O que é o novo coronavírus e o que ele está causando no Brasil e no mundo


Jéssica Otoboni, da CNN, em São Paulo
06 de abril de 2020 às 08:24 | Atualizado 06 de abril de 2020 às 08:29
Pessoas com máscaras de proteção caminham em rua de Wuhan, na China

Pessoas com máscaras de proteção caminham em rua de Wuhan, na China, primeiro epicentro da COVID-19

Foto: Aly Song - 03.abr.2020/ Reuters

O novo coronavírus tem espalhado pânico pelo mundo e causado transtornos nos setores turístico e econômico de diversos países. Até a segunda semana de abril, mais de 64,5 mil pessoas haviam morrido por causa da doença e mais de 1 milhão estavam infectadas. A Organização Mundial de Saúde (OMS) classificou o surto como pandemia após ele atingir 118 países. 

A disseminação do vírus tem levado a impactos negativos no mercado financeiro, cancelamento de eventos e medidas emergenciais, como isolamento de populações e suspensão de viagens a determinados países. Confira abaixo o que se sabe sobre a doença e os impactos dela no planeta. 

Como surgiu o vírus? 

Ainda não se sabe, com certeza, a verdadeira origem do novo vírus causador da doença nomeada pelos cientistas como COVID-19. Ele foi identificado, pela primeira vez, em dezembro de 2019, no mercado de alimentos que vende, ilegalmente, animais selvagens na cidade de Wuhan, capital de Hubei, na China. Os casos vieram à tona após relatos de diversos relatos de pneumonia.  

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Especialistas acreditam que o vírus pode ter se originado em morcegos e depois passou para humanos. 

É importante destacar que os primeiros coronavírus foram identificados em meados da década de 1960. A maioria das pessoas tem contato com eles ao longo da vida, mas com variações mais simples.  

Até o momento, há cinco tipos de coronavírus conhecidos, entre eles o causador da Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars), da Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers) e o novo coronavírus (COVID-19), responsável pelo surto atual. 

Quais são os sintomas do coronavírus? 

Os principais sintomas apontados pela OMS são febre, cansaço e tosse seca. Alguns pacientes podem apresentar também coriza, dores na garganta, na cabeça e/ou nos músculos e diarreia. Em casos mais severos, a infecção pode causar pneumonia, falha nos rins e até mesmo a morte.  

Apenas uma em cada seis pessoas infectadas desenvolvem sintomas mais graves, como dificuldade de respiração.  

Aqueles com sistema imunológico mais fraco, como idosos e crianças, são mais vulneráveis à doença, mas a letalidade já alcançou também indivíduos jovens e/ou que não apresentavam problemas de saúde. 

O coronavírus é muito perigoso? 

A OMS define o novo coronavírus como pertencente à família dos mesmos vírus que causam Mers e Sars. É importante lembrar que é possível se recuperar da doença - cerca de 80% dos pacientes que contraem COVID-19 se recuperam sem a necessidade de tratamentos especiais.  

A taxa de mortalidade global do novo coronavírus é 3,4%, estimou a OMS em março. Em comparação, o surto de Sars registrou uma taxa de 9,6%; o de Mers, de 35%; o da gripe A (H1N1), 1%; da gripe comum, menos de 0,1%; e da gripe espanhola, 2,5%. 

Em 2003, a Sars infectou mais de 8 mil pessoas - sendo os idosos o grupo mais vulnerável - e matou 774, a maioria na Ásia, de acordo com a OMS. O coronavírus ultrapassou esse número no início de fevereiro. Porém, apesar de já ter feito mais vítimas que a Sars, a chance de uma pessoa infectada morrer por causa dele é 4,5 vezes menor. 

A Mers fez 866 vítimas, registrando casos de infecção em 27 países. A H1N1, também conhecida como Influenza A, atingiu 214 países e matou mais de 300 mil pessoas. Apesar disso, sua taxa de mortalidade é estimada em 0,02%. 

A infectologista Ana Freitas Ribeiro, do Instituto Emílio Ribas, destaca que o índice de letalidade do novo coronavírus “não deve chegar às taxas da Sars e da Mers”. Ela explica que o valor varia de país para país conforme aumenta o número de mortos em relação aos casos confirmados.  

Como o coronavírus é transmitido? 

O vírus é transmitido por gotículas. Quando alguém infectado tosse ou espirra em uma determinada superfície e uma pessoa saudável tem contato com esse lugar e depois toca os próprios olhos, nariz ou boca, pode contrair a doença. A contaminação também acontece quando alguém infectado tosse ou espira próximo a um indivíduo saudável. É por isso que as autoridades recomendam manter distância de um metro de quem estiver doente. 

