As expectativas — e riscos — em 4 países europeus que vão reduzir o isolamento


Laura Smith-Spark, da CNN
11 de abril de 2020 às 03:03
Vista da cidade de Copenhagen, na Dinamarca

Cidade de Copenhague, capital da Dinamarca

Foto: Kontraframe/Divulgação

As pessoas na República Tcheca agora podem fazer compras em lojas de ferragens e bicicletas, jogar tênis e nadar. A Áustria planeja reabrir pequenas lojas depois da Páscoa. A Dinamarca reabrirá jardins de infância e escolas a partir da próxima semana, se os casos de coronavírus permanecerem estáveis, e as crianças na Noruega voltarão ao jardim de infância uma semana depois.

Essas nações são os primeiros países ocidentais a começar a se afastar gradualmente das limitações da vida cotidiana impostas pelos governos para conter a disseminação do novo coronavírus (COVID-19).

Outros países vão querer ver quais lições podem ser aprendidas, pois também buscam uma saída do confinamento em meio a crescentes pressões sociais e econômicas.

Para a atleta profissional Irena Gillarova, da República Tcheca, o alívio das restrições na quinta-feira fez com que ela pudesse voltar a treinar no estádio Juliska, em Praga, pela primeira vez desde que seu país decretou quarentena. 

"Foi ótimo, honestamente. Fiquei emocionada e me sinto ótima", disse a atiradora de dardos à CNN na última sexta-feira. "Essas duas semanas em casa me ajudaram a apreciar meu trabalho ainda mais do que antes".

Os atletas têm um cronograma para garantir que apenas um certo número de pessoas esteja no estádio ao mesmo tempo. "Eu me senti 100% seguro", disse a competidora de 28 anos. "Sinto que o sistema é muito bom e estamos tentando ser inteligentes. Estamos assumindo com responsabilidade".

O Dr. Peter Drobac, especialista em saúde global da Oxford Saïd Business School, disse à CNN que esses países agora diminuindo suas restrições são "exemplos importantes e esperançosos" para o Ocidente.

"Ainda temos muito a aprender sobre como sairemos dos bloqueios com segurança e eficácia", disse ele.

Qualquer afrouxamento de limites acarreta riscos. O diretor regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a Europa, Dr. Hans Kluge, alertou esta semana que a situação no continente ainda é "muito preocupante" e insistiu que "agora não é hora de relaxar as medidas".

A Europa "continua muito no centro da pandemia", disse ele na quarta-feira, com sete dos dez principais países mais afetados do mundo localizados no continente.

Um estudo baseado no surto da China, publicado na revista médica The Lancet, sugeriu que os bloqueios por coronavírus em todo o mundo não deveriam ser completamente eliminados até que uma vacina para a doença seja encontrada.

"Em um lugar muito melhor"
Nenhum dos países que planeja diminuir suas restrições nos próximos dias está entre os mais afetados da Europa — e eles se esforçam para evitar uma segunda onda de infecções. Então, como eles chegaram aqui?

Segundo Drobac, as nações que se preparavam para diminuir as restrições tinham algo em comum: estavam entre as primeiras na Europa a implementar bloqueios ou medidas severas de distanciamento social e rapidamente aumentaram os testes de coronavírus.

"Eles tinham essas coisas bem ajeitadas e, como resultado, já passaram do pico de infecções por lá", disse ele. O número de mortes relacionadas ao coronavírus nesses países está na casa das dezenas ou centenas, e não das milhares, disse ele, e "elas estão em um lugar muito melhor por causa de uma ação proativa".

O que eles anunciaram sobre como planejam gradualmente relaxar as restrições "parece razoável e inteligente", considera Drobac.

"É um processo muito gradual e eles serão capazes de aprender e acompanhar as coisas em termos de novas infecções. Mas se elas se tranquilizarem demais e as infecções começarem a aumentar, poderão precisar recuar um pouco. É assim que todos os países terão que fazer isso ".

Outros países que desejam seguir o mesmo caminho precisam cumprir três critérios gerais, acrescentou o especialista, especialmente se quiserem evitar uma segunda onda da doença.

