Após 4 meses, mercados de Wuhan começam a reabrir

Na quarta-feira, bancas vendiam legumes frescos e carnes, mas nenhum animal selvagem estava à venda

Da CNN, em São Paulo
23 de abril de 2020 às 10:09
Na Ásia, mercados úmidos são locais que vendem carnes, peixes e produtos perecíveis
Foto: Shanghai Daily/ Reuters

Os chamados mercados úmidos - termo utilizado em partes da Ásia para descrever locais que vendem carnes, peixes e produtos perecíveis - da cidade de Wuhan, na China, estão reabrindo gradativamente. A região, localizada na Província de Hubei, foi o primeiro epicentro do novo coronavírus no mundo.

Pode ser um choque ver que a China permitiu a reabertura desses locais, depois que um deles foi identificado como provável ponto de origem da doença que infectou mais de 2,6 milhões de pessoas em todo o planeta. Mas há muitos equívocos com relação a esses mercados, sobre o que eles vendem e o papel deles na sociedade chinesa e asiática em geral.

Caminhando por um desses mercados de Wuhan nessa quarta-feira (22), a CNN viu bancas vendendo legumes frescos e carnes. E com exceção de alguns sapos e cobras, nenhum animal silvestre exótico estava à venda.

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Na verdade, a maioria desses comércios na Ásia são apenas locais para os cidadãos comprarem produtos rotineiros, como carne de porco, frango e frutos do mar, a preços mais acessíveis.

Muitos deles estão envolvidos no comércio ilegal de animais silvestres, como o mercado de frutos do mar de Wuhan, onde acredita-se que a COVID-19 tenha se originado, mas eles são minoria.

Mudança de comportamento

No início de abril, a China elaborou novas diretrizes para reclassificar cães como animais de estimação, em vez de animais para consumo. Embora a carne de cachorro continue sendo uma iguaria em muitas regiões, o Ministério da Agricultura chinês disse que os cães não serão mais considerados alimentos.

Além disso, em fevereiro, a China passou a proibir a venda de animais silvestres para consumo alimentar. Apesar de ainda não estar claro qual animal transmitiu o vírus para humanos - morcego, cobra ou pangolim, uma espécie de mamífero de zonas tropicais da Ásia e África, estão entre as possibilidades - o país reconhece que precisa controlar o lucrativo mercado de animais silvestres para prevenir outro surto de doença.

Ainda assim, acabar com esse comércio será difícil. As raízes culturais do uso de espécies silvestres na China são profundas, não só na alimentação, mas também na medicina tradicional, nas vestimentas, ornamentos e até como animais de estimação.

Especialistas em saúde pública dizem que a proibição é um importante primeiro passo, mas cobram que Pequim use essa oportunidade para acabar com brechas – como o uso na medicina tradicional chinesa – e comece a mudar as atitudes culturais no país em relação ao consumo de animais silvestres.

Indústria bilionária

Tentativas de controlar a disseminação de doenças também são atrapalhadas pelo fato de o uso de animais, incluindo os silvestres, ser enorme na indústria chinesa.

Um relatório encomendado, em 2017, pelo governo à Academia Chinesa de Engenharia descobriu que o comércio de animais selvagens do país movimentava mais de US$ 73 bilhões e empregava mais de um milhão de pessoas.

Desde a descoberta do novo coronavírus em dezembro, quase 20.000 fazendas que criam animais silvestres em sete províncias chinesas foram fechadas ou colocadas em quarentena, incluindo criadores especializados em pavões, raposas, veados e tartarugas, de acordo com comunicados divulgados por governos locais.