O que é o EndSARS e como ele molibizou a Nigéria

O #EndSARS levou milhares de jovens às ruas e mostrou a identidade da nova geração nigeriana

Stephanie Busari, da CNN
26 de outubro de 2020 às 16:57 | Atualizado 26 de outubro de 2020 às 18:20
Protesto pacífico do movimento #EndSARS, em Lagos, na Nigéria
Protesto pacífico do movimento #EndSARS, em Lagos, na Nigéria
Foto: Reprodução/Twitter

Esta é uma análise feita pela analista de assuntos internacionais da CNN, Stephanie Busari

Por quase duas semanas, uma juventude insatisfeita da Nigéria tomou as ruas, bloqueando vias importantes em várias cidades do país mais populoso da África.

Eles marcharam em dezenas de milhares entonando um “basta” contra a brutalidade policial e a violência.

Os protestos ganharam as ruas após a circulação de um vídeo que mostra um homem sendo espancado pelo que parecem oficiais de polícia de uma unidade especial chamada Esquadrão Especial Anti-Roubo, ou SARS. Vários casos de brutalidade cometidas pelo grupo já foram registrados na Nigéria e o descontentamento com os oficiais é antigo.

As demandas iniciais do grupo pediam o fim da  SARS, mas as marchas desde então adotaram pautas como a reforma da polícia e o fim da má governança na Nigéria. O movimento ficou conhecido como “EndSARS”, em português “acabe com a SARS”.

Um dos cantos mais populares usado nos protestos é “soro soke”, que significa “fale alto” na língua Yorubá.

A frase virou “um grito de guerra do EndSARS... um tom de rebelião, uma nota de beligerância válida e um canto de união na dificuldade dos nigerianos em enfrentar a violência policial e um governo terrível”, escreveu Motolani Alake, um jornalista que escreve para o jornal local Pulse.

A desigualdade econômica alcançou níveis extremos na Nigéria de acordo com a Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), e a Oxfam reportou em 2019 que quase 70% da população do país vive abaixo da linha da pobreza.

Pessoas jovens com menos de 30 anos formam mais de 40% da população da Nigéria. Eles enfrentam dificuldades severas e um desemprego crônico. De acordo com a Chatham House, uma organização sem fins lucrativos, “se os desempregados da juventude nigeriana formassem seu próprio país, seria maior do que a Tunísia ou a Bélgica”.

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Com este movimento de protestos, eles estão fazendo com que suas vozes sejam ouvidas e falando sobre as injustiças, os assédios e as extorsões que dizem ter aguentado nas mãos de oficiais da SARS.

A unidade SARS foi montada em 1992 para lutar contra roubos armados e lhes foram concedidos diversos poderes. Muitos dos oficiais não usam uniformes ou etiquetas com nomes para se identificar.

Inúmeras queixas registradas afirmam que alguns deles se voltaram contra os cidadãos e estavam perpetuando os crimes que foram criados para combater.

A Anistia Internacional documentou 82 casos de brutalidade policial na Nigéria entre 2017 e 2020. Em um relatório publicado em junho de 2020, a organização voltada para os direitos humanos afirmou que pessoas sob custódia da SARS eram “submetidas a diversos métodos de tortura, incluindo enforcamento, falsas execuções, socos e chutes, queimaduras, afogamento, asfixiamento com sacolas plásticas e violência sexual”

Queixas sobre a SARS não são novas. As pessoas têm falado sobre isso na internet desde 2017, mas a catarse para os protestos em todo o país ocorreu no início de outubro, quando registros vieram a tona sobre policiais que atacaram um jovem e fugiram no carro dele, um Jeep de luxo.

O caso foi a faísca para o uso da hashtag #EndSARS e dois músicos populares no país, Runtown e Falz, decidiram fazer uma marcha presencial para protestar.

Falz, nome artístico de Folarin Falana, disse que eles esperavam “algumas pessoas”, mas foram surpeendidos quando centenas, incluindo outras celebridades, apareceram.

