Juan Jullian, autor de "Roubo do Cão", realiza sonho de infância com filme

À CNN, o roteirista reforçou importância da representativa negra infantil e os laços afetivos entre crianças e pets; longa estreia no sábado (1º)

Caroline Ferreira, da CNN Brasil
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"Roubo do Cão", filme inédito dos Estúdios Globo, estreia no catálogo do Telecine neste sábado (1º), às 22h.

Escrito por Juan Jullian, nome por trás de produções como "Reencarne" e "Dona de Mim", a trama acompanha Luciana, uma menina de nove anos que enfrenta uma série de dificuldades para se enturmar na escola desde que se mudou para o Rio de Janeiro. No entanto, sua vida muda por completo ao encontrar uma Chihuahua abandonada nas ruas.

"O longa nasce do desejo de contar uma história para toda a família, com a cara do Brasil. Eu queria criar um filme em que as nossas crianças se reconhecessem como protagonistas, vivendo aventuras que dialogam com a nossa cultura e cotidiano", conta o autor à CNN.

 

Fascinado pela franquia de "Esqueceram de Mim" desde a infância, a ideia foi resgatar o senso de aventura atrelado ao sentimento de diversão e afeto. "Aqui temos a genial Dandara Arcebispo como protagonista, o calor da zona norte carioca, os trilhos de trem e os muros com cacos de vidro", diz.

"Eu queria traduzir esse sentimento que temos com nossos animais de estimação. Especialmente no pós-pandemia, os pets foram fundamentais para a nossa saúde mental e emocional", acrescenta Juan, que também se classifica como pai de pet, já que é tutor de Mirna.

No filme, quando vídeos da cadelinha viralizam nas redes, transformando-a em uma verdadeira celebridade, a fama chama a atenção de Cristal, a filha mimada de Aurora, que costuma usar a imponência da mãe para conseguir tudo o que quer - inclusive a cachorrinha.

Segundo Juan, uma das primeiras cenas foi, de fato, inspirada em um episódio que serviu como gatilho para a ideia inicial do roteiro. "Eu estava passeando com a Mirna em Copacabana quando fui abordado por um desconhecido que me ofereceu dinheiro para levá-la. Fiquei chocado, neguei e ele continuou aumentando a proposta financeira. Me choquei com o absurdo da situação. A partir daí comecei a refletir sobre essa relação de afeto com os animais, o vínculo genuíno que criamos com eles", comenta.

Autor revela motivo para uma Chihuahua como protagonista

Muito além das referências na própria cadela, a escolha pela Chihuahua ia além. Segundo Juan, a raça é uma analogia com a essência do filme. "Os Chihuahuas são a menor raça do mundo, e a Luciana, nossa protagonista, é uma menina pequena, para quem o mundo também parece um lugar enorme e assustador. Como esses dois personagens, aparentemente frágeis e inofensivos, poderiam enfrentar uma dupla de bandidos?", questiona.

"A raça ainda tem uma estranheza graciosa que conversa muito bem com o tom do filme. Olha para um Chihuahua e para o Stitch, da Disney, há algo de semelhante ali, uma mistura de fofura e estranheza que é irresistível. Então o tamanho e as características do cachorro eram fundamentais para a narrativa", adiciona.

Até que encontrassem a intérprete de Rita Lee, o processo foi desafiador. "Chihuahuas não são conhecidos por serem fáceis de treinar, mas felizmente encontramos a Liu, que trouxe exatamente o que precisávamos. Ela ainda contou com duas dublês caninas no set", recorda.

O equilíbrio entre a comédia e vínculo entre crianças e pets

Outro ponto alto do título se dá pelo tom humorístico que não rouba o espaço da relação genuína entre a menina e o cão.

"A conexão entre Luciana e Rita Lee, entre humano e cachorro, é o coração de Roubo do Cão. Luciana é uma menina solitária, se mudou de São Paulo para o Rio no meio do ano letivo e possui dificuldade para fazer amizades. Rita Lee é uma cachorrinha de rua, não tem um lar, está faminta, suja. São duas criaturinhas sozinhas nesse mundão. Quando elas se encontram pela primeira vez, as duas têm a mesma necessidade: uma amiga", entrega Jullian.

"Considero a existência do filme uma grande conquista. Quando eu cresci, todas as minhas referências mainstream de aventuras infantis eram protagonizadas por crianças brancas e estadunidenses. Completamente diferentes de mim, eu não me via nesse espaço de protagonismo. De certa forma, estamos sequestrando essas histórias e mostrando que elas podem ter a nossa cara: brasileira, pop e diversa", afirma.

Nomes como Luisa Perissé, Fabiula Nascimento, David Junior, Luellem de Castro e Louise Cardoso também contemplam o elenco.

O cinema no Brasil ainda é distante das periferias.
Juan Julian

Prestes a assinar a primeira novela solo na TV Globo, Juan reflete sobre o momento histórico e bonito que o cinema nacional vive. Embora o crescimento seja nítido, ele destaca o que falta para que esse aumento seja mais expressivo e capaz de sair da "bolha".

"Precisamos que o mercado olhe mais para autores e autoras pretos, da periferia e queer. Precisamos titularizar nossas histórias e ter liberdade criativa para contá-las. O cinema no Brasil ainda é distante das periferias. Sou filho de uma motorista de Kombi, neto de uma faxineira. Quando eu crescia e sonhava em escrever histórias, parecia impossível acessar esses espaços de autoria. Muita coisa se transformou na última década, mas ainda somos exceção nas cadeiras de titularidade e de tomada de decisão. O audiovisual brasileiro precisa da pluralidade para se manter relevante", conclui.

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