Babu Santana diz esperar que "nova geração" o conheça também no teatro

Antes do BBB 26, ator refletiu sobre trabalho no teatro em entrevista à CNN Brasil

Larissa Santos, colaboração para a CNN Brasil*
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O ator Babu Santana, 46, agora confinado no BBB 26, esteve nos palcos em 2025 com o espetáculo "Os Irmãos Karamazov", adaptação da obra de Fiódor Dostoiévski. Pelo papel de Fiódor, o ator carioca foi reconhecido no Prêmio Bibi Ferreira como Melhor Ator Coadjuvante do último ano.

Pouco antes de entrar no confinamento da casa, Babu conversou com a CNN Brasil sobre estar vivendo uma "virada na carreira" com o sucesso que a adaptação de Dostoiévski conquistou no palcos. Velho conhecido do tablado, o ator reviveu a discografia de Tim Maia no espetáculo "Gostava Tanto de Você", em 2016, antes de entrar pela primeira vez no reality show. "É muito engraçado, as pessoas mais jovens não lembram de mim no teatro. Eu estava há dez anos sem trabalhar com isso. É essa retomada, essa nova geração conhecer o Babu Santana no teatro é muito legal. É uma virada, um incentivo para eu continuar", refletiu em entrevista.

Sobre seus projetos futuros, Babu revelou que estava muito empolgado em voltar a trabalhar no teatro e planejava retomar "Os Irmãos Karamazov" neste ano, assim como se envolver em outros trabalhos. "Eu acredito que na nossa carreira a gente tem sempre que se renovar. E que esse reconhecimento pode ser uma virada, uma reviravolta."

"Os Irmãos Karamázov" se passa na Rússia antes da revolução e retratas as disputas entre os irmãos Karamázov, Aliocha (Nina Tomsic), Dmítri (Luisa Arraes) e Ivan (Caio Blat),e seu pai, Fiódor (Babu) pela herança familiar e o amor de uma mulher. Com uma sucessão de acontecimentos os filhos pensam no assassinato de seu pai.  "Eu faço essa pai que é um cara torno, um cara fora do tom desagradável, que se aproveitou das mulheres, se aproveitou do patriarcado... é uma figura asquerosa, né?", explica o ator. "A peça acaba sendo um autobiografia (do autor). Ele expões figuras do próprio entorno dele. E eu faço essa pai que os filhos desejam matar."

Na inédita versão brasileira, adaptada e dirigida por Caio Blat (ao lado de Manoel Candeias e Marina Vianna), a literatura russa se transformou em uma ópera rock, contada por meio de músicas e sem diálogos, assim como óperas tradicionais.  No momento, sem a presença de Babu, "Os Irmãos Karamázov" está em cartaz no Rio de Janeiro até o dia 18 de janeiro, no Teatro Carlos Gomes. Os ingressões estão a partir de R$ 80 e podem ser adquiridos aqui.

Como você se envolveu com "Os Irmãos Karamázov"?

Babu: Eu sou amigo do Caio Blat há mais de 20 anos. Nós nos conhecemos exatamente quando tínhamos 20, 21 anos e, desde aquela época, o Caio já manifestava, já fazia pesquisa sobre 'Os Irmãos Karamazov'. Desde 2000, 2001, que ele falava desse projeto. Com o passar das décadas, ele foi aprimorando o roteiro junto com o parceiro dele e sempre me chamando. A gente sempre estudou com Domingos de Oliveira, a gente fazia encontros, lia outros contos do Dostoiévski.

E essa parceria... a gente já fez outras peças juntos também, filmes, novelas... E quando ele viabilizou o projeto, ele me convidou e a gente deu esse 'match' maravilhoso que tá aí.

Como é transformar um texto do Dostoievski em uma ópera rock?

Babu: O Caio que fez essa adaptação que foi com movimento, muito estudo. Foi um dos projetos que eu mais fiquei na mesa estudando com o pessoal. Se você parar para ver, o livro tem mais de mil páginas, então foi um desafio resumir essa obra-prima de Dostoiévski. (...) Então, o Caio ficou mais de 20 anos mexendo nesse texto e aí a gente teve essa contribuição de nós artistas que entramos. Demos várias versões até chegar no texto final, mas o mérito é todo do Caio e do Manoel Candeias. 

Acho que foi a união de tanta gente talentosa e como é tem uma obra literária grande, queríamos passar a maior parte das informações e das ações presentes no livro. Então foi esse acúmulo de estudo e tempo de cura. Acho que no começo a gente não tinha a intenção de fazer uma ópera rock, mas a gente ganhou esse título aí com a frenética que a peça é, com a dinâmica que a peça tem. E com a música do Arthur (Braganti, diretor musical), com o movimento da Amália (Lima, direção de movimento), com a ajuda da Marina Vianna e do nosso figurino... tudo junto deu nessa ópera rock.

Quais os desafios de fazer um texto da literatura clássica no teatro?

Babu: Diferente de outros clássicos, "Os Irmãos Karamázov" não teve uma montagem aqui no Brasil, Então é inédito, mas é uma obra muito conhecida e cultuada. É um desafio, né? Mas um desafio gostoso porque, ao mesmo tempo, você consegue colocar em prática todo aquele aprendizado. Me vem tudo na cabeça, desde a primeira aula de teatro que eu pisei, desde o primeiro texto de Nelson Rodrigues, que é um grande admirador de Dostoiévski. Você consegue recrutar todo seu aprendizado.

Eu hoje, com 45 anos, esse clássico vem num conforto da experiência. É um deleite. Eu acho que todo ator gostaria de estar nesse lugar, de estar montando um clássico. Montar um clássico, ainda mais quando ele é bem-sucedido, quando ele está sempre de plateia cheia... é um ápice, é uma glória na carreira. Me sinto honrado de estar do lado desse meu grande amigo, dos grande colegas que fiz, executando um clássico pela primeira vez no país.

E a recepção tem sido maravilhosa. O público fica muito impactado, né, com a atualidade de 'Os Irmãos Karamazov'. É impressionante como um texto escrito no século XIX consegue dialogar tão profundamente com as nossas questões éticas, morais, religiosas e políticas de hoje em dia. As pessoas são muito mexidas. É muito legal ver como a arte consegue provocar essa reflexão, né? De tirar a pessoa do lugar comum e fazer ela pensar sobre a própria vida, sobre as próprias relações familiares.

Eu acho que a força desse espetáculo tá justamente aí, nesse diálogo com o agora, apesar de ser um clássico. E ver o teatro cheio, ver as pessoas voltando a frequentar as salas depois de tudo o que a gente passou, é emocionante demais. É a resistência da arte, né? É a gente ocupando os espaços e fazendo o que a gente ama fazer.

Eu acho que a gente tem uma função social, a arte tem essa função social de reflexão. E quando a gente toca em temas tão profundos, a gente está ajudando a sociedade a se olhar no espelho.

 

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