Sally Rooney deixa de receber prêmio em Londres por medo de ser presa
Autora de "Pessoas Normais" diz que não se sente segura após demonstrar apoio a grupo pró-Palestina

A escritora irlandesa Sally Rooney não compareceu a uma cerimônia de premiação em Londres, alegando que corria o risco de ser presa sob as leis antiterrorismo devido ao seu apoio ao grupo ativista Palestine Action.
O editor de Rooney, Alex Bowler, leu a declaração dela no Sky Arts Awards na terça-feira (16), onde o quarto livro da autora, “Intermezzo”, ganhou o prêmio de literatura.
“Gostaria de poder estar aqui com vocês esta noite para aceitar a homenagem pessoalmente, mas devido ao meu apoio ao protesto não-violento contra a guerra, fui aconselhada de que não posso mais entrar em segurança no Reino Unido sem potencialmente ser presa”, dizia a declaração.
Rooney reiterou a “crença na dignidade e beleza de toda a vida humana, e minha solidariedade com o povo da Palestina” na declaração.
A Polícia Metropolitana de Londres disse à CNN em um comunicado na quinta-feira (18) que “não faria comentários sobre um indivíduo no momento da prisão ou antes disso.” A CNN procurou Rooney e Bowler para comentar através da Faber, sua editora.
Palestine Action é uma organização sediada no Reino Unido que visa interromper as operações de fabricantes de armas ligadas ao governo israelense.
As autoridades britânicas têm monitorado o grupo desde 2020, mas a ação de junho de 2025 – quando ativistas invadiram a maior base aérea da Grã-Bretanha, a RAF Brize Norton, vandalizando dois aviões-tanque Airbus Voyager – levou à sua proscrição.
Acredita-se que o Palestine Action seja o primeiro grupo de ação direta a ser designado como organização terrorista no Reino Unido. A proibição significa que mostrar apoio à organização acarreta uma pena máxima de até 14 anos de prisão.
Defensores das liberdades civis em todo o Reino Unido e fora dele condenaram a designação, dizendo que aplicar as leis antiterrorismo a tal grupo corre o risco de sufocar a liberdade de expressão e de reunião e estabelece um precedente perigoso para os direitos de protesto.
Desde a sua designação como terrorista, mais de 1.500 indivíduos foram presos em protestos de solidariedade em todo o Reino Unido, muitos por segurarem cartazes que diziam: “Eu me oponho ao genocídio. Eu apoio o Palestine Action.”
Em agosto, Sally Rooney também denunciou a proibição, escrevendo uma coluna no Irish Times intitulada: “Eu também apoio o Palestine Action. Se isso me torna uma ‘apoiadora do terror’ sob a lei do Reino Unido, que assim seja.”
Ela escreveu que “um número crescente de artistas e escritores não pode mais viajar com segurança para a Grã-Bretanha para falar em público” e que pretendia pegar os honorários residuais das adaptações da BBC de seus dois primeiros romances para doá-los para “apoiar o Palestine Action e a ação direta contra o genocídio da maneira que puder”.
Israel tem enfrentado uma crescente condenação internacional. Uma comissão das Nações Unidas concluiu esta semana que Israel estava cometendo genocídio em Gaza. Israel nega quaisquer acusações de genocídio.
“Se o Estado britânico considera isso ‘terrorismo’”, escreveu Rooney, “então talvez devesse investigar as organizações obscuras que continuam a promover o meu trabalho e a financiar as minhas atividades, como a WH Smith e a BBC.”
A CNN procurou a varejista WH Smith. Um porta-voz da BBC disse à CNN em um comunicado que Rooney não recebe pagamento diretamente da BBC atualmente, “e ela não tem contrato conosco.”
Crítica de longa data
Rooney, mais conhecida por seu romance “Pessoas Normais”e sua subsequente adaptação para a TV, há muito tempo critica a ocupação israelense da Cisjordânia e seu bloqueio pré-guerra de Gaza.
Em 2021, ela recusou-se a vender os direitos em hebraico de seu terceiro romance, “Belo Mundo, Onde Você Está” (Beautiful World, Where Are You), para uma editora israelense em apoio ao movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), uma campanha global liderada por palestinos que promove boicotes, desinvestimentos e sanções econômicas contra Israel.
A postura da escritora sublinha o apoio de longa data da Irlanda à causa palestina. A Irlanda é um dos países mais pró-Palestina da Europa, uma posição nascida de uma experiência compartilhada de subjugação por um estado ocupante.
Em janeiro, o governo irlandês juntou-se ao caso da África do Sul no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) que acusa Israel de genocídio, e o país parece perto de aprovar um projeto de lei que proibirá o comércio com assentamentos israelenses ilegais na Cisjordânia ocupada.
No entanto, Rooney criticou o governo da Irlanda por não se manifestar de forma mais veemente em favor dos manifestantes recentemente presos no Reino Unido.
“Se o Governo em Dublin realmente acredita que Israel está cometendo genocídio”, disse Rooney, “como pode olhar para o lado enquanto seu vizinho mais próximo financia e apoia esse genocídio e seus próprios cidadãos são presos simplesmente por se manifestarem?”
A CNN procurou o Ministério das Relações Exteriores da Irlanda para comentar.


