Com direção de Sam Raimi, “Doutor Estranho” é (quase) um filme de autor

Cheio de referências à carreira do cineasta, a nova superprodução da Marvel diverte e assusta

"Doutor Estranho no Multiverso da Loucura" chegou aos cinemas brasileiros
"Doutor Estranho no Multiverso da Loucura" chegou aos cinemas brasileiros Divulgação

Isabella Fariada CNN

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O terror é um gênero cinematográfico paradoxal. Consegue ser subestimado e superestimado ao mesmo tempo. É polêmico e fácil de perder a mão, mas pode trazer uma atmosfera única a qualquer roteiro, por mais fraco que seja.

Em “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura”, o diretor Sam Raimi consegue transformar o longa e encaixá-lo, pela primeira vez na história da Marvel, no gênero “terror”.

A semente, porém, já havia sido plantada no primeiro filme, dirigido por Scott Derrickson. O cineasta, que comandou projetos como “O Exorcismo de Emily Rose” (2005), trouxe um tom mais sombrio à Marvel, mas abandonou o barco do “Doutor Estranho”, alegando diferenças criativas com o estúdio.

Sobrou para o diretor de “Homem-Aranha” (2002), que, pela primeira vez em sua carreira, ganhou a inscrição “a film by Sam Raimi” em um longa de sua direção.

Merecidíssimo, principalmente pelo cineasta ter conseguido traçar um filme ligado à tantas outras obras do estúdio.

Em “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura” acompanhamos a história do herói Sthepen Strange (Benedict Cumberbatch), que precisa proteger America Chavez (Xochitl Gomez), uma adolescente capaz de viajar por infinitas dimensões, da ameaça da Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen).

Uma jornada de herói clássica, coisa que estamos acostumados a ver na maioria dos blockbusters, mas nada é tão simples quando falamos de Marvel, certo? Para entender os principais rumos da história é preciso ver, pelo menos, o primeiro filme do “Doutor Estranho” (2016), além da série “Wandavision” (2021) e alguns episódios de “Loki” (2021) e “What If…?” (2021).

Eis aí a dificuldade de encabeçar um filme da Marvel.

Grandes diretores como Chloé Zhao, Kenneth Branagh e Taika Waititi tentaram, mas não conseguiram imprimir suas identidades em meio a tantos fan-services e referências.

Sam Raimi conseguiu, manteve as “exigências” da Marvel, ousou nos efeitos especiais psicodélicos e ainda prestou homenagens à própria carreira, marcada por filmes de terror B, no melhor estilo trash possível.

Doutor Estranho versão zumbi? Temos

Falas como “volte para o inferno”? Temos, também.

Rituais de feitiçaria para absorção de poderes? Com certeza.

Tanta autenticidade se torna um alívio para quem gosta de cinema e acompanha os filmes da Marvel desde a origem do Universo Cinematográfico. A cereja do bolo do multiverso fica pela atuação de Elizabeth Olsen, que faz uma Feiticeira Escarlate solitária, deprimida e disposta a resgatar a coisa pela qual mais prezava, sua família.

Lições de moral mais complexas, que fujam do “precisamos-salvar-o-mundo”, não têm tanto espaço nos roteiros da Marvel, mas é possível vislumbrar uma reflexão mais profunda em “Doutor Estranho”, envolvendo demônios pessoais dos personagens e uma pergunta central, repetida várias vezes no filme: “Você é feliz?”.

Não é só esse questionamento que ficou no ar. Ao fim do filme, tendo me divertido e me surpreendido, me perguntei se essa atmosfera se seguiria pelos próximos filmes da Marvel.

Aí veio a famigerada cena pós-créditos e me trouxe de volta à realidade enlatada dos filmes de super-herói.

Quem sabe em uma realidade alternativa, meu questionamento seja respondido…

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