Vaticano admite que João Paulo II promoveu arcebispo ciente de suspeita de abuso

Uma investigação interna mostrou que a justificativa do papa para a decisão na época centrou-se nas próprias negações de Theodore McCarrick

Delia Gallagher, Richard Greene, Hada Messia e Rob Picheta, da CNN
10 de novembro de 2020 às 12:08 | Atualizado 10 de novembro de 2020 às 16:55

 

O papa João Paulo II, que morreu em 2005, foi alertado sobre as alegações de abuso sexual contra Theodore McCarrick, mas optou por promovê-lo a arcebispo de Washington, D.C., nos Estados Unidos, mesmo assim. 

Uma investigação interna do Vaticano, concluída nesta terça-feira (10), mostrou que a justificativa do papa para a decisão na época centrou-se nas próprias negações de McCarrick e em um relatório feito por bispos norte-americanos que concluía que as "informações eram imprecisas e incompletas".

O documento atual sobre a maneira como o Vaticano lidou com a figura mais alta da Igreja a ser destituída por abuso sexual foi publicado após dois anos de investigações e escrutínio sobre como McCarrick foi autorizado a subir na hierarquia católica.

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Theodore McCarrick renunciou ao Colégio de Cardeais em 2018
Theodore McCarrick renunciou ao Colégio de Cardeais em 2018 e foi destituído pelo Vaticano em 2019
Foto: Reprodução - 10.nov.2020 / Reuters


Elevado a cardeal em 2001 por João Paulo II, um ano depois de se tornar arcebispo de Washington, D.C., McCarrick tornou-se um personagem de poder tanto na Igreja quanto na capital dos EUA, e era conhecido pela arrecadação de fundos e influência.

Ele renunciou ao Colégio de Cardeais em 2018 e foi destituído pelo Vaticano em 2019, depois que um julgamento da Igreja o considerou culpado por abuso sexual de menores.

Papa Francisco

O relatório do Vaticano, em grande parte, parece absolver o papa atual, Francisco, de qualquer culpa. "Até 2017, ninguém [...] forneceu ao papa Francisco qualquer documentação referente às alegações contra McCarrick", disse o resumo executivo do relatório.

"O papa Francisco soube apenas que havia alegações e rumores relacionados à conduta imoral com adultos ocorrida antes da nomeação de McCarrick para Washington", segundo o documento, acrescentando que, a princípio, Francisco acreditava "que as alegações já haviam sido revisadas e rejeitadas pelo papa João Paulo II".

O relatório detalha ainda as alegações contra McCarrick na época em que João Paulo II o nomeou arcebispo de Washington. Os abusos cometidos foram organizados no relatório em quatro categorias.

As alegações incluem o caso de um padre que diz ter observado McCarrick tendo conduta sexual com outro padre, cartas anônimas acusando-o de pedofilia, que ele era "conhecido por ter compartilhado uma cama com jovens adultos na residência do bispo nas cidades de Metuchen e Newark", e que era "conhecido por ter compartilhado uma cama com seminaristas adultos em uma casa de praia na costa de New Jersey".

Esses incidentes teriam ocorrido na época em que McCarrick era bispo de Metuchen, entre 1981 a 1986, e arcebispo de Newark, de 1986 a 2000. João Paulo II o nomeou para ambos os cargos e, pessoalmente, tomou a decisão de nomeá-lo arcebispo de Washington, de acordo com a conclusão do relatório.

Dois anos de investigação

O documento do Vaticano divulgado nesta terça não é focado nos abusos de McCarrick ou na culpabilidade dele sob a lei canônica em si, mas lança luz sobre o que a Santa Sé sabia sobre ele e quando descobriu.

No entanto, o relatório diz que "vários indivíduos que tiveram contato físico direto com McCarrick foram entrevistados" ao longo da investigação de dois anos.

"Durante longas entrevistas, muitas vezes emocionais, as pessoas descreveram uma variedade de comportamentos, incluindo abuso ou agressão sexual, atividade sexual indesejada, contato físico íntimo e o compartilhamento de camas sem toque físico. Essas entrevistas também incluíram relatos detalhados relacionados ao abuso de autoridade de McCarrick e poder", de acordo com o documento.

O relatório afirma ainda que o papa Bento XVI pediu a renúncia de McCarrick em 2005, depois que "as acusações de perseguição e abuso contra adultos começaram a surgir novamente". Além disso, o Escritório para Bispos do Vaticano disse a McCarrick oralmente em 2006 e por escrito em 2008 para se aposentar da vida pública, mas ele ignorou essas recomendações.

O documento destaca que o papa Francisco também estava ciente de "rumores relacionados à conduta imoral com adultos" antes da nomeação de McCarrick para Washington, mas decidiu não tomar nenhuma ação para modificar "o curso adotado por seus predecessores".

Quando a primeira acusação de abuso sexual de um menor surgiu em 2018, a resposta de Francisco foi "imediata", de acordo com o relatório, e ele demitiu o ex-cardeal do sacerdócio.

(Texto traduzido. Leia o original em inglês.)