Batuques e ancestralidade: os bastidores de "EQUILIBRIVM", álbum de Anitta

À CNN Brasil, o produtor Felipe Britto detalha o processo de tradução do conceito abstrato de equilíbrio de forças em imagens potentes

Caroline Ferreira, da CNN Brasil
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A cantora Anitta, 33, lançou o oitavo álbum de estúdio, batizado de "Equilibrium", e com título grafado estilisticamente como EQUILIBRIVM. No disco, a cantora passeia por gêneros musicais como axé, funk, samba e reggae.

Ao longo das 15 faixas, a carioca explora elementos das religiões afro-brasileiras, como candomblé - a qual frequenta - evocando letras em que fala abertamente sobre a conexão com os orixás.

Indo além da sonoridade que amarra os batuques do terreiro às batidas do pop internacional, a nova fase se destaca como um dos projetos visuais mais ambiciosos de sua carreira. A engenharia por trás da estética imersiva e ritualística ficou a cargo da Ginga Pictures, produtora parceria de longa data da artista.

À CNN Brasil, Felipe Britto, produtor executivo e sócio-fundador da Ginga, detalha o processo de tradução do conceito abstrato de equilíbrio de forças em imagens potentes, revelando as exigências inegociáveis de Anitta e os desafios de uma logística monumental.

"Nós temos um longo histórico com a Anitta, já são mais de 100 projetos juntos, então, quando ela começou a desenhar essa nova era, o contato veio naturalmente, antes mesmo do conceito ter um nome", relembra. E o pontapé inicial seguiu o método dinâmico e íntimo da artista.

"Foram mais de 100 áudios dela, durante semanas, descrevendo o que estava sentindo, o que queria evocar, referências espirituais, lugares afetivos, memórias. Era menos um pitch de álbum e mais uma conversa íntima sobre onde ela estava na vida", conta.

O projeto ganhou corpo definitivo com a chegada da diretora criativa Nídia Aranha e a divisão do disco em duas frentes, uma mais brasileira e outra internacional.

"Aí o trabalho passou a ser viabilizar essa visão em escala, pensar como cada clipe se conecta conossm o próximo, como a narrativa em quatro atos do primeiro bloco audiovisual ('Despacho', 'Fé e Festa', 'Deus Mãe' e 'Renascimento') se sustenta como um filme só, e garantir que cada decisão de produção fosse coerente com o que o disco propõe".

O respeito à ancestralidade

Um dos pilares mais evidentes de EQUILIBRIVM é a união da estética pop com manifestações religiosas e culturais brasileiras. Para a equipe técnica — que contou com a direção de Manuel Nogueira, styling de André Philipe e Daniel Ueda, beleza de João Miranda e coreografia de Cassi Abranches —, a regra de ouro foi o respeito absoluto.

"A premissa que a gente perseguiu foi nunca tratar os elementos ancestrais como cenário ou fantasia. Eles entram como referência legítima, e isso muda completamente as escolhas técnicas. Valorizamos o Brasil profundo, interior, afro, popular, que normalmente fica de fora dos grandes projetos pop", pontua Felipe.

Essa diretriz norteou desde a escolha das cores até o ritmo dos cortes na edição. "Na paleta, por exemplo, as cores carregam significado direto: o branco da iniciação no candomblé, o vermelho da Pombagira, o dourado, o preto, o prata… Não são escolhas decorativas", explica.

"Em 'Desgraça', começamos o clipe numa cidade pequena, com uma atmosfera quase de realismo fantástico, com referências de Cinema Novo, e essa luz vai se transformando à medida que a Pombagira incorpora. A textura também segue essa lógica: barro, fogo e terracota aparecem porque a artista plástica Rafa Chaves entrou no universo do projeto, e o trabalho dela com totens em terracota dialoga diretamente com a ideia de ancestralidade material, palpável", acrescenta.