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Análises científicas apontam que cada pessoa infectada com o novo coronavírus pode transmitir a doença para duas a três pessoas, em média. Mesmo assim, o Ministério da Saúde informa que as “investigações sobre a transmissão do novo coronavírus ainda estão em andamento” e, portanto, “não está claro com que facilidade o novo coronavírus se espalha de pessoa para pessoa”. 

Qual o tempo de incubação do coronavírus? 

O tempo estimado entre o dia da contaminação e o surgimento dos primeiros sintomas costuma variar de 1 a 14 dias. Em média, eles aparecem em cinco dias. 

Mulheres infectadas também podem passar coronavírus para seus filhos durante a gestação?  

Médicos do Hospital Infantil de Wuhan detectaram essa possibilidade após uma paciente infectada dar à luz um bebê no dia 2 de fevereiro e, 30 horas depois, ele ser diagnosticado com a doença. Ainda não há muitas informações sobre essa condição. 

Cães e gatos podem pegar coronavírus? 

Não. Segundo a OMS, ainda não há evidências de que animais domésticos, como cachorros e gatos, possam contrair ou mesmo transmitir a doença. 

Como evitar o coronavírus? 

A OMS recomenda lavar bem e frequentemente as mãos com sabão, evitar tocar as mucosas dos olhos, cobrir as mãos e o nariz ao tossir e espirrar, usar lenço descartável para higiene nasal, cozinhar bem carnes e ovos, manter os ambientes bem ventilados. É recomendado, também, que se evite contato próximo com animais selvagens, manter distância de, ao menos, um metro de pessoas, evitando aglomerações, e não compartilhar objetos de uso pessoal, como talheres, pratos, copos ou garrafas. 

O coronavírus tem tratamento? 

Por enquanto não, mas pesquisas estão em desenvolvimento. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) diz que umidificadores de ar e banhos quentes podem ajudar com a tosse e a dor de garganta. O órgão recomenda beber muito líquido e ficar em repouso. A OMS desaconselha a ingestão de analgésicos e/ou antitérmicos porque não há evidências de que eles possam prevenir ou curar a doença. 

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Existe vacina para o coronavírus? 

Por enquanto não, mas institutos de saúde, cientistas e universidades estão tentando desenvolvê-la. Uma equipe de pesquisadores britânicos anunciou, em meados de fevereiro, que está testando uma vacina em ratos e espera concluir a experiência até o fim do ano. 

Mesmo assim, especialistas afirmam que ela pode não ficar pronta a tempo de tratar o surto atual. Além disso, é provável que, se desenvolvida, a vacina não seja usada em quem já está infectado, e sim para evitar que pessoas saudáveis fiquem doentes. 

“O desenvolvimento de uma vacina, assim como antivirais para o tratamento, serão ferramentas que terão impacto importante na progressão da epidemia e na redução da letalidade”, diz a infectologista. 

O clima impacta na disseminação do vírus? 

Segundo Ana Freitas, doenças respiratórias costumam ser mais comuns no inverno, mas não porque simplesmente o ar fica mais frio, e sim porque as pessoas ficam mais aglomeradas. Ela explica que o calor não impede a transmissão da doença, mas como a aglomeração de pessoas em um mesmo lugar fechado tende a ser menor, os vírus não se espalham tão facilmente. 

Quais países já registraram casos confirmados de coronavírus? 

A maioria dos casos registrados – 307,3 mil - são nos EUA. Cerca de 200 países registraram a doença.  

Grande parte das mortes ocorreram na Itália (15,3 mil). A Espanha é o segundo país com mais vítimas do vírus (11,7 mil mortes), seguida dos EUA (8,3 mil) e da França (7,5 mil).  

Existe alguma explicação para o coronavírus ser tão mais avançado na China do que em outros países? 

“A exposição humana próxima a animais de diferentes espécies ocorre nas feiras de animais vivos, propiciando a passagem do coronavírus para humano”, explica Ana Freitas. “Esta é uma prática cultural na China e há, ainda, o grande contingente populacional.” 

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Apesar disso, o governo da China declarou no dia 12 de março que o pico do novo coronavírus no país acabou. "De um modo geral, o pico da epidemia já passou na China. O surgimento de novos casos [também] está caindo”, disse Mi Feng, porta-voz da Comissão Nacional de Saúde. 

Wuhan determinou a quarentena tarde demais ou medidas como essa não têm muita eficácia? 

Para a infectologista Ana Freitas, é provável que a transmissão já estivesse ocorrendo na cidade muito antes de se ter conhecimento sobre ela em razão do intenso trânsito de pessoas na região. Além disso, há questões em aberto sobre a doença. “Ainda não foram estabelecidas todas as formas de transmissão. A principal é respiratória, mas é preciso entender melhor a carga da doença na comunidade, seu espectro clínico (leve, moderado ou grave), formas e tempo de transmissão e em que fase o doente pode transmitir o vírus.” 