Primeiro, eles precisam ter "dobrado a curva" e visto uma redução consistente no número de novos casos, disse ele. Em segundo lugar, seus sistemas de saúde precisam ser capazes de lidar sem recorrer a medidas de crise, como hospitais de emergência.

Terceiro, necessitam de um sistema para testes em massa, rastreamento de contatos e isolamento, para que os doentes possam ser isolados precocemente antes de infectar outras pessoas, disse ele.

Dinamarca 'andando na corda bamba'
O governo dinamarquês afirmou que planeja enviar as crianças de volta à escola e jardim de infância a partir de 15 de abril, se os casos de coronavírus permanecerem estáveis.

Mas a vida no país seguirá longe do normal.

Muitas restrições permanecerão em vigor e sua reversão poderá ser lenta, disse o governo. A proibição de reuniões de mais de 10 pessoas foi prorrogada até 10 de maio e todos os serviços religiosos, cinemas e shopping centers também se manterão fechados.

Todos os festivais e grandes reuniões seguirão vetados até agosto, disse a primeira-ministra Mette Frederiksen. As fronteiras da Dinamarca também permanecerão fechadas.

"Provavelmente será como andar na corda bamba", disse Frederiksen em entrevista à imprensa na segunda-feira, segundo a agência de notícias Reuters. "Se permanecermos parados ao longo do caminho, poderemos cair e se formos rápidos demais, pode dar errado. Portanto, devemos dar um passo cauteloso de cada vez."

A nação de 5,8 milhões estava entre os primeiros europeus a fechar suas fronteiras em 13 de março. Na mesma semana, fechou escolas, cafés e lojas, além de proibir reuniões de mais de 10 pessoas e visitas a hospitais.

"A única maneira de evitar os trágicos cenários em lugares como a Itália e os EUA é porque agimos rapidamente [na Dinamarca]", disse Frederiksen na TV estatal do país.

Lojas tchecas reabrem
A República Tcheca também se moveu rapidamente para impor restrições às viagens, proibir grandes eventos e fechar negócios não essenciais, depois de declarar estado de emergência em 12 de março. Inusitadamente na Europa, também exigia que seus 10,7 milhões habitantes cobrissem o rosto com máscaras ou lenços quando estivessem fora de casa desde 19 de março.

Agora, esses estritos esforços de contenção parecem estar valendo a pena, pois o governo anunciou na segunda-feira que começaria a relaxar algumas restrições ao coronavírus nesta semana.

Desde terça-feira, as pessoas têm permissão para se exercitar sozinhas, sem máscaras. Comércios como lojas de construção e de ferragens, além de centros de reparos de bicicletas estão entre os locais que podem reabrir a partir de quinta-feira.

As instalações externas para esportes individuais também estão reabrindo, mas apenas em certa medida — não mais que duas pessoas podem estar no mesmo espaço e não é permitido usar chuveiros ou armários.

Viagens essenciais para fora da República Tcheca serão permitidas a partir de 14 de abril, diz um comunicado do governo.

Gillarova, a atleta citada no início da reportagem, continua esperançosa de que as competições internacionais sejam reiniciadas em algum momento deste ano — talvez com o Campeonato Europeu de Atletismo em Paris ainda podendo ser realizada em agosto de 2020 — após o baque pelo adiamento das Olimpíadas para 2021.


Áustria: reabertura gradual
A vizinha Áustria, onde o popular resort de esportes de inverno de Ischgl, na província do Tirol, esteve ligado no mês passado à disseminação do coronavírus para outras partes da Europa, está adotando uma abordagem diferente.

O chanceler austríaco, Sebastian Kurz, anunciou nesta semana que o país estava se preparando para uma "ressurreição" após a Páscoa, reabrindo algumas lojas menores, como centros de ferragens e jardins, a partir de 14 de abril. Mas agora também exigirá que as pessoas usem máscaras nos supermercados e em público transporte.

A partir de 1º de maio, todas as lojas, shopping centers e cabeleireiros serão abertos; enquanto isso, restaurantes e hotéis só voltarão às atividades a partir de meados de maio, no mínimo, em um processo gradual. Isso acontecerá "sob estritas condições de segurança, é claro", disse Kurz.

