Legado do Barbatuques é celebrado no mês em que seu fundador faria 50 anos

Livro, live e show neste fim de semana lembram da vida e obra de Fernando Barba, que morreu em fevereiro deste ano

Fernando Barba, fundador do Barbatuques, grupo de percussão corporal, também era exímio instrumentista
Fernando Barba, fundador do Barbatuques, grupo de percussão corporal, também era exímio instrumentista Mike Melnyk/IBMF2013/Divulgação

Alexandre Matiascolaboração para a CNN

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No mar de más notícias de 2021, uma que pegou fãs de música de surpresa foi a sobre a morte de Fernando Barba, no último mês de fevereiro. Conhecido por seu carisma e por ser uma das pessoas mais queridas da cena instrumental brasileira, o fundador do grupo de percussão corporal Barbatuques completaria 50 anos em dezembro, o que motivou homenagens à sua obra neste mês.

A primeira delas é a edição em inglês de sua autobiografia “A Vida Começava Lá – Uma História de Repercussão Corporal”, que escreveu com sua irmã Renata Ferraz Torres e ganha versão em e-book chamada “Sound from the start: a body percussion story”.

Outra destas homenagens é a live que o grupo Barbatuques faz neste sábado (4) em seu canal no YouTube (youtube.com//barbatuques/), transmitida a partir do estúdio 185, em São Paulo, às 19h30.

Mas a grande apresentação acontece no domingo (5), no teatro do Sesc Pompeia, na capital paulista, onde o baterista e produtor Bruno Buarque, ex-integrante dos Barbatuques, celebra a obra de Barba a partir das 18h com instrumentos convencionais.

O show também reúne músicos que trabalharam com Fernando, como o também barbatuque André Hosoi, na guitarra, e a vocalista Anelis Assumpção, e será transmitido gratuitamente pelos canais digitais no Sesc (youtube.com/sescsp e instagram.com/sescaovivo).

“Esse show é antes de tudo uma homenagem a um amigo. Um tributo a um mestre”, explica o baterista, que também trabalhou com Criolo, Céu, João Donato, Anelis Assumpção, BaianaSystem, Karina Buhr, entre outros nomes da música brasileira.

“O grande público conheceu o Barba através do corpo e poucos sabem que ele era exímio instrumentista, daqueles gênios mesmo. Tocava com maestria violão, guitarra, piano, flauta e percussão. Era lindo e impressionante ao mesmo tempo. Por isso quis justamente mostrar como suas músicas e sua obra soam com banda.”

Para essa apresentação, ele reuniu o guitarrista e cofundador do Barbatuques André Hosoi, o baixista Marcelo Cabral, o trombonista Edy Trombone, o pianista Daniel Ayres e a bailarina Regina Santos, além de Anelis Assumpção que canta as duas únicas canções do show com vocais.

Além da importância da homenagem, é também o primeiro show que o baterista e produtor assina com seu nome.

O guitarrista Hosoi lembra como conheceu o amigo. “Creio que foi por volta de 1986 a primeira vez que eu o vi, na sala de espera da Travessia Escola de Música, onde estudávamos guitarra. Mas o vi tocando flauta, sem parar. Éramos adolescentes, nascidos no mesmo ano, 1971, e logo que escutei o som que saía da flauta, ainda que rudimentar, porém com muita fluência, percebi que ali naquele menino magrelo havia algo de muito especial. Passei a chegar mais cedo para dar uma olhada na aula de prática de grupo que ele fazia e daí finalmente o vi tocando guitarra. Era impressionante. Tudo sempre muito natural, era mágico.”

Baterista e produtor Bruno Buarque, ex-integrante dos Barbatuques / Miguel Salvatore/Divulgação

A potência do corpo

Os dois estudaram música e dividiram teto na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), quando Barba começou a fazer seu grupo, depois de um tempo brincando com músicas tocadas com o corpo.

“Foi quando o Barba teve a ideia de começar a organizar os sons e planejar uma aula de percussão corporal, algo até então inédito, que eu saiba. Chamou atenção da imprensa, de músicos e de profissionais de outras áreas. Foi daí que saiu o grupo Barbatuques.”