"As máscaras do Mestre Zimar, os cazumbás, vêm da mesma decisão: trazer o Brasil profundo. Em termos de enquadramento, a gente persegue uma certa contemplação. O disco fala em desacelerar, e isso se reflete em planos que respiram, que dão tempo do espectador entrar no ritual em vez de ser empurrado por corte. É um vocabulário diferente do que se espera de um clipe pop, e essa diferença é proposital", adiciona.

As linhas inegociáveis de Anitta

Durante a pré-produção, a voz de "Envolver" estabeleceu limites claros sobre como sua fé e o país seriam retratados. "O inegociável, desde a primeira conversa, foi o respeito com a espiritualidade. A Anitta é praticante de candomblé e foi muito firme em dizer que o projeto não poderia tratar nenhum elemento religioso como exotismo, como pano de fundo bonito. Tudo que aparece em tela tinha que ter base, consulta, propósito", revela o produtor.

A escolha do time de participações do álbum também refletiu esse desejo de autenticidade descentralizada. "Não a de cartão-postal, mas a do Brasil interior, afro e popular. Ela decidiu as colaborações com artistas como Shakira, Liniker, Luedji Luna, Marina Sena, Melly, Os Garotin, Rincon Sapiência, Ponto de Equilíbrio – gente que constrói e dialoga com esse Brasil. Tudo isso veio dela como linha intransponível", diz.

Para estampar essa atmosfera mística na tela, a produção abriu mão do conforto dos estúdios e viajou para uma locação isolada e monumental: o Projeto Ibiti, em Minas Gerais.

"Desde cedo, ficou muito claro que o Ibiti traduzia exatamente o que a gente queria transmitir visual e emocionalmente. A locação tinha a atmosfera, a escala e a verdade que o projeto precisava, não dava pra recriar aquilo em estúdio nem em outro lugar mais conveniente", conta Britto.

Tirar a visão do papel exigiu uma logística comparável à de um festival de grande porte. "Tivemos equipes vindo de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e de outras partes do Brasil para dar conta da operação do jeito que tínhamos imaginado".

"Pra tornar tudo isso possível, foram 220 pessoas mobilizadas durante seis dias intensos de gravação. Quando falamos em logística, se trata de uma estrutura realmente complexa: elétrica, maquinária, caminhões, transporte de cenografia, equipamentos, alojamento, alimentação, uma operação técnica acontecendo em um lugar remoto, em que cada item precisa ser pensado com antecedência porque não tem como improvisar no dia", entrega.

Nos bastidores, o roteiro não engessou a criatividade de Anitta, que usou a atmosfera do set para enriquecer a obra em tempo real.

"A grande particularidade em relação a outros projetos que já fizemos, é que ela foi adicionando camadas e sensações novas a cada dia de gravação. Ela chegava ao set com ideias que tinham surgido na véspera, com intuições que pediam um ajuste de plano, com vontades que vinham do momento. O plano de filmagem aqui precisou ser orgânico, sendo adaptado às condições do dia, ao tempo, à locação, mas, principalmente, à intuição dela", revela o executivo.

Por fim, Felipe Britto entrega o "segredo" que transforma os clipes de EQUILIBRIVM em uma experiência artística diferenciada: ali, a cenografia dá lugar à verdade viva.

"A curiosidade específica e talvez o que mais mude a percepção de quem assiste é que muito do que parece 'estética' no clipe é, na verdade, prática. Os movimentos da coreografia vêm de pesquisa real sobre gestos de incorporação".

"As máscaras são feitas à mão por um mestre que vive essa tradição. As obras de terracota foram queimadas em fogo, do jeito que a Rafa Chaves faz o trabalho dela há anos. As cores do figurino seguem códigos do candomblé, não vontade de paleta. Quando você descobre isso, deixa de ver o clipe como videoclipe e começa a ver como um documento sobre o Brasil que a Anitta quis fazer caber dentro de um disco pop", conclui.

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