Atletas olímpicos lutam contra a Covid prolongada: 'Treinar tem sido difícil'

Covid prolongada tem se transformando em problema de saúde pública

Rebecca Wright e Will Ripley, CNN
22 de julho de 2021 às 05:14 | Atualizado 22 de julho de 2021 às 17:04
A remadora Oonagh Cousins durante um treinamento
A Covid prolongada deixou a remadora Oonagh Cousins lutando para se levantar da cama
Foto: Instagram / Reprodução

 A atleta Oonagh Cousins treinava até 35 horas por semana depois de ser escolhida para a equipe de remo do Reino Unido para as Olimpíadas de Tóquio, mesmo depois de ter contraído Covid-19 em fevereiro de 2020.

A jovem de 26 anos, que vive em Surrey, Inglaterra, teve um caso leve da doença, então acreditou que poderia voltar rapidamente aos treinos. Mas ela acha que o exercício intenso pode ter exacerbado a doença, acrescentando que ela “acabou virando um caso de Covid muito ruim”, forçando-a a sair da equipe olímpica.

“No pior dos momentos, por alguns meses, eu tive muita dificuldade para sair da cama”, contou Cousins. “Sair da cama para fazer o café da manhã era uma montanha enorme para escalar”.

 

Segundo ela, mesmo agora, o “cansaço intenso” só permite que ela realize algumas horas de atividade normal por dia.

“Treinar ainda tem sido uma luta”, afirmou. “Hoje, provavelmente consigo fazer três sessões de 20 minutos em uma semana de forma superleve”.

Agora, ela quer alertar outros jovens atletas – especialmente aqueles que voam para Tóquio para os Jogos – para levar a Covid-19 a sério.

“Pessoas que são jovens e saudáveis, que se exercitam, não acham que vão ficar doentes. É importante que quem pegar o vírus tenha muito cuidado”.

Seu caminho para a recuperação ainda está em curso. Mas seus sonhos olímpicos para Tóquio acabaram.

“Achei muito difícil, fiquei muito chateada”, contou, sobre abandonar os Jogos. “Eu me dei o espaço para processar, me permiti sofrer”.

Cousins espera voltar à forma pronta para competir na Olimpíada de Paris em 2024.

“Estou de luto”

No entanto, para outros atletas, Tóquio era a última chance de uma medalha olímpica.

Priscilla Loomis, uma atleta do salto em altura norte-americana que competiu nos Jogos Olímpicos do Rio em 2016, esperava representar Antígua e Barbuda em Tóquio devido à sua dupla cidadania.

Mas um caso grave de Covid-19 atrapalhou suas chances e ela não conseguiu se classificar.

“Estou absolutamente arrasada”, disse Loomis. “Estou de coração partido. Estou me curando agora. Estou de luto”.

Loomis sofreu com dores no peito e dificuldades respiratórias e teve de perder oito semanas de treinamento. Seu médico até a aconselhou a abandonar sua candidatura olímpica, por causa dos danos potenciais de longo prazo ao seu coração e pulmões. Mas ela continuou.

“Tudo o que eu conseguia pensar era ‘preciso me preparar para as Olimpíadas, preciso me preparar para as Olimpíadas’. E então meu mundo virou de cabeça para baixo”.

Aos 32 anos, a atleta do salto em altura disse que não pode continuar treinando neste nível (ou tendo o apoio financeiro necessário para tal) por mais quatro anos.

“Foi a minha última chance. Não tenho como pagar os treinadores e os médicos e, conforme envelheço, há uma série de partes aleatórias que doem quando acordo”.

A Covid prolongada, também chamada de síndrome pós-Covid, está se transformando em um importante problema de saúde pública de longo prazo.

Somente no Reino Unido, quase 700 mil pessoas relataram ter sintomas por pelo menos três meses após serem infectados com Covid-19, de acordo com uma pesquisa feita pelo Escritório Nacional de Estatísticas do Reino Unido em março.

A maioria dos 700 mil disse que a doença estava limitando suas atividades do dia a dia. Para quase 70 mil, os sintomas duraram mais de um ano.

Um estudo separado publicado em abril mostrou que sete em cada dez pessoas que foram hospitalizadas para Covid-19 não se recuperaram totalmente cinco meses após a alta.

O correspondente médico chefe da CNN norte-americana, Sanjay Gupta, diz que os pesquisadores não sabem totalmente por que o vírus atinge algumas pessoas com mais força que outras.

“Estamos lidando com uma doença que nem sabíamos definir há um ano”, afirmou o médico.

“Se você é um atleta, pode ter sintomas da Covid que duram muito tempo. E isso impacta bastante seu desempenho por um longo tempo também”.

Reiniciando do zero

Alguns atletas com o vírus conseguiram se recuperar totalmente e estão indo competir em Tóquio.

Vinesh Phogat, lutadora campeã na Índia, contraiu a Covid-19 em agosto de 2020.

“Fiquei realmente chocada com a forma como me infectei, porque nunca saí de casa”, disse Phogat. “Não tinha contato com ninguém e ficava só em casa treinando”.

A jovem de 26 anos se recuperou sem problemas, mas o tempo sem treinos, combinado com o adiamento dos jogos, atrasou sua programação.

“Ter Covid-19 por um mês acabou com todo meu treino anterior. Tive de recomeçar o meu treino do zero”.

Phogat também disse que enfrentou uma grande ansiedade pessoal depois que toda a sua família adquiriu a Covid-19 alguns meses atrás na Índia, durante um grande surto no país. À época, ela estava treinando na Ucrânia.

“Todos testaram positivo para Covid e a situação na Índia era tal que os hospitais estavam lotados”, lembrou. “Se eu estivesse na Índia, talvez pudesse entrar em contato com as pessoas e cuidar delas. Minha maior preocupação era que eu não estava com eles”.

Phogat ligava para eles entre sete e dez vezes ao dia para verificar sua condição.

“Como minha família vive numa aldeia, eles precisam de lembretes sobre quais comprimidos tomar e o que fazer ou não fazer. Fiquei preocupada porque minha família tem muitas crianças e minha mãe fica doente facilmente, então fiquei aflita com o agravamento da situação”.

Felizmente, todos se recuperaram totalmente e a lutadora agora está totalmente focada no sucesso nas Olimpíadas – e está entrando no evento como favorita em sua categoria, a de peso até 53kg.

Nos Jogos Olímpicos do Rio, Phogat foi retirada do ginásio de maca após uma grave lesão no joelho. Portanto, desta vez, ela está lutando por uma medalha e se sente sortuda por conseguir competir em meio a uma pandemia global.

“É difícil, mas na verdade também é um prazer que, mesmo em tal situação, ainda possamos competir nas Olimpíadas e todos nós, atletas, possamos deixar nossos países orgulhosos”, disse Phogat. “Podemos mostrar ao mundo que todos podemos nos unir. A Covid-19 deixou todo mundo muito tenso, ficando em casa, e agora as pessoas terão a chance de ver os Jogos Olímpicos e heróis de todo o mundo”.

(Texto traduzido. Leia o original em inglês aqui.)