“Acompanhei todo o processo da gravação do primeiro CD, tocando e ajudando na produção”, prossegue o guitarrista, que produziu o segundo disco do grupo ao lado de Barba e de Bruno, e a partir daí começou a fazer viagens para o resto do Brasil e para o exterior. Hoje o músico coordena o Núcleo Barbatuques, que realiza atividades no campo do entretenimento e educação.

“Barbatuques é a melhor representação de que a mais alta e preciosa tecnologia é o orgânico”, emenda Bruno.

A resolução máxima da tecnologia ainda é e sempre será o orgânico. Depois de dar a volta completa nas inovações e nos desafios, a gente volta pro mais básico e potente de tudo, que são nossos corpos e mentes

Bruno Buarque

“O Barbatuques já se configura na história da música mundial, representando nosso país”, prossegue Hosoi, listando diferentes músicos com quem o grupo já dividiu o palco, como Hermeto Pascoal, Naná Vasconcelos, Emicida e Alok.

“Tivemos a honra de representar o país em uma série de eventos internacionais, passamos por mais de 30 países, em Copas do Mundo, Olimpíadas, eventos culturais, feiras Internacionais diversas, trilhas de cinema…”

Ele também antecipa o que o grupo fará na live deste sábado: “Tocaremos as músicas do Barba, deixando dessa vez, de lado, as composições de outros integrantes, algumas mais conhecidas pelo público, como o ‘Baião Destemperado’, outras, nem tanto, mas foram faixas escolhidas de todos os álbuns, incluindo algumas peças que não fazíamos há anos tais como o ‘Mangue a Manga’ e ‘Cheiro Verde’, duas maravilhas de composições”.

Bruno Buarque e convidados para o tributo a Fernando Barba, fundador do Barbatuques / Divulgação

Gravações interrompidas

Já Bruno, no show de domingo, puxará uma das músicas do disco que vinha produzindo com Barba, que seria lançado este ano

“Durante o período que moramos juntos, Barba e eu sempre tocávamos na sala durante horas a fio e recebíamos amigos para rodas de som que iam noite adentro. Ele sempre quis fazer um disco de suas composições tocadas com banda e também um disco em que tocaria todos os instrumentos. Ele me convidou para produzir esses discos e marcamos de começar a gravar e ir vendo o que saía, fazendo sessões no meu estúdio, Minduca.”

O disco, no entanto, não saiu do papel pelos problemas de saúde de Fernando. “Infelizmente, quando começamos de fato, ele já estava com o tumor na cabeça, e isso começou a atrapalhar muito nossas sessões, a ponto de termos que interrompê-las para ele fazer a cirurgia. No show, tocaremos uma música que ele tinha gravado aqui, e contaremos com ele tocando com a gente virtualmente, através do sampler MPC.”

“O Barba já estava afastado dos ensaios antes da pandemia, devido às sequelas de sua cirurgia na cabeça, mas nos encontrávamos e passávamos a tarde conversando e tocando”, lembra Hosoi, que ao lembrar da morte do amigo, reforça a necessidade que o grupo teve em continuar o trabalho.

“Sempre soubemos que tínhamos a missão de continuar levando a música orgânica corporal adiante. Mais do que um grupo de música, somos um legado de uma ideia maravilhosa, democrática e potente que é a música corporal. Através dela todos, mesmo, podem fazer música.”

A morte de Barba fez Bruno lembrar de uma frase de um colaborador do grupo, André Magalhães, que falava que “toda vida é completa”.

Bruno Buarque e convidados: Tributo a Fernando Barba

Domingo (5), às 18h

Teatro do Sesc Pompeia – Rua Clélia, 93 – Água Branca. São Paulo)

Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia entrada prevista por Lei e comerciários matriculados no Sesc)

Transmissão online e gratuita pelos canais Youtube do Sesc SP (youtube.com/sescsp) e pelo Instagram do Sesc ao Vivo (instagram.com/sescaovivo)

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