Após quatro anos longe das pistas, Usain Bolt fala sobre a vida de aposentado

O homem mais rápido do mundo afirma que continua em forma e está animado para assistir os Jogos Olímpicos de Tóquio apenas como espectador

Matias Grez, da CNN
17 de março de 2021 às 12:52
Usain Bolt
Usain Bolt sorri para fotógrafos momentos antes de cruzar a linha de chegada nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016
Foto: REUTERS/Kai Pfaffenbach

Com seu sorriso largo e o estilo de corrida relaxado, Usain Bolt muitas vezes parecia que estava dando uma corridinha no parque, e não competindo como o homem mais rápido do mundo.

Poucos atletas foram tão dominantes em seu esporte a ponto de terem tempo de posar e sorrir para as câmeras no meio de uma corrida. Mas Bolt não era como outras estrelas do atletismo.

A imagem viral do jamaicano sorrindo ao se aproximar da linha de chegada em sua semifinal dos 100m nos Jogos Olímpicos Rio 2016 resume a alegria que ele levava ao atletismo cada vez que pisava na pista.

A lista de conquistas do atleta é quase tão longa quanto sua passada. São oito ouros olímpicos (o que também fez dele o primeiro velocista da história a ganhar medalhas de ouro nos 100m e 200m em três olímpiadas consecutivas), 11 ouros no Mundial de Atletismo e recordes mundiais no revezamento 100m, 200m e 4x100m que nenhum outro atleta sequer chegou perto de alcançar.

Aos 34 anos e aposentado do atletismo desde 2017, Bolt teve tempo para refletir sobre uma carreira notável. De seus inúmeros prêmios, no entanto, há um que se destaca bem acima dos demais.

“Sempre serão as medalhas de ouro [olímpicas]”, disse o atleta sem pensar duas vezes à CNN Sport. “Acho que foi isso que realmente marcou minha autoridade no esporte, foi como mostrei meu domínio ao longo dos anos. Sim, tenho muito orgulho de ser o homem mais rápido do mundo, mas é preciso muita coisa para competir em três jogos olímpicos consecutivos e ganhar. Daí que, para mim, meu maior orgulho são as minhas medalhas de ouro”.

Atualmente, o debate sobre a quebra de recordes mundiais de atletismo é frequentemente acompanhado por discussões sobre a importância do desenvolvimentos na tecnologia de calçados.

Bolt diz que não está preocupado se seus recordes serão quebrados com a ajuda dos tênis tecnológicos, em vez de pura habilidade física.

“O fato é que todos sabem o porquê, então, não me incomoda”, explica. “Como eu disse, estou feliz por ser o homem mais rápido do mundo, mas sempre foram as medalhas de ouro que realmente importaram para mim, porque é assim que um atleta realmente se prova. Muita gente pode dizer: ‘Sou um ex-recordista mundial’, mas não há muitas pessoas que podem dizer: “Eu ganhei — bem, só eu — as medalhas de ouro olímpicas em três jogos consecutivos”.

“É por isso que me esforcei tanto para dominar, porque eu sei que a qualquer momento alguém pode simplesmente quebrar o recorde. Se todo meu esforço estivesse só nisso, o que restaria?"

Usain Bolt, uma das maiores lendas do atletismo
Foto: REUTER/Lucy Nicholson

Uma aposta vencedora

Bolt pode ter quebrado recordes mundiais e ganhado inúmeras medalhas de ouro, mas isso não o impediu de se entregar a seu amor por fast food.

Em sua autobiografia de 2013, “Mais rápido que um raio”, Bolt estima que comeu 1.000 nuggets de frango do McDonald’s durante seus dez dias em Pequim nos Jogos Olímpicos de 2008. Surpreendentemente, essas 5.000 calorias e 300 gramas de gordura por dia o levaram a três medalhas de ouro e três recordes mundiais naqueles jogos.

Na mesma época, Bolt fez uma aposta com o técnico Glen Mills e o agente Ricky Sims, que eram inflexíveis quanto aos desejos do atleta por fast food. Eles achavam que ele desenvolveria uma “barriga grande” dois anos após a aposentadoria.

