Cannes: sem concorrer à Palma de Ouro, Brasil marca presença em mostras paralelas

'Marché Du Film', 'Short Film Corner' e 'Cannes Classics' são esperança para setor audiovisual que ainda sofre as consequências da pandemia

Filme "Coração de Neon"
Filme "Coração de Neon" Divulgação

Isabella Fariada CNN

São Paulo

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Nesta terça-feira (17) começa o mais importante e mais glamuroso festival do mundo, e o Brasil estará por lá, mas sem concorrer ao prêmio principal: a Palma de Ouro.

A última vez que estivemos na lista dourada foi em 2019, com o filme “Bacurau“, dirigido por Kleber Mendonça Filho. Não levamos esse, mas levamos outro; o Prêmio do Júri. Na verdade, a única vez que o Brasil ganhou a Palma de Ouro foi no longíquo ano de 1968, com “O Pagador de Promessas”.

Desde então, o cinema brasileiro mudou, mas os trâmites em relação ao setor nem tanto. Para Lucia Monteiro, pesquisadora e professora de cinema, vontade e criatividade por parte de realizadores não faltam, mas o investimento ainda é escasso, ainda mais depois de uma pandemia.

“O audiovisual brasileiro movimenta muita gente, o que não há é uma política pública constante que repasse recursos ao nosso cinema”, diz ela. “A ‘via crucis’ principal é aquela do cineasta independente, que é justamente quem tem mais espaço em festivais como Cannes”.

Podemos não estar figurando na lista dourada do Festival este ano, mas alguns representantes brasileiros conseguiram passar por esse caminho turtuoso. Muitos estão por trás das câmeras de filmes estrangeiros e estão representando o país em outras mostras de Cannes.

O backstage da vez fica por conta de Rodrigo Teixeira. Produtor de filmes como “Frances Ha” (2012), “Tim Maia” (2014) e “Me Chame Pelo Seu Nome” (2017), Rodrigo traz até Cannes o filme “Armageddon Time”, dirigido por James Gray, com quem já trabalhou em “Ad Astra”(2019).

Para ele, o mercado está tão aquecido quanto antes da pandemia, mas a falta de repasse ao setor cultural faz com que o audiovisual brasileiro não acompanhe o internacional.

“Em 2019, nosso cinema viveu um dos anos de maior prestígio, porém houve uma quebra de investimento muito grande por parte do governo, seguida de uma pandemia”, diz. “Agora, com as plataformas de streaming, o mercado está se movimentando muito, até mais do que antes de 2020”.

Palma de Ouro do Festival de Cannes
Palma de Ouro do Festival de Cannes /

Para Rodrigo, o cineasta precisa se encontrar no meio que oferece, nesse momento, oportunidades tanto para produção de filmes como de séries. “Você vai ter o produto mais popular e o mais sofisticado. O que o cineasta precisa fazer é dialogar com os serviços, com as plataformas, e tentar vender o melhor produto possível”.

Mercado (inter)nacional

E as vendas já estão abertas. Em paralelo ao Festival de Cannes acontece, desde 1959, o Marché du Film, um evento dedicado totalmente à negociações do setor audiovisual. São produtoras conversando com distribuidoras, serviços de streaming e qualquer empresa que queira adquirir os filmes inscritos no Festival.

Um deles é “Coração de Neon”, dirigido por Lucas Estevan Soares, e previsto para chegar ao Brasil em 2023. Filmado no bairro do Boqueirão, em Curitiba, o longa é a primeira produção do cinema brasileiro a ser finalizada com a tecnologia de som imersivo Dolby Atmos 9.1., que chega de todos os lados da sala de cinema, colocando o espectador em uma espécie de “bolha”. Para Lucas, essa tecnologia, aliada a uma boa história, consegue elevar as expectativas de negociações do filme.

“Por mais que role a competição, por mais que a gente veja todo aquele glamour do Festival, as coisas acontecem no Marché”, diz. “Exibiremos nosso filme em uma sessão para compradores do mundo inteiro, assim, nós já conversaremos com todos que estão por lá e mostraremos nosso objetivo”.