“Todos aqui estão insatisfeitos com o fracasso do governo em responder a tal nível de clamor das pessoas, é uma desconsideração pura da população. Essa administração é muito insensível”, disse Falz à CNN.

Em pouco tempo, o movimento se espalhou organicamente pelo país, enquanto anos de frustrações ferveram entre jovens que se sentem injustiçados.

“A Nigéria está enfrentando um ajuste de contas, um que está atrasado há muito tempo”, disse Yetunde Omede, professor de relações internacionais e política em Nova York.

“Com uma população abaixo de 30 anos inflada, a Nigéria não pode mais ignorar as demandas dos jovens.”

Durante os protestos, participantes montaram tendas e mesas de DJ em vários locais.

Alguns acamparam durante a noite na frente da Assembléia Estadual de Lagos, enquanto outros entoaram “Solidariedade para sempre”, cantaram o hino nacional repetidamente e fizeram sessões de orações de diferentes credos, e também um ‘festival das luzes’, em homenagem aos mortos.

“Esse é um despertar da Geração Y, que tem menos de 35 anos, e terá um impacto significativo no cenário político”, disse a analista Amaka Anku, que lidera o Grupo de Estudos da África na Eurásia, à CNN.

“Eu acredito que o movimento vai definir a consciência política nacional e já se transformou em uma organização política. Ele vai levar a mudanças em 2023 e definir os pontos centrais das campanhas nas eleições presidenciais em 2023”, acrescentou Anku.

Omede afirma que o movimento em si não é sobre violência policial apenas.

“São anos de trauma social causados por um sistema de saúde e educação inadequados, corrupção sistêmica, nepotismo, fraudes eleitorais, miséria e mais”, ela disse.

“O movimento EndSARS é o ponto de virada.”

Como previsto, os protestos do EndSARS na Nigéria foram comparados ao movimento Black Lives Matter, que pauta o racismo nos Estados Unidos.

O movimento atraiu um apoio global massivo, com protestos solidários no Reino Unido, Estados Unidos, Alemanha e outras partes do mundo,

Celebridades internacionais como Kanye West, John Boyega e Rihanna, entre outros, fizeram postagens em redes sociais em apoio ao movimento, chamando a atenção para a hashtag #EndSARS.

O CEO do Twitter, Jack Dorsey, fez uma postagem na rede sobre o movimento, e a plataforma verificou as contas de líderes proeminentes da causa e criou um emoji para ela.

Manifestante jovem usa camiseta do movimento em Lagos
Manifestante jovem usa camiseta do movimento em Lagos
Foto: REUTERS

A Coalizão Feminista

As mulheres assumiram um papel de liderança no movimento, e a Coalizão Feminista levantou quase 400 mil dólares para financiar os protestos por todo o país.

Eles postam sua contabilidade e gastos em tempo real no Twitter, e logo receberam elogios pela transparência, algo que os nigerianos pedem há muito tempo a seus líderes.

Além disso, o movimento providenciou assistência médica gratuita para aqueles que foram feridos em protestos e ajuda voluntária legal para ajudar a libertar manifestantes que foram presos.

Uma das manifestantes, que prefere ser chamada de CM, pois afirma que recebeu diversas ameaças, disse à CNN: “Estamos unidos como juventude nigeriana. Os últimos tempos têm sido os mais assustadores e tristes, independentemente de classe, tribo ou qualquer outra coisa. Nós nos unimos para dizer que não queremos ser assassinados, extorquidos, assediados, violentados.”

“Algo que eu tirei de tudo isso é que, no momento em que as pessoas se unem, podem alcançar qualquer coisa”, ela acrescentou.

O apoio mundial e a intensidade do EndSARS provocou o establishment, que tem respondido com força bruta e um nível de violência que tem provocado raiva e condenação mundial.

Na terça-feira, dia 20 de outubro, manifestantes sentaram-se em frente a um pedágio em Lekki, uma via da cidade de Lagos, e cantaram o hino nacional. Eles afirmam que foram cercados de ambos os lados da passagem e forças policiais abriram fogo.

Dados da Anistia Internacional afirmam que pelo menos 12 pessoas morreram.

