Euro 2020: futebol está voltando para casa, mas joelho no chão divide torcedores
Manifestação simbólica contra o racismo, o ato de ajoelhar antes das partidas tem dividido opiniões entre os torcedores da Inglaterra

Vinte e cinco anos atrás, quando a Inglaterra sediou a Euro 1996, a nação estava encantada com o time que chegou às semifinais do Campeonato Europeu jogando de forma emocionante, o que motivou os fãs a cantarem "Football's Coming Home" ("O futebol está voltando para casa", em tradução livre), refrão da música "Three Lions".
Antes do início da Euro 2020 na próxima sexta-feira (11), a Inglaterra joga seu último amistoso em Middlesbrough, neste domingo (6) contra a Romênia, mas o clima é mais discordante.
Enquanto os jogadores da Inglaterra se ajoelhavam antes do início do amistoso de quarta-feira contra a Áustria – jogo também disputado em Middlesbrough – o gesto era vaiado por alguns torcedores.
Também houve vaias antes da final da FA Cup, no mês passado, entre Leicester City e Chelsea, quando os jogadores fizeram a mesma coisa.
“Mensagem muito forte”
O ato de ajoelhar-se – que ficou famoso em 2016 pelo quarterback da NFL Colin Kaepernick, que se ajoelhou em protesto ao hino nacional norte-americano – foi adotado pelos jogadores de futebol da Premier League inglesa durante a temporada 2019/2020 como um ato de solidariedade após a indignação global sobre o assassinato de George Floyd.
Na temporada passada, os jogadores ingleses da primeira divisão continuaram se ajoelhando diante dos jogos, embora a estrela do Crystal Palace Wilfried Zaha tenha se tornado o primeiro jogador da Premier League a não fazê-lo antes do início da partida, optando por se apresentar antes da partida de sua equipe contra o West Brom.
Em março, o ex-astro do Arsenal e Barcelona, Thierry Henry, disse à CNN que o discurso sobre a questão mudou tanto que as pessoas agora estão "esquecendo" por que os jogadores começaram a se ajoelhar.
"A causa é: o que você vai fazer para que seja melhor para todos? Igualdade. Todos e, obviamente, vou falar sobre minha comunidade", disse Henry a Darren Lewis, da CNN.
"Não se trata tanto de ajoelhar-se ou ficar em pé – o que, aliás, achei que ajoelhar era uma mensagem muito forte e todos nós sabemos de onde vem – mas então a discussão mudou para: estamos de pé ou estamos ajoelhado?"
Racismo na Inglaterra em 2021
Mas jogadores de futebol se ajoelharam e a reação de alguns fãs a esse ato levou a um questionamento e um debate mais amplo sobre o que isso diz sobre o racismo na Inglaterra em 2021.
Questionado sobre se as pessoas estavam usando "seu racismo mais levianamente" por causa do protesto, Tony Burnett, executivo-chefe da organização de inclusão de futebol Kick It Out, disse ao jornal Independent esta semana: "Não acho que isso seja sobre ajoelhar. Acho que isso começou quando o Brexit começou, o ódio, a polarização e as posições binárias que as pessoas assumiram a partir de então continuaram”.
"O Brexit tornou-se uma desculpa para o ressurgimento do racismo no Reino Unido e estamos vendo isso se manifestar no futebol agora. Não acho que jogadores que ajoelharam tenham causado isso, acho que as pessoas que estão se ajoelhando estão tentando resolver isso”, continuou.
"O que causou isso é o comportamento do governo, as atitudes do governo em relação à raça, o fracasso em combater o racismo em nível nacional e permitir que organizações e esportes como o futebol escapem impunes por anos".
No início deste ano, um relatório apoiado pelo governo britânico sobre o racismo institucional que não encontrou nenhuma evidência de que o país "ainda é institucionalmente racista" foi criticado pelos defensores da igualdade racial.
"Se você vaiar os jogadores da Inglaterra por ajoelharem, você é parte da razão pela qual os jogadores estão ajoelhando", tuitou o ex-jogador da seleção inglesa Gary Lineker.
Comentando sobre as vaias antes do jogo contra a Áustria, um usuário do Twitter foi ainda mais longe.
"Com base no que estamos vendo de um pequeno número de fãs, a Inglaterra vai ficar seriamente envergonhada na Euro 2020 pelo elemento racista extremo de nossos torcedores", ele tuitou. "Não tem como esconder, eles vaiam com orgulho o reconhecimento da igualdade. Difícil de acreditar".
Outro usuário do Twitter apresentou um ponto de vista diferente: "E se algumas pessoas vaiarem porque estão entediadas com a sinalização da virtude e nada realmente sendo feito sobre o problema. Ter que ver os jogadores se ajoelharem quando nada mais está acontecendo, nenhuma mudança sendo feita, etc?"
'Confuso e desapontado'
No sábado, o técnico da seleção da Inglaterra Gareth Southgate disse que sua equipe continuará a se ajoelhar antes do início de todas as partidas da Euro 2020.
"O mais importante para nossos jogadores é saber que estamos totalmente unidos nisso, estamos totalmente comprometidos em apoiar uns aos outros", disse Southgate aos repórteres.
"Mais do que nunca, nos sentimos determinados a ajoelhar neste torneio. Aceitamos que possa haver uma reação adversa, vamos apenas ignorar e seguir em frente".
“Acho que os jogadores estão cansados ou deveriam estar de falar sobre as consequências disso, não deveriam?"
"As suas vozes foram ouvidas em alto e bom som, eles estão defendendo sua posição, mas querem falar sobre o futebol".
Um membro da seleção inglesa da Euro 2020 - o meio-campista do Leeds Kalvin Phillips - disse estar "confuso e decepcionado" com as vaias antes da partida contra a Áustria.
"Não acho que seja uma boa situação, especialmente para nós, jogadores", disse Phillips.
"Os rapazes falaram sobre isso depois e chegamos à conclusão que não importa o que aconteça em volta, ainda vamos participar da manifestação, e acho que é uma ótima idéia".
Um legislador conservador, Lee Anderson disse que boicotará os jogos da Inglaterra devido à decisão dos jogadores de se ajoelharem.
Quando os jogadores da Inglaterra se ajoelharam antes do amistoso de domingo contra a Romênia, vaias foram ouvidas novamente no Riverside Stadium, embora outros torcedores tenham aplaudido o gesto.
Como na Euro 1996, os jogos da fase de grupos da Inglaterra serão disputados no estádio de Wembley. A primeira partida da equipe será contra a Croácia em 13 de junho, para uma multidão de 22 mil pessoas.
"A Euro 96 foi uma idade de ouro - ou três semanas de ouro", escreveu o jornalista do Guardian Simon Hattenstone, no sábado.
"Foi uma reunião de todos os tipos de coisas - estilo, esperança, política, cultura, comércio, luz do sol, sob o guarda-chuva do futebol internacional".
Este é um texto traduzido, para ler o original, em inglês, clique aqui.