Para decepção da dupla, Bolt ainda mantém seu físico atlético e esguio três anos e meio depois de se aposentar. Será que Mills e Sims pagaram a aposta?

“Não!”, conta o atleta, rindo. “Tivemos um vai e vem porque eles disseram que a aposta era de três anos. Respondi que não, era de dois anos! A gente ficou indo e voltando no tema, daí falei para esquecerem, porque não queriam pagar depois de dois anos. Eu disse: ‘Olha, ainda estou em forma’. E eles não ficaram contentes!”

Assim como o resto de nós, os atletas também têm desejo de comer alguns alimentos supostamente proibidos. No entanto, como em tudo na vida, é uma questão de comer com moderação, especialmente quando não se está mais treinando por horas a fio todos os dias.

“Eu aprendi e entendi que exercícios são muitíssimo importantes, mesmo que seja apenas uma caminhada para se manter saudável”, afirma.

“Com o passar dos anos, aprendi muito sobre peso e nutrição, portanto entendo as etapas necessárias para me certificar de que estou saudável. Estou criando uma família e quero ter certeza de que estarei por perto para vê-la, sabe”.

Usain Bolt após conquistar a medalha de ouro nos 200 metros rasos, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro
Foto: REUTERS/Dylan Martinez

Vida depois do atletismo

A vida de Bolt é bem diferente do que era há quatro anos.

Em maio de 2020, ele se tornou pai pela primeira vez depois que sua parceira Kasi Bennett deu à luz uma menina, que eles batizaram de forma apropriada de Olympia Lightning Bolt.

O atleta passa a maior parte do dia com Olympia e Kasi, e abre intervalos no meio do dia para malhar e “jogar o peso fora”.

Bolt diz que também tem trabalhado arduamente em empreendimentos pós-carreira, incluindo parcerias com novos patrocinadores.

A estrela da velocidade e Abby Wambach, ex-jogadora de futebol da Seleção de Futebol Feminino dos Estados Unidos, são os rostos da nova campanha de Gatorade que homenageia o clássico comercial “Qualquer coisa que você puder fazer, eu posso fazer melhor”, que tinha o jogador de basquete Michael Jordan e a jogadora de futebol Mia Hamm na primeira versão.

Enquanto alguns atletas lutam para aceitar a aposentadoria, Bolt está gostando muito da sua.

A preparação para Tóquio 2020 é diferente de tudo que ele experimentou por quase duas décadas. Afinal, é a primeira Olimpíada em que o ‘Lightning Bolt’ não vai competir desde os Jogos de Sydney em 2000, mesmo que muita gente ainda torça para vê-lo na pista de novo.

“Estou muito empolgado por ficar só nas arquibancadas”, conta. “Nunca tive a oportunidade de assistir de verdade aos Jogos Olímpicos, tipo acompanhar a natação, o futebol ou apenas ver todos os eventos. Então, estou animado para ter a chance de realmente vivenciar a Olimpíada como um verdadeiro fã”.

Desde que Bolt se afastou do atletismo, o esporte tem tentado encontrar a próxima geração de atletas que manteriam a tocha acesa. Infelizmente, como aconteceu com outros esportes no último ano, a pandemia de coronavírus restringiu a temporada de atletismo e, por fim, forçou o adiamento dos Jogos de Tóquio até 2021.

Dado o impacto do cronograma atrofiado na maioria dos atletas, Bolt acredita que é justo permitir a eles um período prolongado de preparação antes de sobrecarregá-los como o peso do estrelato.

“Sabe, normalmente eu sempre diria quem eu penso [que são os grandes atletas], mas agora eu apenas me sento e assisto. Especialmente depois da pandemia, muitas pessoas ficaram de fora da temporada sem ter a chance de competir uma única vez sequer”, explica.

“Agora que os Jogos vão começar, vou apenas assistir para ver como será a temporada para depois dizer: ‘Quer saber? Acho que essas pessoas estavam falando sério. Elas se mantiveram em forma durante a pandemia’. Daí, a gente só precisa assistir para ver o que acontece”.

(Texto traduzido. Leia o original em inglês).