A inscrição para Cannes aconteceu de forma natural; apenas uma equipe de cineastas querendo mostrar seu trabalho para o mundo, segundo Lucas. O convite veio por conta da possibilidade de ter o próprio estande da produtora no Marché.

“É muito gratificante ter esse projeto, iniciado lá em 2018, filmado de forma totalmente independente, sendo exibido para o mundo”, diz.

Do outro lado do Festival, há as negociações do “Short Film Corner”, o grande mercado dos curtas de Cannes. Por lá, estarão o bailarino Thiago Soares, a atriz Lana Rhodes e o cineasta Oskar Metsavaht com “Vermelho Quimera”, baseado no ballet “O Pássaro de Fogo”.

Curta “Vermelho Quimera” / Divulgação

Sem diálogos, a história é contada através de uma coreografia performada por dois amantes e é o primeiro filme de dança brasileiro a ser levado até o Festival.

“Fizemos o filme de um jeito muito doméstico”, diz Thiago Soares que assina a coreografia e a co-direção do curta. “Os palcos estavam fechados, nenhum evento estava acontecendo, chamei a Lana e o Oskar e gravamos em meu estúdio no Rio de Janeiro, durante a pandemia”.

Thiago disse que assim que Oskar viu o material, enxergou um potencial muito grande nele. Quando o trabalho foi finalizado, a equipe exibiu o curta para alguns críticos e as respostas foram bem positivas.

“Uma coisa é a gente achar nosso projeto incrível, outra coisa é ouvir isso de quem sabe avaliar o curta, Já existem produtores interessados no nosso trabalho, então, estaremos lá. Conversando com todos e tomando o café da manhã do ‘Short Film Corner'”, diz.

Peso político

Há dez meses, o cineasta Kleber Mendonça Filho participava do júri do Festival de Cannes de 2021. Na abertura do evento, fez um discurso criticando a condução da pandemia pelo governo de Jair Bolsonaro e fez um apelo pela Cinemateca Brasileira, que, naquele momento, encontrava-se fechada.

“Estamos no Festival de Cannes e todos amamos o cinema aqui. E eu penso que a Cinetameca é um templo da memória e da preservação. Então, alguns dos meus amigos não brasileiros perguntaram: ‘o que podemos fazer?'”, disse Kleber, à época, “e eu digo: fale sobre isso, discuta isso, escreva sobre isso. Talvez, ligue para alguém do governo e pergunte: ‘Por que vocês estão fazendo isso?'”.

No dia 13 de maio, a Cinemateca Brasileira reabriu em São Paulo. A instituição guarda o maior acervo de filmes da América do Sul e é responsável pelo restauro de diversos documentos antigos. Um dos filmes armazenados por lá estará em Cannes, restaurado.

“Deus e o Diabo na Terra do Sol”, dirigido por Glauber Rocha, será exibido na mosta “Cannes Classics”, em 4k, 58 anos depois da sua estreia que aconteceu no próprio Festival de Cannes. O projeto foi encabeçado pela filha do cineasta, Paloma Rocha, e pelo produtor Lino Meireles.

“O processo de restauro foi muito incerto por causa da pandemia e por causa do fechamento da Cinemateca, conseguimos o negativo, as imagens, mas o som, não”, diz Lino.

O arquivo de som havia ficado preso dentro da Cinemateca. Paloma Rocha, então, interveio junto à Secrataria Especial de Cultura e conseguiu recuperar o som original do filme.

“Todo mundo diz que o Glauber era hermético… isso porque não conseguiam ouvir direito o ‘Deus e o Diabo'”, ri Paloma. “Para mim foi uma alegria ter concluído esse trabalho.” Para a filha do cineasta, estar em Cannes com esse filme é a trajetória natural de Glauber Rocha.

“Sim, é o relançamento de ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ para novas plateias, mas não é só isso”, diz Paloma. “A obra de Glauber tem sua força, anda por si só e permanece extremamente atual”.

Para Lucia Monteiro, nos últimos anos, cada vez que o Brasil apareceu em Cannes, houve um impacto político.

“A presença de ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, um filme extremamente político, e a não-presença de um filme brasileiro na seleção oficial chamam a atenção. Essa combinação faz a gente pensar no nosso próprio cinema e mostrar para o mundo as dificuldades que existem por aqui”.

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