Duas décadas sem a intensidade e a versatilidade de Cássia Eller

Há 20 anos, morria uma das maiores cantoras do país. CNN conversou com seu parceiro dos palcos Nando Reis e entrega detalhes do musical sobre ela que estreia em 2022

Cássia Eller morreu aos 39 anos, no dia 29 de dezembro de 2001
Cássia Eller morreu aos 39 anos, no dia 29 de dezembro de 2001 Divulgação

Alexandre Matiascolaboração para a CNN

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Há 20 anos, um infarto fulminante calava uma das intérpretes mais populares da música contemporânea brasileira. Cássia Eller havia acabado de completar 39 anos e vivia o auge de sua carreira quando sofreu quatro paradas cardíacas no dia 29 de dezembro de 2001.

Ela foi internada na tarde de um sábado, no Rio de Janeiro, mas não resistiu, pegando o país de surpresa entre o Natal e o Ano Novo daquele que havia sido o ano mais prolífico de sua carreira.

2001 foi um ano crucial para consolidá-la como uma das artistas mais versáteis de sua geração. Ela havia começado o ano apresentando-se na terceira edição do Rock in Rio, quando, depois de cantar músicas de Chico Buarque, Cazuza, João do Vale, Renato Russo e Nando Reis, convidou a banda Nação Zumbi para tocar “Come Together”, dos Beatles, a seu lado.

Neste momento, mostrou os peitos em cadeia nacional, o que no Brasil de 2001 causou uma imensa repercussão. Ao lado da Nação ela ainda tocaria a música “Quando a Maré Encher”, antes de encerrar a apresentação com “Smells Like Teen Spirit”, o hit do grupo norte-americano Nirvana – durante a música, seu filho Chicão, na época com apenas sete anos de idade, tocava percussão.

Em março daquele ano, Cássia selaria sua parceria com o ex-titã Nando Reis, chamado por ela para dirigir seu Acústico MTV. Nando havia produzido o último disco de estúdio de Cássia, “Com Você… Meu Mundo Ficaria Completo”, lançado em 1999, e a conexão entre os dois era intensa.

“Primeiro me bate uma tristeza”, lembra o cantor e compositor paulista ao ser perguntado sobre suas lembranças em relação à cantora, 20 anos após sua morte.

“Era a primeira vez que encontrava alguém com quem eu tinha muita afinidade, que gostava das músicas que eu fazia e cantava tão bem. Eu nunca mais tive isso”, lembra Nando.

“O que vivemos e fizemos juntos, essa incrível amizade, a compreensão mútua… Quando começamos a trabalhar, ela me dava a impressão que até então não havia ninguém com quem eu tivesse tamanha afinidade e facilidade em trabalhar. Tudo que eu mostrava e compunha, ela gostava, entendia, sabia.”

Nando lembra dos discos que gravou com Cássia, que aproximava dois universos distintos e até então opostos da música brasileira: o rock e a MPB. Mas discorda ao referir-se musicalmente a gêneros musicais – “ela transitava em muitas áreas” -, e diz que conseguiu, ao seu lado, aproximar sonoridades que aparentemente não conversavam.

“O trabalho que eu fiz com ela pessoalmente, os dois discos, estabelecem um ponto de encontro e de conciliação entre essas duas sonoridades”, fala, explicando como rock e MPB eram a base da formação musical da geração dos dois – Cássia era um mês mais velha do que Nando.

Foi Nando quem sugeriu que Cássia abrisse seu Acústico cantando a imortal canção francesa “Non, Je Ne Regrette Rien”, eternizada por Edith Piaf.

“Mas Cássia tinha mais curiosidade e conhecimento musical que eu”, lembra o produtor, citando, como exemplo, a reverência que a cantora tinha ao cantor espanhol de flamenco Camarón de la Isla.

“Ela abria possibilidades técnicas de compreensão que me dava a impressão que ela podia cantar qualquer coisa. Tanto que parecia estranho quando sugeri que ela cantasse Edith Piaf, embora ela tenha sido a única pessoa que entendeu, todos que estavam no entorno achavam estranho, forçado. Mas quando você ouve, é absolutamente natural, porque não havia essa distinção.”

O Acústico, lançado no dia 5 de maio de 2001, reforçava ainda mais essa característica plural da cantora, trazendo, além do repertório parecido com o apresentado no Rock in Rio, em outra roupagem, uma canção do sambista baiano Riachão, outra dos Beatles, uma dos Mutantes e uma colaboração dela com o rapper Xis, fazendo a ponte entre o rap e o samba – hoje já estabelecida – numa artista que não era ligada especificamente a nenhum desses gêneros.

Morte prematura

Nascida na zona oeste do Rio de Janeiro em 1962, Cássia Eller passou por diferentes cidades – como Belo Horizonte, em Minas Gerais, e Santarém, no Pará – antes de mudar-se para Brasília ao assumir a maioridade e começar a trabalhar com música.