Como está a situação do Brasil? 

Até o momento, há mais de 11 mil casos confirmados no país e 486 mortes causadas pela doença, segundo o Ministério da Saúde. São Paulo é o estado com mais vítimas (275), seguido do Rio de Janeiro (64) e Ceará (26). 

O que as autoridades têm feito para conter o surto? 

Na China, o governo estabeleceu, no início do ano, quarentena em Wuhan, cidade com cerca de 11 milhões de habitantes, bloqueou a maioria dos acessos à região e pediu às pessoas que não saiam da cidade. Agora, as medidas estão começando a ser aliviadas em razão da queda no número de casos confirmados.

Na Itália, o governo anunciou medidas de emergência, como fechamento de lojas comerciais e restrição da circulação de pessoas em todo o país. No EUA, o presidente Donald Trump determinou restrições contra 26 países europeus, proibindo viagens entre eles e o território americano por 30 dias.

Diversos outros países também estabeleceram medidas restritivas para moradores e turistas, incluindo o Brasil.  

O que o governo brasileiro está fazendo para conter o surto do novo coronavírus? 

O Ministério da Saúde solicitou a “atualização de planos de contingência a estados e capitais”, o que permite a atuação conjunta do órgão, estados e municípios em situações de epidemias e desastres “que demandem a ação urgente de medidas de prevenção, com protocolos e procedimentos específicos”.  

Em janeiro de 2020, o ministério ativou o Centro de Operações de Emergência em Saúde Pública (COE-COVID-19), coordenado pela Secretaria de Vigilância em Saúde, que visa preparar a rede pública de saúde para atender os casos da doença no país. 

A pasta também anunciou o lançamento de um editorial com cerca de 5 mil vagas para o programa Mais Médicos, ampliando o número de profissionais no atendimento. 

Em abril, o ministério adquiriu 15 mil respiradores mecânicos, no valor de US$ 13 mil cada, com investimento de R$ 1 bilhão. No total, o governo federal destinou R$ 14,3 bilhões exclusivamente ao combate do novo coronavírus.

Além disso, diversos estados e municípios determinaram o isolamento de suas populações e incentivaram as pessoas, principalmente os idosos, a ficarem em casa.

Como o coronavírus tem impactado a economia mundial? 

A disseminação do vírus tem assustado os investidores e alguns analistas acreditam que essa pandemia pode levar o planeta à recessão. A queda dos investimentos levou caos ao mercado financeiro. Bolsas de valores pelo mundo têm registrado perdas históricas. No dia 12 de março, mercados globais sofreram as piores perdas desde 1987, depois que Trump anunciou a proibição das viagens entre EUA e Europa. 

No Brasil, o mecanismo de “circuit breaker” foi acionado na manhã de 9 de março e na tarde de 11 de março. A ferramenta utilizada pela B3 permite a suspensão parcial das negociações em caso de quedas bruscas.  

A bolsa de valores brasileira já apresentava forte queda no dia 11 desde a abertura, mas a situação piorou ainda mais após a OMS declarar o surto de COVID-19 como pandemia. A última vez que a B3 paralisou os negócios duas vezes na mesma semana foi em 2008, durante a crise financeira nos EUA, conhecida como “crise do subprime”. 

Há eventos cancelados por causa do coronavírus? 

Em diversos países, escolas e faculdades suspenderam as aulas, e conferências e eventos esportivos e culturais que reúnem centenas de pessoas foram cancelados ou adiados.  

No futebol, por exemplo, partidas da Liga dos Campeões e da Liga Europa foram adiadas, assim como jogos do Campeonato Inglês, do Espanhol e do Italiano. No basquete, a NBA (principal liga profissional americana) suspendeu os jogos por tempo indeterminado. Até os Jogos Olímpicos de Tóquio foram adiados para 2021. 

No mundo da música, diversas bandas e artistas, como Pearl Jam, Madonna e BTS, estão cancelando ou adiando turnês pelo mundo. Dentre os festivais americanos, o Coachella, na Califórnia, que seria realizado em abril, foi adiado para outubro, e o South by Southwest (SXSW) foi cancelado pela primeira vez em 34 anos de existência. No Brasil, o Lollapalooza, programado para abril, foi adiado para dezembro.

A Eletronic Entertainment Expo (E3), evento que é referência para a indústria de videogames, foi cancelada. E até a estreia de grandes produções cinematográficas sofreram adiamentos por medo dos estúdios com o COVID-19, como Missão impossível 7, que teve suas filmagens interrompidas.