Repórter da CNN é detido durante cobertura de protestos em Minneapolis


Da CNN
29 de maio de 2020 às 07:53 | Atualizado 29 de maio de 2020 às 10:20

O repórter da CNN Omar Jimenez, foi detido nesta sexta-feira (29) durante a transmissão ao vivo dos protestos na cidade de Minneapolis, nos Estados Unidos, mesmo após se identificar como jornalista aos policiais. O produtor Bill Kirkos e o fotógrafo Leonel Mendez, membros da equipe de Jimenez, também foram presos. O repórter Josh Campbell, branco e do mesmo grupo de jornalistas, chegou a ser abordado, mas, diferente de Jimenez - que é negro e latino -, não foi levado para a delegacia. Cerca de meia-hora depois, todos foram soltos.

Nesta manhã, cenas caóticas foram vistas na cidade de Minneapolis após a chegada da polícia e o confronto com os manifestantes. Eles protestam pelo terceiro dia contra a morte de George Floyd, homem negro que foi sufocado e morto por um policial branco durante abordagem. Os agentes chegaram a usar gás de pimenta e cassetetes para dispersar a multidão.

No momento em que estava sendo algemado, Jimenez perguntou aos agentes por que ele estava sendo preso. Eles disseram que o jornalista foi instruído a mudar de lugar e não acatou à ordem. Antes do ocorrido, Jimenez pediu aos policiais para avisá-lo caso quisessem que ele e sua equipe se deslocassem. 

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Josh Campbell, membro da equipe de Jimenez, também cobria os protestos perto dos demais jornalistas, mas não estava com o grupo no momento da prisão. Ele afirmou que chegou a ser abordado pelos policiais, mas o "trataram muito diferente" e o deixaram continuar com o seu trabalho. "Eu me identifiquei e eles disseram 'ok, você tem permissão para ficar na área'", descreveu Campbell.

Após ser solto, Jimenez afirmou que ficou satisfeito com o fato de que as pessoas puderam ver a situação do país. "Aquilo me deu um certo conforto por saber que vocês viram o que estava acontecendo. Eu vivi o que estava acontecendo e o país viu o que estava acontecendo em tempo real", disse ele. 

Cobertura de prisão durante protesto

Em meio ao protesto, Omar Jimenez cobria ao vivo uma prisão feita perto de uma delegacia que foi incendiada por manifestantes durante a madrugada. Neste momento, alguns policiais se aproximaram do jornalista e de sua equipe, pedindo que eles saíssem dali. 

Jimenez e os colegas afirmaram que eram parte da mesma equipe de jornalistas da CNN e ele se identificou calmamente mostrando um crachá da empresa. "Podemos voltar para onde vocês queriam. Estamos ao vivo agora", disse o repórter. "Estávamos saindo do seu caminho quando você avançou pelo cruzamento."

Poucos minutos depois, dois agentes disseram a Jimenez que ele estava preso. "Por que estou preso, senhor?", perguntou ele, sem se exaltar. O jornalista foi então algemado e retirado do local.

Omar Jimenez, cuja mãe é negra e o pai se identifica como colombiano, começou a carreira de jornalista há oito anos e se juntou ao time da CNN em 2017. Ele cobriu, no estado de Maryland, os julgamentos dos policiais acusados de matar Freddie Gray, negro de 25 anos, em 2015, entre outros eventos. 

Violação da Primeira Emenda

A CNN criticou a prisão de um de seus funcionários e pediu a liberação imediata dele e da equipe. Além disso, considerou a ação "uma clara violação dos direitos da Primeira Emenda".

Prevista na Constituição dos EUA, a Primeira Emenda protege os direitos fundamentais dos cidadãos norte-americanos contra interferências do governo, proibindo o estabelecimento de qualquer lei que impeça a liberdade de religião, de expressão, de imprensa e as associações pacíficas.

Quando um jornalista é preso durante a cobertura de um protesto, a apuração livre e justa das notícias também é presa. Esta é uma das razões pela qual violações à liberdade de imprensa são relativamente raras nos EUA e porque a prisão dos jornalistas da CNN nesta sexta chama a atenção.

"A polícia não pode impedir jornalistas de cobrirem protestos se estes estiverem em um local em que o público é permitido, e se não estiverem atrapalhando ou interferindo na aplicação da lei. O simples fato de estar perto de um protesto ou outro evento não é um crime", defende a ONG Comitê de Repórteres pela Liberdade de Imprensa em seu guia para a cobertura de manifestações.

O CEO global da CNN, Jeff Zucker, conversou com o governador de Minnesota, Tim Walz, após a prisão dos jornalistas. Walz pediu desculpas pelo ocorrido e disse que iria libertar a equipe imediatamente. Ele ainda qualificou as detenções como "inaceitáveis", disse que a CNN tem o direito de estar ali e quer que a imprensa acompanhe e noticie os protestos.