Cantou em corais, participou de duas óperas, foi vocalista de um grupo de forró, tocou surdo em um grupo de samba, liderou o primeiro trio elétrico da capital, o Massa Real, e começou a cantar profissionalmente com Oswaldo Montenegro. Sua carreira fonográfica começa em 1990, quando desponta ao misturar uma canção dos Beatles com outra do Legião Urbana. Assim, os anos 1990 a consolidaram como uma das intérpretes mais populares da música contemporânea brasileira.

Após o lançamento do Acústico, a carreira disparou. É seu disco mais bem sucedido até hoje e vendeu mais de um milhão de cópias, além de garantir o prêmio Grammy Latino de Melhor Álbum de Rock Brasileiro daquele ano. A escalada de shows se intensificou e entre maio e dezembro daquele ano ela fez 95 shows.

A intensidade do trabalho certamente acabou por cobrar seu preço quando ela sofreu o infarto no final daquele ano, fazendo muitos associarem sua morte ao uso de drogas, que ela já havia abandonado havia dois anos, como ela disse em entrevista à revista “Marie Claire” em outubro de 2001,e também como mostraram os exames toxicológicos feitos após sua morte.

Cássia para sempre

As duas décadas sem Cássia Eller acabaram por motivar homenagens póstumas. A primeira delas foi o lançamento do single “Espírito do Som”, gravado originalmente em 1985, e lançado no último dia 10, data que marcaria seu aniversário de 39 anos. Outra homenagem é o musical “Cássia Rejane – Muito mais que Eller”, que foi montado em Brasília e que deve correr o Brasil a partir do ano que vem.

“Conheço a Carla Eller, irmã da Cássia, há uns 20 anos”, lembra o diretor Eliéser Lucena, responsável pela montagem. “Eu nunca tinha falado da Cássia por achar que era algo inconveniente, mas um dia perguntei se ela poderia falar sobre o assunto e ela disse que sim. Mas a pessoa que ela ia descrevendo não tinha nada a ver com aquela que vemos no palco, ao contrário, era alguém surpreendente e dava uma bela história”, lembra o diretor, que também é músico, jornalista, escritor e sócio de um escritório de gestão de projetos culturais, Matriz Cultural.

“No meio da pandemia foi a mãe dela, Nanci Ribeiro quem me chamou e disse: ‘ano que vem marca os 20 anos que ela se foi, você faz aquele musical pra mim?’”, continua o diretor, que ficou surpreendido com o convite.

Peça “Cássia Rejane, muito mais que Eller” foi um pedido da mãe da cantora / Divulgação

“Respirei, esperei a alma voltar para o corpo e não tive como negar. Era a mãe da Cássia na minha frente e um disco de ouro na parede”, lembra, explicando que à medida em que foi se envolvendo com a peça viu que a família gostaria de mostrar a história de alguém que eles não viam como a figura pública que a cantora se transformou.”

“O roteiro foi todo criado em função do cotidiano de uma Cássia nascida em 1962 e a acompanha até 1989, quando ela explode. Foi algo surreal porque você não espera uma pessoa doce, muito bem humorada, desapegada de qualquer valor material e extremamente preocupada com a família, pelo menos não era o que eu esperava quando fiz a primeira pergunta pra Carla.”

A peça, que sempre foi um musical desde sua concepção, é apresentada por atores e atrizes brasilienses, acompanhados pelo grupo Trupe Lendas e Canções, e só teve uma apresentação até então, fechada para a família e amigos de Cássia, sem bilheteria, no último dia dez, em Brasília.

“Temos boas perspectivas de entrarmos em turnê nacional já que estamos despertando o interesse de empresas que podem nos patrocinar”, comemora o diretor, que reforça que a peça foi toda feita “no peito e na raça”.

“A Cássia é única”, arremata Lucena. “Não vai existir outra igual. Ela segue viva viva porque sempre foi verdadeira, jamais fugiu de nada e viveu intensamente tudo o que se propôs.”

Nando Reis concorda: “Sua importância é imensa: além de uma cantora excepcional, ela também tinha uma personalidade única, forte e muito característica, algo que me parece inexistente nos dias de hoje.”

O cantor guarda com carinho os momentos que viveram juntos. “É mais comum as pessoas nos associarem a ‘Relicário’, porque eu canto com ela na gravação do Acústico, mas eu gosto de lembrar da gente cantando ‘Com Você Meu Mundo Ficaria Completo’. Participei de alguns shows dela e a gente cantava essa música, que era uma música nossa. Foi a única música que eu escrevi para ela”, fala, e finaliza: “Ao contrário do que as pessoas pensam, eu não escrevi ‘All Star’ para ela, enquanto ‘Com Você…’ foi feita para ela, especialmente a terceira estrofe. E quando a gente cantava junto foi uma das coisas mais emocionantes que já vivi.”

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