Alupar aponta descompasso na transmissão e alta de cortes de energia

Projetos renováveis avançam mais rápido que a infraestrutura e enfrentam restrições no escoamento

Fabricio Julião, Robson Rodrigues, da CNN Brasil, São Paulo
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O avanço acelerado das fontes renováveis no Brasil tem esbarrado em um problema estrutural: a insuficiência da rede de transmissão de energia. Segundo Luiz Coimbra, diretor de relações com investidores da Alupar, o gargalo no escoamento da eletricidade já impacta diretamente os cortes de geração de energia determinados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), conhecidos pelo jargão “curtailment”.

“Existe um gargalo em transmissão de energia e isso é muito claro quando vemos os níveis de ‘curtailment’, que são as restrições de geração de energia nos projetos eólicos e solares. Estamos tendo restrições de 20% a 30% no escoamento de energia”, afirmou o executivo em entrevista ao programa Alta Voltagem, da CNN Infra.

O problema, segundo Coimbra, decorre de um descompasso entre o ritmo de implantação dos projetos de geração e o desenvolvimento da infraestrutura de transmissão. Enquanto parques eólicos e solares são concluídos em prazos relativamente curtos — entre 18 e 20 meses —, linhas de transmissão podem levar até cinco anos para entrar em operação, devido a entraves regulatórios, ambientais e fundiários. “Acho que houve um descompasso no planejamento”, disse.

Esse atraso tem provocado um aumento nos cortes de geração renovável, especialmente em regiões com forte expansão de eólicas e solares, como o Nordeste. O "curtailment" ocorre quando o sistema não consegue absorver toda a energia produzida, seja por limitações na rede ou por questões operacionais.

Apesar do cenário desafiador, Coimbra afirma que o impacto sobre os resultados da Alupar ainda é limitado. Isso porque a maior parte da receita da companhia vem do segmento de transmissão.

“Para nosso balanço, o impacto dos cortes de geração não são tão grandes, pois dentro da geração de caixa da Alupar, cerca de 25% é proveniente da geração. E dentro de geração, 20% é de eólica e solar, o resto é hídrico”, explicou.

Ainda assim, o executivo reconhece que o problema precisa ser resolvido para sustentar o crescimento das renováveis no país. Segundo ele, estão previstos cerca de R$ 60 bilhões em investimentos em transmissão nos próximos anos, numa tentativa de reduzir o atraso e ampliar a capacidade de escoamento.

Nesse contexto, a Alupar avalia novas oportunidades de expansão. “Vamos analisar a possibilidade de participar do leilão de corrente contínua”, afirmou Coimbra, referindo-se aos projetos de linhas de transmissão de alta capacidade, considerados estratégicos para integrar regiões com grande produção de energia renovável aos centros de consumo.