TCU nega suspensão do leilão de reserva de capacidade de energia

Apesar da decisão, Tribunal de Contas da União abre investigação sobre “geradores de papel”

Robson Rodrigues, da CNN Brasil, em São Paulo
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O TCU (Tribunal de Contas da União) decidiu não suspender o Leilão de Reserva de Capacidade (LRCap) de 2026, após sessão realizada nesta quarta-feira (15).

Ainda assim, o Tribunal abriu uma frente de investigação dentro do processo de homologação sobre possíveis irregularidades no certame, incluindo a atuação de empresas classificadas como “geradoras de papel” -- que vencem disputas sem capacidade real de executar os projetos.

A decisão foi tomada pelo plenário da corte ao analisar representação do MPTCU (Ministério Público junto ao TCU), que pedia medida cautelar para barrar o leilão até a apuração completa dos fatos.

O relator, ministro Jorge Oliveira, indeferiu o pedido de suspensão, mas autorizou a AudElétrica (Unidade de Auditoria Especializada em Energia Elétrica e Nuclear) a realizar inspeções nos agentes envolvidos.

“Proponho conhecer a representação por atender aos requisitos de admissibilidade e no mérito considerá-la parcialmente procedente, indeferir, por hora, a medida cautelar pleiteada, autorizar a AudElétrica a realização de inspeção nos entes envolvidos para coletar informações necessárias para acompanhamento do leilão”, disse Oliveira, em seu voto.

Pressão por irregularidades

O leilão, promovido pelo Ministério de Minas e Energia em março, contratou 18,97 GW de potência e deve movimentar cerca de R$ 64,5 bilhões. Entretanto, ao longo dos contratos, os consumidores devem arcar com cerca de R$ 515,7 bilhões em receitas aos geradores, o que intensificou o escrutínio sobre o processo.

A representação do subprocurador-geral Lucas Rocha Furtado levanta dúvidas sobre a legalidade do certame, com destaque para aumento de até 80% no preço-teto em apenas 72 horas, ausência de justificativa técnica detalhada e baixa competitividade e possíveis impactos na modicidade tarifária.

Apesar das suspeitas, o TCU ponderou que a paralisação do leilão poderia trazer riscos ao sistema elétrico.

Segundo o relator, atrasos no processo poderiam comprometer a contratação de capacidade e aumentar o risco em momentos de estresse da demanda. A homologação dos resultados está prevista apenas para 21 de maio, o que, na avaliação da Corte, abre espaço para aprofundar a análise sem prejudicar o atendimento energético.

O ministro Bruno Dantas acompanhou o voto e reforçou o argumento, destacando que a contratação é essencial para evitar riscos de apagão no país.

“Geradores de papel” entram na mira

O ponto mais sensível da discussão, porém, foi levantado pelo próprio Dantas: a presença de empresas sem histórico de execução, que vencem leilões com a estratégia de revender projetos.

“Alguns atores voltam à cena seguindo a mesma lógica. São geradoras de papel, que se estruturam para depois venderem o projeto, obtendo ágio expressivos e gerando custo para o consumidor”.

A citação remete ao caso da EPP (Evolution Power Partners), que teve participação relevante no leilão de 2021, mas não entregou as usinas no prazo previsto. A avaliação é que esse tipo de prática pode distorcer a competição, inflar preços e transferir riscos ao sistema e aos consumidores.

Em nota, a EPP disse que está prestando todos os esclarecimentos solicitados pelo Ministério Público ao TCU.