as coisas que acreditava, soube colocar o dedo naquilo que precisava ser dito. Jabor tinha o ímpeto do pensamento igualitário”, destacou.

    O Cinema Novo e Arnaldo Jabor

    O Cinema Novo foi um movimento cultural e artístico de crítica às desigualdades sociais e instabilidades políticas da década de 1960 no Brasil, influenciado por correntes europeias notadamente subversivas, como o neorrealismo italiano e a Nouvelle Vague francesa.

    Iniciado por um grupo de jovens cineastas composto por nomes como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Cacá Diegues e Luiz Carlos Barreto, o movimento buscava contrapor o tipo de cinema produzido no Brasil até então, muito pautado pelo modelo de Hollywood e frequentemente financiados por produtoras e distribuidoras do exterior.

    O Cinema Novo é comumente dividido em três fases distintas: a primeira precedeu a instauração da ditadura militar no Brasil e buscava expor a realidade de pobreza no país. Um dos marcos inaugurais do movimento foi o filme “Cinco Vezes Favela” (1961), dirigido por Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman, Miguel Borges e Marcos Farias. “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), de Glauber Rocha, também integra o primeiro período do Cinema Novo.

    Na segunda fase do movimento, já sob vigência do regime militar, as produções mergulharam em narrativas sobre os problemas comuns da classe média brasileira. A terceira fase, após o decreto do AI-5, ficou caracterizada pelo entrelaçamento com o Tropicalismo, trazendo uma estética mais chamativa.

    Em diálogo com a segunda fase do cinema novo, Arnaldo Jabor dirigiu produções que registraram em documentário e ficção a mentalidade e os dilemas do brasileiro médio das grandes capitais brasileiras. Entre as produções mais marcantes da carreira de Arnaldo Jabor estão os longas “Tudo bem” (1978), “Eu te amo” (1981) e “Eu sei que vou te amar” (1986), que integram a chamada Trilogia do Apartamento. Confira abaixo a galeria com os principais filmes do cineasta.

     

    Mais Recentes da CNN