Elza Soares e o canto da mulher negra que viu o filho morrer de fome

Um dos maiores nomes da nossa cultura, sua importância vai para muito além da música

Alexandre Matiascolaboração para a CNN

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Não sabemos o tamanho de Elza Soares. A artista completa que nos deixou neste 20 de janeiro de 2022 tinha uma das mais sofridas biografias e era uma das personalidades mais importantes de nossa cultura. Sua força e verdade iam muito além da música e da arte.

“Ela tem uma importância social muito profunda, é a voz do nosso povo mais oprimido: a mulher negra que viu o filho morrer de fome”, diz o produtor e percussionista Guilherme Kastrup, que dirigiu o disco “Mulher do Fim do Mundo”. “Ela canta com o conhecimento na carne, na alma, que é o povo brasileiro em sua essência — sempre do lado do oprimido e com coragem para botar a voz dela para isso.”

O disco de 2015 é apenas o início de um último e feliz capítulo da história de uma mulher que “comeu o pão que o diabo amassou”, mas que sempre teve a música a seu lado, como uma força-motriz.

Uma mulher que despediu-se da infância depois que foi forçada a casar com 12 anos de idade, tornando-se mãe e viúva (além de ter visto um dos filhos morrer de fome) menos de uma década depois.

Entrou na música como uma forma de ganhar dinheiro para comer e foi recebida com galhofa por Ary Barroso, que apresentava um programa de calouros na rádio. Ao ser perguntada pelo autor de “Aquarela do Brasil” de que planeta ela havia vindo, caçoando da forma como ela estava vestida, respondeu atravessada: “Do planeta fome!”. Desde antes de começar sua carreira, Elza já sabia o que queria — e o que não queria.

E, por mais que brilhasse em discos clássicos ao lado de Miltinho ou de Wilson das Neves, Elza chamava mais atenção por sua personalidade forte. O casamento com Garrincha é uma versão brasileira dos casamentos clássicos de Hollywood, e por mais que ela tenha sofrido por ele, ela o considerava o homem de sua vida.

Como aconteceu no casamento anterior, ela também perdeu o filho que tinha com o jogador, além de ser perseguida, com o marido, pela ditadura militar, que metralhou a casa do casal como forma de intimidá-los a sair do país. O destino os uniu finalmente na data de morte: 20 de janeiro também foi o dia em que Garrincha morreu, há 39 anos.

Outra ironia do destino foi fazê-la morrer um dia depois da celebração de duas das maiores cantoras do Brasil, Elis Regina, que morreu há 40 anos no dia 19, e Nara Leão, nascida há 80 anos naquele mesmo dia.

Como as duas, Elza também não levava desaforo para casa e procurava novos talentos para cantar, mesmo que as gravadoras sempre tenham empurrado regravações para ela.

E não importava o que ela tocava: era sempre samba. “Ela era o samba, era impressionante”, lembra Kiko Dinucci, que tocou no disco produzido por Kastrup, e no disco seguinte, “Deus é Mulher” (2018). “Nunca se esforçou pra isso, Elza Soares é o samba. Ela nunca foi questionada se ela era samba puro. Se ela cantar hardcore, é samba. Ela podia fazer qualquer loucura que quisesse, que ela era o samba em pessoa.”

O disco de 2015 reuniu alguns dos principais nomes da atual cena musical paulistana e apresentou a cantora para pelo menos duas novas gerações de fãs.

Artistas como Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, Rômulo Fróes, Thiago França, Douglas Germano, Thomas Rohrer, Celso Sim, Rodrigo Campos, DJ Marco, Cuca Ferreira, Daniel Gralha, Douglas Antunes e Daniel Nogueira — os quatro últimos são os metais do grupo instrumental Bixiga 70 — ajudaram a recriar a carreira da cantora, em seu primeiro disco de inéditas.

“Mulher do Fim do Mundo”, além de ter emplacado dois hits que sobrevivem para além da voz de Elza (“Maria da Vila Matilde”, sobre violência doméstica, e a faixa-título), ainda deu início à celebração em vida da majestade da cantora, algo tão raro num país que só costuma lembrar de seus grandes nomes nos momentos de luto.

O disco ainda resgatou a força de Elza no palco, numa série de apresentações históricas que a colocavam literalmente num trono. Todos se lembram de como ela tinha dificuldades físicas até mesmo para caminhar, mas era só o show começar que tudo mudava. “Ela era filha de Iansã e cuspia fogo na cara das pessoas”, lembra o guitarrista Kiko Dinucci.

O compositor Romulo Fróes, que foi diretor artístico do disco, lembra quando apresentaram as músicas do disco com os arranjos finais antes de ela gravar. Estranhou e gostou da primeira, fez um comentário sobre a segunda e depois calou-se quando ouviu a terceira, a quarta e a quinta. Até que comentou: “É, eu vou ter que estudar pra gravar esse disco”, o que fez todos os músicos suspirar aliviados. E completou: “E eu vou arrebentar!”, disse.

Arrebentou e continuou arrebentando. Tanto que conseguiu finalizar um show gravado na última terça-feira (18), no Teatro Municipal de São Paulo. Dois dias antes de se despedir deste plano. Obrigado, Elza.

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