Ele também alertou que o perigo do coronavírus ainda não acabou, citando Cingapura, que viu ressurgir casos nos últimos dias. "Quem acredita que a situação está sob controle está errado", afirmou.

O governo decidirá no final de abril se deve estender o ensino em casa para além de meados de maio e não haverá grandes eventos até o final de junho.

"Nosso objetivo deve ser eliminar passo a passo a doença", disse Kurz. "Vamos nos reunir novamente daqui mais uma semana."

Na última semana, a Áustria realizou testes com 1.500 pessoas em todo o país, na tentativa de avaliar a extensão do espalhamento do coronavírus. O estudo constatou que menos de 1% da população não hospitalizada estava infectada. Anteriormente, o país havia focado os testes naqueles que estavam gravemente doentes com sintomas associados ao vírus.

O número de casos confirmados de coronavírus na Áustria chegou a 12.969 na quinta-feira, informou o Ministério da Saúde do país. Atualmente são 295 mortos.

 

Noruega: otimismo cauteloso
A Noruega está adotando uma abordagem diferente novamente, priorizando a reabertura de escolas, começando a abrandar as medids de contenção introduzidas em meados de março.

O país iniciará a redução das medidas de bloqueio a partir de 20 de abril, disse a primeira-ministra Erna Solberg, quando os jardins de infância começarem a reabrir. Uma semana depois, as escolas reabrem para os alunos do primeiro ao quarto ano.

"Nossa ambição é que todos os alunos voltem à escola antes do verão", disse Solberg.

O governo acredita que as últimas estatísticas fornecem uma base para "otimismo cauteloso", indicando que a taxa de infecção se estabilizou, disse a premiê.

"Ao trabalharmos juntos, controlamos o vírus e podemos começar a levantar restrições pouco a pouco. Faremos isso juntos, com cautela e sem pressa".

Segundo o Instituto Norueguês de Saúde Pública, a Noruega confirmou 6.244 casos de COVID-19 na quinta-feira e 92 mortes até sexta-feira de manhã.


Outros países
No resto do continente, outras nações estão tentando adotar medidas para reduzir seus bloqueios, enquanto ainda não definem uma data precisa.

A chanceler alemã, Angela Merkel, disse na quinta-feira que os últimos números de coronavírus em seu país deram motivos para "esperança cautelosa", mas alertou que os alemães ainda devem seguir as restrições atuais nas próximas semanas.

Merkel afirmou que uma decisão sobre se e como reduzir as medidas se baseará em um amplo estudo científico a ser publicado na próxima semana.

O ministro da Saúde, Jens Spahn, disse anteriormente que o país havia visto um "achatamento" nas infecções recentemente relatadas, à medida que medidas restritivas à vida pública entram em vigor. Atualmente, a Alemanha está realizando 100.000 testes de coronavírus por dia, disse ele, e 40% de seus leitos de terapia intensiva permanecem vagos, apesar da crise.

"Queremos retornar gradualmente à normalidade — mas ainda estamos longe da vida cotidiana como a conhecíamos antes do coronavírus", disse Spahn. "Nem tudo vai voltar ao que era antes. Continuaremos a viver com a pandemia na Alemanha".

A Suíça também considera meios para sair do confinamento. Apesar das restrições de distanciamento social estarem mantidas até 26 de abril, governo indicou que outras regras poderão ser relaxadas ainda este mês — incluindo controles de fronteira, fechamento de escolas e proibições de reuniões — se a propagação do vírus for controlada.

Enquanto esses países e outros andam na corda bamba entre proteger a saúde pública e manter suas economias vivas, fica claro que muitas armadilhas estão por vir.

Recentemente, a OMS enfatizou que estamos na "hora de duplicar e triplicar nossos esforços coletivos" para suprimir o vírus.

"Pensar que estamos chegando perto de um ponto final seria uma coisa perigosa a se fazer", disse Dr. Hans Kluge, da entidade mundial de saúde. "Qualquer mudança em nossa estratégia de resposta, relaxamento do status de bloqueio ou medidas físicas de distanciamento, requer uma consideração muito cuidadosa".