A artista conhecida como DJ Switch estava transmitindo os protestos ao vivo em seu perfil no Instagram quando o tiroteio ocorreu.

Ela disse à CNN: “Eu estou de coração partido. Não houve aviso. Só ouvimos tiros e os soldados se aproximaram com as armas em riste. Foi a pior cena que já presenciei na vida. Eles estavam apenas atirando, como se fôssemos animais.”

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O exército nigeriano afirmou em nota que os relatos são “fake news”. O exército não respondeu a pedidos de comentários feitos pela CNN.

Mesmo antes do tiroteio na terça-feira, os manifestantes enfrentaram gás lacrimogêneo e balas de borracha durante marchas pacíficas.

Ainda que o General Inspetor da Polícia da Nigéria (IGP), Mohammed Adamu, tenha anunciado a dissolução da SARS -- pela quarta vez em quatro anos -- os protestos ainda estavam sendo dispersados com gás lacrimogêneo, canhões de água e balas de borracha.

Aisha Yesufu, de 45 anos, é uma ativista veterana que se juntou aos protestos logo em seu início.

Ela pontua que o movimento está sendo liderado pelos “jovens da Nigéria” e diz que está apenas “lhes dando apoio moral”.

Entretanto, uma foto dela, com o punho em riste e em frente a policiais na capital Abuja ficou registrada pelas redes sociais.

“Eu levantei minhas mãos e cerrei meu punho, e comecei a andar para trás devagar, e começaram a atirar em mim”, disse Yesufu.

“Eu me preparei para o impacto e começaram a jogar gás lacrimogêneo. Eu disse a mim mesma, ‘não importa o que aconteça, eu vou continuar em pé’. Eu estava me preparando para a dor de qualquer impacto”, ela acrescentou.

A CNN contatou a polícia nigeriana para comentar as alegações contra os oficiais. O porta-voz do estado Muyiwa Adejobi disse que todas as queixas contra seus oficiais são investigadas minuciosamente e as sanções apropriadas são aplicadas aos transgressores.

Diversos estados do país também iniciaram investigações dos oficiais.

Homenagem às vítimas de Lekki, em Lagos
Homenagem às vítimas de Lekki, em Lagos
Foto: Reprodução/Twitter

Um governo sob pressão

Após dias de silêncio, o presidente Buhari falou sobre o assunto publicamente na quinta-feira (22), mas não falou sobre os ataques aos manifestantes.

Ao contrário, ele fez comentários que insinuavam pedidos que os jovens deixassem as ruas e interrompessem os protestos. O discurso foi mal recebido e muitos afirmaram que ele não demonstrou empatia ou responsabilidade pela morte de nigerianos.

O impacto final do discurso foi que muitos nigerianos se sentiram esvaziados, e de forma habitual, responderam com humor para mascarar a decepção.

Logo, “visto para o Canadá” e “passaporte internacional” entraram nos trending topics do Twitter.

Já o EndSARS está levando a mensagem de Buhari a sério e disse que vai paralisar as manifestações presenciais para focar na agitação na internet.

CM disse à CNN: “Os protestos pararam mas nós ainda temos muitas perguntas sobre aqueles que perderam suas vidas. O movimento não acabou”.

“Agora temos de pensar de forma estratégica para que ninguém perca suas vidas. Não queremos que ninguém mais esteja em perigo”.

Após o discurso de Buhari, a Coalizão de Grupos de Protesto publicou um posicionamento que afirma que estão determinados a pressionar as autoridades por uma Nigéria melhor.

“Pelo bem estar de nossos companheiros e cidadãos que estão sendo afetados de forma adversa por isso, nós iremos despriorizar os protestos físicos, por enquanto”, afirma a publicação.

“Mas, por aqueles que morreram, antes dos protestos, durante os protestos, e pelas mãos de soldados no pedágio de Lekki -- pessoas as quais o governo continua a se recusar a reconhecer, a luta deve continuar”.

O movimento, de muitas frentes, tem uma força que deve ser reconhecida, uma que deu uma chance à juventude nigeriana de ser ouvida.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês)