Conversas gravadas secretamente mostram frustrações de Melania Trump


Caroline Kelly, da CNN
02 de outubro de 2020 às 16:53
A primeira-dama dos EUA, Melania Trump, teve conversas divulgadas por ex-amiga
A primeira-dama dos EUA, Melania Trump, teve conversas secretas divulgadas por ex-amiga
Foto: Pool/CNN

A primeira-dama dos Estados Unidos, Melania Trump, teve conversas gravadas secretamente no verão de 2018 nas quais expressa sua frustração por ser criticada pela política de imigração de seu marido, Donald Trump.

Melania menciona as ações de separar famílias que cruzaram ilegalmente a fronteira com o México numa época em que ela, como primeira-dama, precisava desempenhar suas funções tradicionais, como cuidar da preparação para o Natal.

“Dizem que sou cúmplice. Eu sou igual a ele, eu o apoio. (Que) Eu não falo o suficiente, não faço o suficiente onde estou”, disse a primeira-dama em uma conversa gravada por Stephanie Winston Wolkoff, uma ex-amiga e ex-conselheira sênior da primeira-dama, que escreveu um livro sobre o relacionamento entre elas, Melania and Me (Melania e eu, sem edição no Brasil).

Os áudios foram exibidos com exclusividade durante o programa “Anderson Cooper 360”, da CNN americana, na noite de quinta-feira (1º).

“Estou trabalhando feito uma louca com preparativos de Natal, sabe, e quem se importa com essa m***a de coisas e decorações de Natal? Mas eu preciso fazer isso, né?”

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Melania prossegue: “OK, daí eu faço isso e digo que estou trabalhando no Natal e planejando o Natal e eles falam: 'Ah, e as crianças que foram separadas?' Dá um tempo, p***a. Onde eles estavam ou falavam alguma coisa quando Obama fez isso? Eu não posso ir, eu estava tentando reunir o garoto com a mãe. Eu não tive nem chance, seria preciso passar pelo processo e pela lei”.

A política a que Melania Trump se referiu era diferente da de seu marido, o presidente Donald Trump. No governo do ex-presidente Barack Obama, as crianças eram separadas dos pais apenas quando as autoridades se preocupavam com seu bem-estar ou não podiam confirmar que o adulto era de fato seu tutor legal, mas não como uma política geral como feito por Trump, até um juiz forçar a governo a parar com a separação de crianças.

Em um comunicado, a chefe de gabinete de Melania Trump, Stephanie Grisham, criticou Wolkoff por divulgar a gravação.

“Gravar secretamente a primeira-dama e violar deliberadamente um acordo de confidencialidade para publicar um livro devasso é uma tentativa clara de buscar relevância. O momento disso continua sendo suspeito, assim como esse exercício interminável de autopiedade e narcisismo”, afirmou Grisham em um comunicado.

Em outra gravação, Melania Trump enfatiza a reação de crianças imigrantes trazidas “por coiotes” como evidência da qualidade dos centros de detenção e “a maneira como eles cuidam das crianças”.

“As crianças dizem: ‘Uau, eu vou ter minha própria cama? Vou dormir na cama? Vou ter um armário para minhas roupas?’ É tão triste ouvir isso, mas eles não tinham isso em seus próprios países, eles dormiam no chão”, falou a primeira-dama, na gravação.

“Lá eles são bem atendidos. Mas, sabe, sim, eles não estão com os pais, e isso é triste. Mas quando eles chegam aqui sozinhos ou com coiotes ou ilegalmente, sabe, a gente precisa fazer alguma coisa”.

O presidente dos EUA, Donald Trump, e a primeira-dama, Melania, em Cleveland
O presidente dos EUA, Donald Trump, e a primeira-dama, Melania, em Cleveland
Foto: Carlos Barria - 29.set.2020 / Reuters

A primeira-dama também lançou dúvidas sobre a autenticidade dos relatos de alguns imigrantes sobre a fuga do perigo em seus países de origem.

“Muitas mães e crianças são ensinadas a fazer isso. Elas chegam e falam: ‘Ah, a gente vai ser assassinado por um membro de uma gangue, vai sim, sabe, é tão perigoso’”, afirmou Melania, imitando uma voz dramática. “Daí elas têm permissão para ficar aqui.”

“Não é verdade que eles iriam [ser mortos], você sabe o que quero dizer", disse a primeira-dama, acrescentando que “eles não são profissionais, mas são ensinados por outras pessoas o que dizer para assim poder ficar aqui. Porque eles poderiam facilmente ficar no México, mas não querem ficar no México porque o México não cuida deles da mesma forma que os Estados Unidos”.

No programa de quinta-feira, a ex-amiga contou para Cooper que ela acreditava que Melania pode ter sentido uma preocupação maternal com as crianças, mas havia superado isso para se encaixar na proposta do governo.

“Acho que, como mãe, seus instintos maternais foram acionados e ela se importou”, disse Wolkoff. “Mas não dá para recorrer ao marido, o líder do mundo livre, para discutir como ela se sente a respeito disso. Portanto, independentemente disso, ela decide abordar o tema e falar que aquilo que ouviu dos outros é como funciona o estado de direito em nosso país”.

Wolkoff acrescentou: “Por outro lado, as tradições da primeira-dama e do presidente foram por água abaixo com este casal e sinto que havia, ou melhor, há muito que poderia ser feito, mas, novamente, não há nenhum apoio. Nenhuma compreensão”.

Trump ficou furioso com o lançamento do livro de Wolkoff e a mudança de lado da ex-conselheira, que passou de uma amiga sempre de prontidão e membro ativo de seu círculo íntimo para uma criadora de “história revisionista” – termo usado por Grisham em nome de Trump para descrever a atitude da ex-amiga.

No livro, Wolkoff revela conversas privadas com a primeira-dama sobre tópicos que incluem seu relacionamento gelado com sua enteada Ivanka, seu casamento, seus pensamentos sobre a política de fronteira, Michelle Obama, a controvérsia sobre uma jaqueta que ela usou em 2018 e seu uso frequente de emojis. A escritora afirmou ainda que Melania usou uma conta de email privada na Casa Branca, um tabu ético mesmo para uma primeira-dama, que não é funcionária do governo.

Ex-funcionária da revista Vogue responsável por cuidar de eventos da alta sociedade, como o Met Gala, Wolkoff conhece Melania Trump há mais de uma década. As duas foram próximas por vários anos, quando moravam em Nova York e atuavam em círculos sociais semelhantes.

Wolkoff foi a primeira contratação de Trump para a Ala Leste (a área doméstica da Casa Branca), atuando como consultora sênior da primeira-dama, escrevendo discursos e ajudando a criar o que se tornaria a plataforma “Be Best” (“Seja o melhor”).

No entanto, com o desenrolar das investigações sobre as atividades da posse do presidente, o relacionamento de Wolkoff com Trump se desfez. O motivo seria a quantidade de dinheiro que Wolkoff e sua empresa de eventos supostamente embolsou durante o planejamento e execução da posse.

A empresa de Wolkoff recebeu mais de US$ 26 milhões pela festa. A maior parte do valor foi repassada para empresas terceiras, mas uma quantia pesada, supostamente US$ 1,6 milhão, foi diretamente para os negócios de Wolkoff, de acordo com documentos revisados pela CNN. A ex-conselheira recebeu pessoalmente cerca de US$ 500 mil por seu trabalho na posse, de acordo com o The New York Times.

Ganesh Setty, da CNN, contribuiu para esta reportagem.

(Texto traduzido, leia o original em inglês)