CNN Mundo: Estados Unidos debatem reforma no sistema policial


da CNN, em São Paulo
19 de junho de 2020 às 21:05 | Atualizado 19 de junho de 2020 às 22:33
 
O CNN Mundo desta semana analisa o debate corrente nos Estados Unidos sobre a reforma da polícia. 

O assunto ganhou força após a morte de George Floyd, asfixiado durante uma abordagem policial por um agente branco. O episódio gerou uma onda de protestos no país e em vários outros lugares do mundo. 

A medida, por meio de um decreto do presidente americano Donald Trump, tenta amenizar essa efervescência.

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Segundo Trump, a ordem executiva limita a utilização de estrangulamento durante abordagem a suspeitos, exceto se a vida de um policial estiver em perigo. Outra medida apresentada é a criação de um banco de dados nacional que contenha informações sobre policiais com denúncias de uso de força excessiva.

Para avaliar esse cenário, o analista de internacional da CNN Lourival Sant'Anna conversa com Bruno Langeani, gerente de projetos do Instituto Sou da Paz, João Fiocchi, doutorando em sociologia na Universidade da Pensilvânia, e Paulo Ramos, sociólogo do Afro-CEBRAP (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento).

Destaques da edição

Para Fiocchi, a ação de Trump é "tímida". "[O decreto] não dará conta das demandas colocadas pela sociedade. Colocar as informações de policiais em um banco de dados federal é importante, mas é uma medida que pode ser facilmente não implementada", disse. 

Ele acredita que, com o seguimento dos protestos, seria possível chegar a soluções mais concretas. "Os políticos estão muito conectados com a pressão popular que veem das ruas", afirmou. "Pela pressão popular podemos chegar a medidas mais eficazes para tratar da questão da violência".

No entanto, ele vê a postura de Trump como importante contrapeso. "O discurso do Trump mostra que ele dá sinais simbólicos e concretos que ele tem muita pouca disponibilidade em fazer reformas que vão mudar a fundo a estrutura das polícias".

Isso porque a violência policial está dentro de um sistema estrutural e está fortemente conectada ao racismo, explica Ramos, do Afro-CEBRAP. "A polícia comete racismo institucional, mas ela não é a única instituição a cometer isso", declarou. "A corporação precisa entender que ela deve satisfações à sociedade. Enquanto as políticas públicas não compreenderem isso, vão continuar reproduzindo a discriminação racial".

Para ele, apesar das diferenças estruturais e históricas entre Brasil e EUA, os países se assemelham nos crimes cometidos pela polícia. No entanto, ele faz uma ressalva. "Nos EUA o conflito é muito mais declarado. No Brasil se discutiu muitos anos violência, sem discutir racismo".

A posição de Ramos é compartilhada por Bruno Langeani. "As polícias precisam ser parte da mudança do racismo estrutural no Brasil", disse. 

Ele também falou sobre a dificuldade que o caso Floyd enfrentará na Justiça. "O policial que matou o cidadão negro tinha outras 15 denúncias que não foram julgadas anteriormente. Promotores ficam receosos de seguir com a denúncia, com medo de que ela não seja forte o suficiente e isso acabe prejudicando a carreira deles".